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15/4/12 às 11:00

Brasília é espelho da diversidade cultural

O entrevistado da AGÊNCIA BRASÍLIA nesta semana é o secretário de Cultura Hamilton Pereira. Ele explica por que o Governo do Distrito Federal escolheu a literatura como tema do aniversário de 52 anos de Brasília e como a capital está se tornando um reflexo das diferentes identidades culturais do país

Victor Ribeiro, da Agência Brasília

Brasília comemora, no próximo sábado, 52 anos de fundação e, desta vez, o grande evento promovido pelo Governo do Distrito Federal para festejar o aniversário da capital do país é a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Trata-se de um evento gratuito, promovido na Esplanada dos Ministérios, e que traz à cidade grandes nomes do pensamento crítico e da literatura brasileira, como Ziraldo e Leonardo Boff, e também estrangeiros, como o paquistanês Tariq Ali e o nigeriano Wole Soyinka, ganhador do prêmio Nobel de Literatura.
 
A Bienal começou neste sábado (14) e segue até a próxima segunda-feira (23), Dia Mundial do Livro. Ela não será apenas um evento pioneiro na cidade, mas marca também a meta definida pelo GDF de, até 2014, fazer do Distrito Federal território livre do analfabetismo, por meio do programa DF Alfabetizado. Para explicar como essa política transversal, que integra diversas áreas do governo, tornou-se o principal evento nos 52 anos de Brasília, a AGÊNCIA BRASÍLIA entrevista esta semana o secretário de Cultura, Hamilton Pereira.
 
Qual vai ser o grande palco de comemoração do aniversário de 52 anos de Brasília?
 
Eu diria que nos fizemos uma opção de governo. No ano passado, fizemos a festa popular em torno da reivindicação de sediarmos na capital do país a abertura da Copa do Mundo. Nossa mensagem foi: a Copa começa aqui. Este ano fizemos uma escolha de girar em cima de uma espinha dorsal: a 1ª Bienal do Livro e da Leitura. Ao longo de sua campanha, o governador Agnelo Queiroz assumiu com a sociedade um conjunto de compromissos, entre eles o de converter Brasília na capital do livro e da leitura. Ele alargou esse objetivo fixando a meta de que, até o final do mandato, vamos declarar livre do analfabetismo a Capital da República Federativa do Brasil, a sexta economia do mundo.
 
Como a Bienal se insere nesse contexto?
 
Quem combate o analfabetismo tem que oferecer a sustentação para consolidar esse objetivo. Não basta que as pessoas saibam assinar nomes: é preciso que elas adquiram o hábito da leitura. E não apenas no suporte antigo do livro impresso, mas buscando as diferentes formas de leitura. Então, Brasília iniciou ontem as festividades do seu aniversário na Esplanada dos Ministérios, com uma iniciativa que é inédita na cidade: a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Trabalhamos com o livro nas suas diversas formas, lembrando que ele é símbolo do esforço da humanidade de produzir e reproduzir suas sensibilidades culturais, sua relação com a natureza e com a sociedade. O livro encarna, materializa isso.
 
Mas a Bienal não ficará restrita aos livros…
 
Não. Ela se articula com outras linguagens, como o circo, o teatro, a dança, a música. Vamos ter as atividades ao longo desta semana e, no fim da semana, de 20 a 22, nós vamos dar um peso maior, com palcos abertos aos artistas da cidade, em primeiro lugar. Ao longo dessa última semana, uma comissão examinou as propostas de mais de 200 grupos artísticos brasilienses que se credenciaram para participar do chamamento público feito pela Secretaria de Cultura. Nós extraímos desse conjunto algo em torno de 75 grupos culturais e artistas que convidamos, vindos de outros lugares do Brasil. Temos mantido o nosso compromisso republicano com a economia da cultura no Distrito Federal e com os talentos que Brasília produz para que a gente possa abrir espaços para que esses artistas expressem sua criatividade e talento nas diversas linguagens.
 
Para quem ainda não visitou a Bienal, como está a estrutura?
 
Temos palcos para a juventude, a música gospel, as culturas populares e para grandes espetáculos de música, em que nós vamos trazer o Capital Inicial, que é um produto de Brasília e daquilo que se pôde absorver das outras experiências estéticas nessa linguagem do rock, além de um artista convidado, que é o Caetano Veloso. E por que o Caetano? Porque estamos trabalhando com músicos que também escrevem. Ou seja, para trabalhar essa interseção entre a palavra cantada, escrita, falada. Esse é o espírito dessa festividade. Oferecemos uma festa popular em torno dessas possibilidades fantásticas que o livro traz consigo e, ao mesmo tempo, chamando para o diálogo com as diferentes linguagens estéticas.
 
O aniversário de Brasília será, então, um dos pontos altos da política de incentivo ao livro e à leitura, e de fim do analfabetismo?
 
Eu diria que é importante para a gente alcançar esse objetivo. Não podemos trabalhar com o pensamento, a reflexão, o debate e deixar de lado o lúdico, o prazeroso. Queremos associar essas duas dimensões, porque elas são essenciais. Não podemos nos aproximar do livro como se fosse uma obrigação. Queremos nos aproximar do livro com prazer. Por isso, estamos homenageando, dentro da Bienal do Livro e da Leitura, a figura do Ziraldo, que é absolutamente exemplar de inteligência, criatividade e humor brasileiro. Uma pessoa que desempenha há décadas um serviço inestimável para aproximar as crianças e a juventude da leitura, por meio do texto e do desenho, porque ele acabou se convertendo ao longo da vida num mestre nestas duas artes. Ao mesmo tempo, vamos homenagear o primeiro prêmio Nobel negro da história desse prêmio, que é o nigeriano, Wole Soyinka.
 
Por que essa homenagem?
 
Porque nós, da capital da República, estamos restabelecendo tardiamente os laços entre a cultura brasileira e as culturas africanas, que são partes fundamentais da nossa matriz, da nossa formação, das nossas identidades culturais. Brasília chega tarde a esse debate. O Brasil começou a tratar disso no governo Lula, a partir de 2003. Nós perdemos quase dez anos fora da sintonia daquilo que o país passou a viver, quando nós, num certo sentido, redescobrimos nosso compromisso com o continente Africano. Esse é um outro foco da Bienal: trazemos como convidados nossos intelectuais vizinhos, dos países da América Latina. São escritores que vêm do México, da Nicarágua, de Cuba, do Peru, do Equador, do Chile. Estamos trabalhando no sentido de estabelecer a sintonia de Brasília com essa dinâmica que o país está vivendo há quase dez anos.
 
Que é conhecer seu passado e sua historia.
 
Conhecer o passado, a história, os seus vínculos com as culturas africana e latino-americana, sem deixar de perceber que nós temos a vocação conosco desde o nascimento. Brasília é uma cidade universalista. Então, nós trazemos também norte-americanos, europeus, asiáticos, indianos para que a gente devolva para a capital do país sua vocação cosmopolita.
 
E a entrada vai ser gratuita?
 
Essa é uma Bienal pública, o que reforça uma característica marcante do nosso governo: recuperar o papel do Estado como indutor dos processos culturais. Então, ninguém paga para entrar. A Bienal estará funcionando com entrada gratuita, as pessoas podem entrar, participar do debate, comprar livros e conversar com autores, que estarão, ao longo desses dias, à disposição dos cidadãos e cidadãs de Brasília. Será seguramente um momento de festa para a cidade.
 
O senhor também participará da Bienal, como mediador da mesa Fé, fanatismo e conflitos políticos no mundo atual, do Seminário Krisis, em um debate entre o teólogo Leonardo Boff e o escritor Tariq Ali, um ativista contra guerras. Será no dia 18 de abril. O que o senhor pensa sobre esses conflitos?
 
Esse tema está na programação da Bienal porque ele faz parte da agenda do mundo contemporâneo. Vamos abrir portas para uma oxigenação da cidade a partir dos debates sobre os grandes desafios pra o mundo. Essa temática ganhou relevância com muita força a partir de 11 de setembro e, muitas vezes, é recortada por clichês preconceituosos contra o mundo muçulmano a partir da brutalidade do atentado.
 
Ainda dentro dessa política de valorização de Brasília, há pouco tempo houve uma visita técnica da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Quais os desafios de proteger um patrimônio com essa dimensão?
 
Brasília é o único patrimônio tombado que foi construído no século XX. É a maior área entre aquelas que a Unesco reconhece como Patrimônio Mundial. Temos, no entanto, contradições importantes, porque essa é uma cidade viva e não engessada. Em 50 anos convertemos isso aqui numa metrópole. Brasília está cercada por uma população de 2,5 milhões de habitantes. Isso nos faz a terceira ou quarta metrópole do país, em um tempo recorde. Cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza e Salvador levaram séculos para alcançar a população que Brasília atingiu em 50 anos. Isso é muito desafiador. E Brasília é um polo de atração. É uma cidade planejada, com um certo contorno que precisa ser protegido, e com a qual nós precisamos aprender a conviver. Brasília não é apenas um monumento. Ela tem de ser tratada não como um mero destino turístico, mas como um destino turístico onde vivem e exercitam seus direitos cidadãos e cidadãs. Pessoas que estão aqui para construir suas vidas.
 
E como o senhor avalia a visita da Unesco?
 
Os consultores da Unesco tiveram acesso a todas as informações que desejaram e vão preparar um relatório. O governador, antes mesmo dessa visita, decretou 2012 como o Ano da Preservação e Valorização do Patrimônio. Isso nos ajuda institucionalmente a buscar recursos para que a gente reforme, reconstrua e preserve edificações. Por exemplo, estamos a meio caminho de um projeto que recupera um dos ícones da capital, do ponto de vista afetivo e também arquitetônico, que é o Cine Brasília. Nós realizamos a primeira etapa da reforma do Cine Brasília – a impermeabilização – e agora vamos, nos próximos dias, homologar a licitação para a segunda etapa dessa reforma, para que possamos devolver à cidade, ainda este ano, o Cine Brasília, que é um palácio do cinema na cidade, uma referência cultural muito importante. É a casa do Festival de Cinema, que completa 45 anos agora e é o mais antigo festival de cinema brasileiro do país. Ao recebermos a visita da Unesco, estamos conscientes, primeiro, da necessidade de preservação da nossa cidade. Segundo, do enorme desafio que isso significa. Em terceiro, que esse governo tem o compromisso de qualificar cada vez mais a arquitetura e o urbanismo de Brasília, para que ela continue merecendo a admiração que despertou no mundo.
 
O senhor lembrou esta semana, durante a abertura da exposição Mundo em Movimento: saberes tradicionais e novas tecnologias, no Memorial dos Povos Indígenas, que existe um compromisso firmado pelo governador Agnelo Queiroz de transformar Brasília em um reflexo da diversidade cultural do país. Seria uma forma de resgatar o orgulho do brasiliense pela sua cidade e de todo o Brasil por sua capital. Como a política de cultura para essa gestão prevê fazer isso?
 
Eu digo sempre que nós estamos vivendo, no governo Agnelo Queiroz, uma etapa de reconstrução institucional, de credibilidade e também física dos espaços. Reconstrução das políticas – entre elas a das políticas públicas de cultura. A exposição Mundo em Movimento traz para a população de Brasília a rica diversidade cultural que as populações indígenas ofereceram e oferecem para o país ao longo desses 500 anos de história conflitiva – nós não ignoramos isso. Em vários momentos esses 500 anos de história da relação entre a sociedade europeia colonizadora e as sociedades indígenas foram marcados por extermínio físico de populações e, em muitas outras ocasiões, por aquilo que nós podemos chamar de etnocídio. Quer dizer, essa submissão das culturas, da diversidade cultural das populações indígenas.
 
Ao comentar a importância de espaços de valorização da nossa identidade cultural, o senhor também lembrou uma data triste para todos os brasileiros, nao apenas os brasilienses: o dia 20 de abril de 1997, quando o índio pataxó Galdino foi assassinado.
 
O que eu disse na abertura da exposição eu quero repetir aqui. Há 15 anos eu era o secretário de Cultura quando ocorreu o assassinato feroz do índio Galdino, num ponto de ônibus da Asa Sul. Um índio que veio passar o Dia do Índio na capital da República teve o corpo incendiado por jovens de classe média do Plano Piloto. Nós nos vimos em uma situação em que a Funai [Fundação Nacional do Índio], na ocasião, não tinha um lugar onde velar o corpo. Quando eu fui demandado, disse que tínhamos uma casa, um Memorial dos Povos Indígenas, que estava fechado à época. Pois abrimos, para que fosse velado o corpo. Essas coisas nós não podemos esquecer, porque nós lidamos com duas palavras que podem resumir o que é cultura: memória e invenção. Com essas duas palavras a gente trabalha todo o universo da construção das relações culturais.
 
É por esse momento que o Distrito Federal está passando?
 
Essa etapa de reconstrução que nós estamos vivendo passa pela recuperação de espaços físicos. No próximo dia 20 de abril, o governador Agnelo Queiroz vai devolver à população do Distrito Federal o Catetinho, que era onde Juscelino Kubitscheck repousava quando vinha a Brasília na época da construção da capital. Temos essa recuperação viva que vimos na última semana no Memorial dos Povos Indígenas, com uma magnífica exposição para oferecer à cidade e àqueles que nos visitam como turistas. Ainda este ano vamos devolver o Panteão da Pátria, ali na Praça dos Três Poderes. Queremos devolver a sala do Cine Brasília recuperada e, quem sabe, no ano que vem, começarmos a terceira etapa que é a de ampliação do espaço nos fundos do Cine Brasília, previsto no projeto original, para adequarmos aquele espaço ao seu melhor desempenho. Ao mesmo tempo, trabalhar nessas duas dimensões – a fixação e a reconstrução permanente da memória – e sermos fieis àquilo que é tão caro para nós, que vivemos em Brasília, que é a invenção. Brasília é a cidade inventada por Lúcio Costa e traz isso como sua marca. A tarefa da Secretaria de Cultura é trabalhar, tanto no sentido de estimular na sociedade a criatividade dos artistas, o talento dos músicos, dos literatos, arquitetos, etc., como também restabelecer os procedimentos democráticos e republicamos que entraram em colapso no governo anterior.
 
O que é preciso para esse restabelecimento?
 
Nós precisamos – e vai levar tempo – de que essas instituições, que foram levadas a pique, sejam reconstruídas e reconhecidas pela população, de forma que a gente reerga a autoestima dos cidadãos da capital da República. Para que sintam orgulho de viver nesse lugar, que tem a invenção mais delirante do país e que foi materializada pelas mãos dos candangos, com a capacidade de realização do nosso povo mais pobre, mais desvalido. Muitos nordestinos que desceram, ao longo dos anos, para construírem, tijolo por tijolo, esta cidade. Brasília é essa síntese da capacidade criativa e de realização do povo brasileiro.

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Foto: Brito

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