8/12/15 22:53
Atualizado em 23/11/17 às 18:06

Um problema chamado Aedes aegypti

Segundo especialista, única forma de se proteger é não deixar que o inseto nasça

Com apenas cerca de meio centímetro de comprimento, ele é transmissor não só da dengue como também da febre chikungunya, da febre amarela e do zika vírus. No início do século 20, no Brasil, o destaque era a febre amarela. Em 2015, até novembro, foi responsável pelos mais de 9 mil casos de dengue confirmados na capital federal. Afinal, por que o mosquito Aedes aegypti transmite tantas doenças e infecta tão grande quantidade de pessoas?

De acordo com a entomologista Cristiane Pujol, professora da Universidade Católica de Brasília, a estrutura genética do inseto contribui para o armazenamento e o desenvolvimento dos vírus. “Ainda está sendo estudado, mas ele tem alguma enzima no organismo que favorece a transmissão.”

A versatilidade do Aedes aegypti é motivo de preocupação devido à suscetibilidade da população. “Caso entre uma nova doença no Brasil, pela migração ou pelo turismo, o mosquito pode ser vetor de um novo vírus”, alerta Cristiane, que é especialista e pesquisadora na área há 23 anos.

Ameaça é apenas da fêmea do Aedes aegypti

Apesar de o incômodo pela proliferação do mosquito ser geral, somente a fêmea da espécie representa ameaça, já que apenas ela se alimenta de sangue, elemento necessário para a maturação dos ovos.

Em uma picada, a fêmea injeta a saliva na pele e, se estiver contaminada, transmite o vírus. Além disso, pode picar mais de uma pessoa a cada cerca de 1,5 mil ovos que produz e ainda desová-los em vários locais como forma de proteger a espécie.

O mosquito tem hábitos diurnos e urbano, o que facilita o contato com seres humanos

“Ela se reproduz na água, e uma tampinha de garrafa pet pode ser o suficiente”, alerta a entomologista.

De acordo com o Instituto Oswaldo Cruz, a infestação é mais intensa em regiões com alta densidade populacional e com ocupação desordenada — áreas em que a fêmea tem mais oportunidade para se alimentar e onde há mais locais para desova.

O mosquito tem hábitos diurnos e urbano, o que facilita o contato com seres humanos. Os momentos preferidos do dia para atacar são a manhã ou o entardecer — ao contrário dos pernilongos, de hábito noturno.

Como se dá a contaminação

Segundo Cristiane, o Aedes aegypti se desenvolve melhor em países com temperaturas quentes e úmidas, caso do Brasil. “Insetos se adaptam a regiões tropicais, ainda mais se as temperaturas estiverem associadas à chuva e à umidade.”

De acordo com a especialista, essas características climáticas fazem do verão brasileiro um dos momentos mais propícios à contaminação. No calor, o ciclo de vida entre o ovo e o mosquito alado (adulto) varia somente de 4 a 5 dias. Em temperaturas mais amenas, de 8 a 10 dias.

Uma das características da espécie é a fácil adaptação e a habilidade de se reproduzir rapidamente, daí a dificuldade de controle e de extinção

Outro risco para a proliferação das doenças transmitidas pelo mosquito são grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo e a Olimpíada. “Quando o animal pica uma pessoa doente e em seguida, uma sadia, a população torna-se novamente vulnerável a novas epidemias”, explica a entomologista. “Temos de nos preocupar com a grande circulação de pessoas.”

Combate ao Aedes aegypti

Uma das características da espécie é a fácil adaptação e a habilidade de se reproduzir rapidamente, daí a dificuldade de controle e de extinção. Se forem eliminadas todas as larvas de um lugar, mas ainda restar um ponto de foco, o mosquito consegue recuperar sua população em duas semanas.

De acordo com a entomologista Cristiane Pujol, a melhor forma de combater o mosquito é cada um fazer a sua parte para evitar que ele nasça.

O Ministério da Saúde orienta a população a tomar medidas para não acumular água, como tampar tonéis e caixas d’água, deixar garrafas viradas para baixo e manter calhas limpas e lixeiras fechadas.

mosquito aedes aegypti AgenciaBrasilia

Doenças

Entre as doenças conhecidas que têm o Aedes aegypti como vetor, a única para a qual existe vacina é a febre amarela. “No Brasil, só há recorrência em áreas silvestres, mesmo assim é difícil”, declara o chefe do Núcleo de Controle de Endemias, da Secretaria de Saúde, Dalcy Albuquerque Filho.

A vacina para a dengue, considerada endêmica no País, ainda está em estudo. Em 2015, Brasília foi a unidade federativa que menos teve registros da doença no Centro-Oeste, com 9.364 até novembro, segundo relatório epidemiológico da Secretaria de Saúde.

De acordo com a pasta, o número de ocorrências no DF caiu em comparação ao mesmo período do ano passado, quando tinham sido confirmados 11.774 casos de dengue. As áreas mais afetadas foram Planaltina (2.164), Gama (817) e Sobradinho (718).

Os sintomas da dengue são febre, coceira, dor de cabeça, dor atrás dos olhos, no corpo e nas juntas e manchas vermelhas pelo corpo.

No quadro da chikungunya, considerada uma versão mais branda da dengue, o paciente apresenta sintomas como febre alta, dores muscular, nas articulações e de cabeça. “Tivemos um caso na cidade e sem proliferação, o que define a situação como controlada”, destaca Albuquerque Filho.

Zika vírus

Novidade detectada neste ano, o zika vírus ainda não teve casos originários no Distrito Federal. Segundo o chefe do Núcleo de Controle de Endemias, da Secretaria de Saúde, o momento é de observação e fiscalização para agir se alguma ocorrência da doença for comprovada.

Em novembro, o Ministério da Saúde confirmou relação entre o zika vírus e a microcefalia — anomalia sem cura que compromete as habilidades cognitivas de bebês. A contaminação pode ser identificada nos três primeiros meses de gestação, durante o pré-natal e em exames de ecografia.

O Brasil havia registrado, até 28 de novembro, 1.248 casos de microcefalia decorrentes do zika. Os dados constam do último relatório epidemiológico publicado pelo Ministério da Saúde. O Distrito Federal teve um registro, mas a família não era de Brasília.

Destacam-se como sintomas da doença: febre intermitente, dores articular, muscular e de cabeça. Geralmente desaparecem espontaneamente depois de três a sete dias.