10/2/20 11:47
Atualizado em 9/4/20 às 16:08

Educação Precoce disputa prêmio internacional

Programa, que se destaca pelo acompanhamento e inclusão de bebês especiais, é o único do Brasil selecionado para um fórum em Viena, na Áustria

São atendidos bebês de zero a três anos de idade, que recebem acompanhamento qualificado. A participação da família é essencial | Foto: Luís Tavares / SEE

O programa Educação Precoce, da Secretaria de Educação (SEE), ultrapassa fronteiras para mostrar por que está entre as 24 práticas educacionais mais inovadoras do mundo elencadas pelo Zero Project, elaborado pela Essl Foundation, da Áustria. A reunião dos trabalhos selecionados entre 469 projetos de mais de 100 países será no fórum em Viena, capital austríaca, nos dias 19, 20 e 21 deste mês.

O projeto da SEE é o único representante do Brasil que participou da seleção e o único a receber o reconhecimento internacional. A inscrição para o Zero Project foi uma iniciativa que a Subsecretaria de Educação Inclusiva e Integral (Subin) da SEE tomou, após ser acionada pela Casa Civil. Em parceria, as pastas construíram um projeto para o concurso que analisa práticas bem-sucedidas em todo o mundo.

A inserção e elaboração do material ofertado a Fundação Essl , em escala global, foi uma iniciativa da Assessoria de Assuntos Estratégicos da Casa Civil, então representada por Ganem Amiden Neto e Grazielle Rodrigues, em parceria com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na figura do Sr. Ronaldo Lago. Deve-se salientar a importante colaboração do Dr. Joelson Dias, Ex-Ministro Substituto do TSE e Vice-Presidente da Comissão Especial dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Conselho Federal da OAB e da Dra Ana Luisa Junqueira, mestre em Direitos Humanos pela Universidade do Minho (Portugal).

A Subin foi criada em 2019 pelo atual GDF para lidar diretamente com assuntos relacionados à inclusão. Foi então que o Educação Precoce, lançado em 1987, ganhou prioridade nessas ações, até alcançar a lista dos programas que funcionam no mundo.

Engajamento da família

“O Educação Precoce é a nossa ‘menina dos olhos’”, comemora a subsecretária de Inclusão da SEE, Vera Lúcia Ribeiro de Barros. “O mérito é principalmente pelo engajamento da família, nossa grande multiplicadora em casa. É um trabalho que integra todos os núcleos”. Vera, que é mãe de filhos especiais, lembra que o programa dá novas chances à sociedade.

O Educação Precoce é uma política pública de Estado que visa ao desenvolvimento global com estímulos biopsicossociais de bebês especiais. Atualmente, são atendidos 3.327 bebês de zero a três anos de idade em 19 unidades escolares da SEE. Realizado por cerca de 400 educadores da rede capacitados, o programa tem caráter pedagógico, não clínico ou terapêutico, com foco na aprendizagem, inclusão e no desenvolvimento.

Segundo a diretora de Educação Inclusiva da SEE, Riane Natália Vasconcelos, normalmente o processo é inverso: somente após a instalação da deficiência e com os atrasos evidenciados é dado início ao acompanhamento. “Precoce remete a um trabalho que precisa ser realizado o mais cedo possível para que a criança se desenvolva da melhor forma”, explica.

São atendidos bebês com hipótese diagnóstica de deficiência, bem como transtorno do espectro autista, crianças com altas habilidades e consideradas de risco, como prematuras, pós-maduras e filhos de mães diabéticas, entre outros casos.

3.327Número de bebês de zero a três anos atendidos atualmente em 19 unidades escolares

 Gêmeas siamesas

Unidas pela natureza e pelo amor dos pais, as gêmeas siamesas Lis e Mel, conhecidas no DF pela cirurgia delicada de separação total realizada em 2019, também são atendidas pelo Educação Precoce da rede pública.

Segundo a mãe das meninas, Camilla Vieira Neves, Lis e Mel estão se saindo bem na natação, e a evolução tem sido acelerada. “Minha expectativa agora é que elas cresçam e se desenvolvam cada vez mais, porque o apoio já tem ajudado muito”, conta. “Elas nunca querem voltar para casa depois do atendimento na escola”.

Um passo de cada vez

De zero a seis meses, os atendimentos ocorrem em turmas de pais e bebês. São específicos para essa faixa etária, que tem como base a instrução, a conversa e os encaminhamentos junto à família, que deve ser orientada da melhor maneira para trabalhar com essa criança no dia a dia.

Outra problemática nesse período é a fase do “enlutamento”, condição em que as famílias buscam o Educação Precoce, já que planejaram e idealizaram o filho de uma maneira e, então, se depararam com a deficiência. “Nosso interesse é ter a família conosco; no Educação Precoce, ela é parceira”, ressalta a gerente da Diretoria de Educação Inclusiva, Roseane Badú.

Nessa fase, o atendimento ocorre em dois dias da semana. Em um dia, são 50 minutos com o pedagogo, em sala de aula, sob colchonetes e orientações específicas para cada criança. No outro dia, quem coordena é um professor de Educação Física, que também promove o atendimento às famílias, mas ainda no ambiente da piscina ou na sala de psicomotricidade, dependendo de cada caso.

Dos sete meses até cerca de dois anos de idade, o bebê passa a frequentar as turmas de Educação Precoce duas vezes na semana, em atendimentos individuais e personalizados. Em ambos os dias, são 50 minutos com o pedagogo e mais 50 com o professor de Educação Física.

Há, ainda, a configuração de “turminhas” ou agrupamentos para as crianças a partir de dois anos – as T2, para os casos mais necessários. O grupo é formado visando à inserção nas escolas regulares em tempo ágil.

Inserção + inclusão

O programa Educação Precoce avalia esses bebês diariamente. A meta é atuar com base nas necessidades da criança, para que o impacto seja positivo na inserção em outros ambientes.

Professora de Educação Física, Cristiane Lima Fernandes, na rede há 13 anos e há 12 com as crianças no Educação Precoce, já atendeu certa de 480 bebês. Para ela, o impacto pode ser multiplicado, já que envolve todos da família. “Eu tive um filho prematuro, mas naquela época não existia o programa Educação Precoce; no entanto, enquanto professora, percebo que o resultado é quase imediato”, afirma.

Assim como os demais, a professora passou por um curso inicial, formação, entrevista e treinamento para atuar nessa etapa.

Os gestores e professores garantem do programa asseguram que o sucesso nas atividades vem da própria plasticidade cerebral humana. “O cérebro realiza compensações; então, existe uma lesão em determinada área, mas a gente consegue fazer uma atividade pedagógica que vai acionar outras áreas do cérebro que serão capazes de compensar essa região. Por isso a avaliação é constante”, explica Roseane.

Todo esse trabalho, hoje, funciona com o apoio dos coordenadores regionais de ensino e os gestores das escolas e da comunidade escolar. “Nossa expectativa é, em breve, receber a destinação de mais recursos para compra de materiais específicos, a formação dos professores e, quem sabe, a implementação desses atendimentos em todas as unidades do DF”, pontua a diretora de Educação Inclusiva da SEE.

 Nome na lista

Atualmente, as inscrições para o programa Educação Precoce podem ser feitas em qualquer dia do ano, pessoalmente, pelos responsáveis dos bebês, nas escolas ou Coordenações Regionais de Ensino (CREs).

Além da novidade para 2020, que é a criação de mais duas unidades de atendimento – uma em Ceilândia e outra em Samambaia –, a rede vai informatizar as inscrições e facilitar o acesso de toda a comunidade escolar. As tratativas seguem em andamento na rede pública de ensino.

* Com informações da SEE