16/3/20 10:14
Atualizado em 16/3/20 às 10:14

Curativo de pele humana: maior cicatrização, menos infecções

Método, que também é vantajoso por diminuir tempo de internação do paciente, é usado com pacientes que sofreram queimaduras e estão em tratamento no Hran

Um motorista de aplicativo, um barista e um estudante. Em comum entre eles, sinais de queimaduras profundas e um tratamento pouco conhecido – e que os ajudou a reduzir os riscos de infecção e o tempo de recuperação: o curativo feito com pele humana. Eder de Oliveira, 35 anos; Alysson Paulo Lima, 36, e Ryan Zimbas, 13, receberam o transplante no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), um dos 15 centros de referência em todo o país.

Foto: Geovana Albuquerque/SES

 

A pele que eles receberam funciona como um curativo biológico. Ela é utilizada em substituição aos tecidos carbonizados e mortos que foram retirados do paciente. “É tudo feito com segurança, rigor técnico e rastreabilidade, sem riscos de transmissão de doença. É uma medida salvadora”, frisa o cirurgião responsável pelo CTQ do Hran, José Adorno.

Surpresa ao saber que o filho, Ryan Zimbas, receberia este curativo, a primeira impressão de Leidine Pereira foi o estranhamento. “Pensar que tem pele de outra pessoa ali é esquisito. Mas quando vi que agilizou o período de cicatrização dele, foi uma surpresa e uma alegria”, conta. O garoto, de 13 anos, teve braços, o peito e as pernas queimados após um primo jogar álcool em uma fogueira próxima de onde ele estava sentado.

Segundo José Adorno, o uso da pele humana aliado ao tratamento recebido no Hran diminuiu o tempo de internação de Ryan, que teve 42% da pele queimada. “A pele é o maior órgão do corpo humano. A vítima de queimadura de segundo e terceiro graus perde pele e, com isso, perde peso, líquido e proteínas, o quadro se torna grave, fica sujeito à infecção. Por isso, é preciso de um substituto de pele”, explica.

O médico frisa que o curativo biológico de pele humana ainda é vantajoso do ponto de vista econômico, pois diminuindo o tempo de internação e agilizando a cicatrização, diminui os custos com cada paciente em leito hospitalar.

Também beneficiado com o transplante, o barista Alysson Paulo, 36 anos, não conhecia a técnica, mas hoje, cinco meses depois de ter sido atingido pelas chamas de um incêndio na mata próxima à sua casa, agradece a equipe por ter utilizado nele. “Nunca tinha ouvido falar, mas como a equipe e o trabalho desenvolvido no centro de queimados é de excelência, confiei 100% na eficácia do curativo. E hoje, digo que valeu a pena demais”, frisa.

Transplante
Desde que começou a usar a técnica, há cerca de dois anos, o Centro de Tratamento de Queimados do Hran já fez 12 transplantes de pele. Segundo o cirurgião José Adorno, este número poderia ser maior se houvesse mais divulgação da possibilidade da doação deste tecido. “Fala-se muito em doação e transplante de órgãos, como coração, fígado, rins. Mas pouco se sabe sobre a doação de pele”, destaca o médico.

Foto: Geovana Albuquerque/SES

Diferentemente de órgãos, como coração e pulmão, por exemplo, que têm curto prazo para ser transplantado, a pele humana fica guardada em um banco de pele, em substância chamada glicerol puro (glicerina a 99% de concentração) em refrigeradores (de 2 a 8 graus celcius) por até dois anos.

Desde 1997, a Lei nº 2.268 estabelece que o Sistema Nacional de Transplantes (SNT) gerencie em nível nacional a captação e distribuição de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para finalidades terapêuticas. Porém, somente em 2009, com a publicação da Portaria 2.600 do Ministério da Saúde, começou a se estabelecer normas específicas para o funcionamento dos bancos de pele.

Atualmente, o Brasil conta com quatro bancos de pele: Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Segundo José Adorno, há a intenção de implantar um banco desses em Brasília, mas ainda está em fase de conversas sobre o assunto.

Hoje, quando algum centro precisa de pele, solicita ao sistema nacional, tal qual é feito com outros órgãos, e o banco envia em voo comercial. É tudo rastreado e sem riscos ao paciente que vai receber o transplante.

O Distrito Federal ainda não possui equipe cadastrada de captação de pele humana, porém, profissionais do Hran já estão participando de treinamentos para equipes de transplantadores, oferecidos pelo Ministério da Saúde, o que faz parte do processo de credenciamento junto ao órgão.

“Nós já temos um bom índice de doadores de órgãos, precisamos explicar para a população que há possibilidade de doar pele também e que isso não vai desfigurar seu ente querido. Mas é preciso deixar claro que são removidas lâminas muito finas da pele, em áreas como pernas, dorso, que ficam encobertas pela roupa”, frisa Adorno.

Ele destaca que é preciso disseminar essa ideia da doação de pele, principalmente se olharmos a quantidade de queimados anualmente no Brasil: cerca de um milhão de pessoas.

* Com informações da Secretaria de Saúde (SES)