16/4/20 14:30
Atualizado em 16/4/20 às 15:40

Subir no foguete do Parque Ana Lídia, quem nunca?

O Parque da Cidade, cravado no coração de Brasília, participou da infância da maioria das crianças que aqui chegou ou nasceu nas décadas de 70 e 80

O parque é o Ana Lídia, que fica no estacionamento 12 do Parque da Cidade. Há 49 anos ele é garantia de diversão para diferentes gerações de brasilienses. Fotos: Arquivo Público do DF

No coração da capital do Brasil existe um parque, o maior espaço público de lazer da América do Sul. Em seu interior tem outro e dentro dele tem um foguete. No foguete, Silvana Seabra, então com 6 anos, viajou para a Lua muitas vezes. Lá de cima ela via meninas dentro de carruagens e meninos em cabanas de índio. Também observava a Esplanada dos Ministérios e o Congresso Nacional, os prédios mais altos da paisagem naquela época.

O parque é o Ana Lídia, que fica no estacionamento 12 do Parque da Cidade. Há 49 anos ele é garantia de diversão para diferentes gerações de brasilienses. É difícil encontrar um morador de Brasília que não tenha a lembrança de ter ido pelo menos uma vez ao parque de areia quando criança. E até hoje o espaço faz sucesso, ficando lotado aos finais de semana.

Inaugurado em 1971, o parque infantil foi uma das primeiras opções de lazer para as crianças da capital. “Naquela época, só tinha os parquinhos das quadras. Não tinha um espaço daquele, com grandes brinquedos. E ainda era de graça”, conta o o publicitário brasilense João Amador, 41 anos, que mantém um perfil nas redes sociais desde 2014 que conta histórias de Brasília.

Segundo ele, apesar de a abertura oficial ter sido em 1971, o espaço já era usado para as brincadeiras da meninada desde 1969. Na época, o local era chamado de parque da torre, inaugurada em 1967. “Só fizeram a inauguração oficial. Mas era a mesma coisa, a mesma área e os mesmos brinquedos”, diz.

Ocupando uma área na Asa Sul intocada até então, o parque trazia brinquedos temáticos divididos em três partes: a Ala das Meninas – com elementos de contos de fadas, como carruagem em forma de abóbora, como a carruagem da Cinderela, escorregador em forma de bota e animais gigantes; a Ala dos Meninos – relacionada aos filmes de aventura da época, com cabanas apaches, barco viking e caravanas do velho oeste; e a Ala Futurista – com um foguete espacial, trepa-trepa em forma de bolha, roda-roda no formato de cápsula lunar, entre outros.

Silvana Seabra, na foto com 6 anos, frequentava o parque antes mesmo dele ser oficialmente inaugurado. Foto: arquivo pessoal

O foguete era, e ainda é, o xodó dos frequentadores do local. Para a administradora Silvana Seabra, hoje com 55 anos, o espaço sempre será identificado como “Parquinho do Foguete”. Ela guarda fotos tiradas no local em 1970, quando o parque nem tinha sido inaugurado oficialmente.

“Sempre gostei de altura, lembro de observar lá de cima, de um lado, a vegetação da área que depois virou o parque da cidade, e, do outro, a Esplanada dos Ministérios, o Senado Federal e a Câmara dos Deputados”, diz. “Brasília não tinha nada naquela época. Nenhum daqueles prédios altos ali em volta existia”, recorda-se.

Viagem
Silvana saía do Lago Sul, pelo menos duas vezes por mês, para brincar no parque. Foto: arquivo pessoal

A diversão da garotada era correr até o alto do foguete e escolher se a descida seria feita pelo escorregador, que não existe mais, ou pelas escadas. “A graça era escorregar até lá embaixo. O brinquedo era alto”, lembra Silvana.

Além do foguete, ela gostava de se equilibrar no trepa-trepa . Silvana morava com os pais e os dois irmãos no Lago Sul. Mesmo com a distância, ela ia com a irmã mais velha umas duas vezes por mês ao parque, “a única opção de lazer para a criançada na época”. “Meu irmão é cinco anos mais novo, não lembro dele ir com a gente, era muito novinho. Minha irmã que ia comigo, eu tinha 6 e ela 7/8”, conta.

O trajeto entre o Lago Sul e a área central de Brasília era uma viagem na década de 70. “Eu morava onde é hoje a QI 11. Não tinha nenhuma ponte e gente tinha que dar a volta pelo aeroporto para ir à cidade”, diz. As pontes só chegaram ao Lago Sul em 1974.

A primeira deveria ter sido a Costa e Silva, um projeto de Oscar Niemeyer feito em 1967. As obras, iniciadas em 1973, ficaram anos paralisadas e a ponte só foi inaugurada em fevereiro de 1976. A primeira a ser de fato utilizada foi a Ponte das Garças, conhecida como Ponte do Gilberto, cuja construção durou poucos meses e foi inaugurada em janeiro de 1974.

Para Rejane Marinho, 45 anos, o parque é mágico. O local é tão especial para ela que a família dela já está avisada: quando morrer, quer ser cremada e deseja que suas cinzas sejam jogadas no Ana Lídia.

“Eu e meus dois irmãos passamos pela separação dos nossos pais e sofremos muito. Mas no meio dos brinquedos esquecíamos das brigas deles. Era um lugar de paz, de brincarmos e sermos felizes”, diz.

Rejane se mudou de Brasília quando tinha 10 anos. Hoje a pedagoga e advogada mora em Campo Grande (MS), mas continua tendo uma relação forte com a capital. “Tenho tios aí, meu pai ainda mora em Brasília, sempre estou na cidade”, conta. O Parque da Cidade como um todo é especial para ela. Além de subir no foguete, “que era tão alto”, ela tem lembranças de piqueniques com a família e de soltar pipa com os irmãos.

“O Parque da Cidade todo é muito importante para quem morou em Brasília na década de 80”, diz. “A gente morava na Asa Sul, primeiro  na 412 e depois na 415, e íamos pra lá quase todo fim de semana”, completa. Mesmo não morando mais em Brasília, ela fez questão que as filhas, gêmeas hoje com 20 anos, conhecessem o lugar onde a mãe passou os melhores dias da infância. Elas moravam em Goiânia na época, as meninas tinham 3 anos e meio e vieram passar o dia no parque. Elas curtiram, mas acho que foi mais importante para mim”, conclui.

Mudança de nome  
O “espremedor de laranjas” era diversão garantida na época. Hoje não existe mais. Foto: Histórias de Brasília

João Amador lembra que, até meados dos anos 80, o parque de areia do Parque da Cidade era o grande parque infantil do Distrito Federal. “Tinha a Nicolândia, mas era pago e tinha outra pegada. Acredito que 100% das crianças de Brasília nas décadas de 70 e 80 tenham frequentado o parque”, afirma.

Segundo o publicitário, de 1971 para cá, o Ana Lídia não recebeu nenhum novo brinquedo significativo. Pelo contrário. Muitos foram retirados até para a segurança dos usuários. Como o escorregador que tinha no meio do foguete e um roda-roda que parecia um espremedor de laranja onde as crianças ficavam em pé. “Eram brinquedos bem assassinos”, diz.

Quando foi inaugurado, o parquinho de areia foi batizado de parque Yolanda Costa e Silva, nome da esposa do presidente Costa e Silva, falecido dois anos antes. Mas anos depois foi renomeado para homenagear uma de suas frequentadoras: a menina Ana Lídia, que fora assassinada em 1973, um dos crimes mais misteriosos da cidade, até hoje não solucionado.

Ana Lídia Braga tinha 7 anos e foi sequestrada depois de ser deixada na porta do colégio Madre Carmen Salles. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte em um matagal perto da Universidade de Brasília (UnB). A menina estava nua e o cadáver tinha sinais de violência sexual. O túmulo dela, no Cemitério Campo da Esperança, até hoje recebe visitas de pessoas que levam flores e brinquedos.

Antes do Parque da Cidade

O parque infantil é anterior ao Parque da Cidade, criado sete anos depois e que também já teve outro nome. Brasília tinha acabado de fazer 18 anos quando ganhou de presente uma imensa área verde no meio das asas do Plano Piloto. Ele ocupa uma área de 420 hectares (o equivalente a 4 milhões e 200 mil metros quadrados) e é maior que o famoso Central Park, em Nova York, que tem 320 hectares.

Originalmente, o espaço recebeu o nome de Rogério Pithon Farias, que era filho do então governador, Elmo Serejo, e que morreu em um acidente de carro. Foi renomeado para Parque Dona Sarah Kubitschek em 1997, mas, em 1986, já tinha ganhado fama nacional por meio da música Eduardo e Mônica do grupo brasiliense Legião Urbana. O local foi palco do primeiro encontro do futuro casal. A Mônica foi de moto e o Eduardo de camelo (bicicleta).

Além das imensas áreas verdes entre as superquadras, o plano piloto do urbanista Lucio Costa previa um jardim botânico, na Asa Sul, e um jardim zoológico, na Asa Norte. Mas, após uma série de modificações do projeto original, foi decidido que as duas áreas se somariam em um único parque, o Parque Zoobotânico de Brasília, na Asa Sul, cujo projeto seria desenvolvido por Roberto Burle Marx, em 1961.

Entretanto, foi somente na década de 1970, com o aumento da cidade, a necessidade de ocupação de seus limites para se proteger de invasões, somado à necessidade de criação de uma grande área pública de recreação, que o governador do Distrito Federal, Elmo Serejo Farias, determinou a implantação de um parque recreativo, sendo necessária a criação de um novo projeto.

Lucio Costa ficou responsável pelo planejamento urbanístico, os arquitetos Oscar Niemeyer e Glauco Campello incumbidos por alguns prédios a serem construídos e Burle Marx se dedicou ao projeto paisagístico. Os 16 banheiros do parque são revestidos por azulejos do artista plástico Athos Bulcão.

Atualmente, o Parque da Cidade tem atrativos para todas as idades. São quadras de futebol de campo, de futebol de areia, beach tênis, quadras poliesportivas, de vôlei de concreto, vôlei de praia, futevôlei, frescobol, de vôlei de saibro e tênis de concreto, além de 49 churrasqueiras, seis parques infantis, cinco pontos de encontros comunitários (PEC), uma ciclovia e pista de cooper com circuitos de 4 km, 6 km, e 10 km, e diversos quiosques para alimentação. Em média, entre 40 mil e 50 mil pessoas passam por lá aos fins de semana.