21/4/20 15:05
Atualizado em 21/4/20 às 17:44

Nas asas da imaginação de Roger Mello

“Eu desenho desde sempre, mas em Brasília, quando eu tinha uns 9 anos, fui aluno da Escola de Criatividade da Biblioteca Infantil 104/304 Sul e foi lá que eu vi que o que eu gostava de fazer”

Em homenagem à capital federal, formada por gente de todos os cantos, a Agência Brasília vem publicando, diariamente, depoimentos de pessoas que declaram seu amor à cidade. Este artigo encerra a série, comemorando os 60 anos da capital federal, completados nesta terça (21).

“Nasci em Brasília em 1965; morei na 708, 309, tudo Sul, apesar de amar a parte norte da cidade. Mas, naquela época, a Asa Norte era vazia, já tinha alguns prédios construídos, mas eram poucos, as quadras não estavam completas.

Morei em Brasília até os 18, 19 anos. Fiz um ano de agronomia na UnB, mas aí falei: ‘eu preciso trabalhar com alguma coisa ligada a artes visuais’. Aí fui para o Rio de Janeiro e estudei na Escola Superior de Desenho Industrial.  E acabei ficando lá por 30 anos.

Eu já escrevi livros que foram ilustrados por outras pessoas, ilustrei livros de outras pessoas, escrevi e ilustrei meus próprios livros. Tem de tudo. Também faço teatro. Comecei a ganhar prêmios, da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil; os prêmios Jabuti, que foram dez; aí vem o prêmio internacional, o Hans Christian Andersen, considerado o Prêmio Nobel da Literatura Infantil e Juvenil. Fui o primeiro latino-americano a ganhar o prêmio na categoria Ilustrador.

Eu desenho desde sempre, mas em Brasília, quando eu tinha uns 9 anos, fui aluno da Escola de Criatividade da Biblioteca Infantil 104/304 Sul, e foi lá que eu vi que o que eu gostava de fazer – de transitar pelas fronteiras da arte sem pedir licença, digamos assim – era possível.

Aquele lugar pra mim era um paraíso. Depois que eu fui entender a filosofia da escolinha, de incentivar a imaginação das crianças. Primeiro que a escola é dentro de uma biblioteca, a referência sempre era o livro, tudo partia dele. Mas o leitor era entendido como um autor-participativo. Lá a criança tem voz.

Os professores, que têm formação em educação da arte, estimulavam muito uma arte sem fronteiras. A gente entendia que o teatro era uma arte narrativa que envolvia a arte visual, verbal, sonora e tudo era possível dentro de uma vanguarda de  ensino artístico. A gente chegava lá, pegava um livro, e a partir dele criávamos diferentes expressões de arte. Um livro que falasse, por exemplo, sobre o Cerrado. Era o ponto de partida para que a criança criasse. O livro podia virar uma peça de teatro, uma pintura, esculturas…

A Escola de Criatividade é tão importante para mim, que eu sempre falo dela onde vou. É um exemplo do Brasil para o mundo, uma escola pública que faz um trabalho incrível. Ela precisa se multiplicar como conceito.

“A Escola de Criatividade (...) é um exemplo do Brasil para o mundo, uma escola pública que faz um trabalho incrível. Ela precisa se multiplicar como conceito”
“Saí de Brasília, mas Brasília nunca saiu de mim, eu acho. Eu escrevi um livro que ganhou diversos prêmios, que fala sobre a nossa infância em Brasília, minha e dos meus irmãos. Clarice é uma menina, mas tem muita coisa minha, da minha irmã e muita coisa inventada, claro. O limite entre a ficção e a realidade é muito sutil. Digo que as coisas mais loucas do livro aconteceram de verdade. As coisas normais foram inventadas. Gente jogando livro no Lago Paranoá, da Ponte do Bragueto, porque eram considerados subversivos e as pessoas eram presas e mortas por causa disso.O contexto era de uma cidade estranha, em todos os sentidos, inclusive no bom pra mim, porque é uma cidade que podia ser inventada. Isso cria um artista estranho e toda a estranheza na arte é bem-vinda. Um projeto de cidade cultural novo, sendo criado, no qual crescemos, permitiu que a gente pudesse criar nossos próprios mitos. Brasília é uma cidade da utopia, mas o contexto era distópico.  Em meio a uma ditadura militar, sem entender o que era dito, principalmente para as crianças. A gente ouvia as coisas de rabo de orelha.

Eu digo que Brasília formou uma geração de leitores visuais que aprendeu a ler, em silêncio, a forma da cidade, as curvas do Niemeyer, as obras de Athos Bulcão, os jardins de Burle Marx em uma época que a produção artística no Brasil estava muito calada. Todos os artistas de Brasília têm uma relação com a paisagem da cidade, e eu não falo somente dos jardins, mas do cenário urbano.

Para muitas pessoas de Brasília, essa relação com a paisagem é muito importante. A sensação é que Brasília tem espaço suficiente para a gente caminhar e pensar, como acontecia nos jardins na época da aristocracia.

Passei 30 anos no Rio, ainda temos um apartamento no Leblon. Mas hoje vivo entre o Rio, Brasília, onde mora toda a minha família, e Caxias do Sul [RS], porque sou casado com o Volnei Canônica [especialista em literatura infantil e juvenil pela Universidade de Caxias do Sul] e a gente tem um projeto de leitura no Instituto de Leitura Quindim, que fica no Sul.  Acho que quem nasce em Brasília fica meio preso à cidade, no jeito de pensar. O artista de Brasília leva a cidade com ele.

“Acho que quem nasce em Brasília fica meio preso à cidade, no jeito de pensar. O artista de Brasília leva a cidade com ele”

Brasília não sai da gente, e eu sempre precisei voltar nesses 30 anos morando no Rio. Meu jeito de criar estava muito ligado à cidade. Brasília é uma cidade linda, mas não é só a beleza que interessa ao artista, mas a estranheza.

Às vezes eu vejo as pessoas falarem de Brasília como se Brasília não fosse Brasil; existe muito a ideia de ilha da fantasia, falam de Brasília como se fosse uma coisa ruim. Mas essas pessoas se esquecem que Brasília é construída a partir de uma utopia de país, por pessoas de todo o país. A construção de uma cidade no meio do Cerrado podia dar muito errado, né? Existem cidades que foram criadas e são um horror, porque não chamaram o Niemeyer, o Lucio Costa, um Darcy Ribeiro, o Anísio Teixeira.”

* Roger Mello, 54 anos, escritor e ilustrador de livros infantis, vive entre Brasília, Rio de Janeiro e Caxias do Sul (RS)

  • Depoimento concedido à jornalista Gizella Rodrigues