28/7/20 18:54
Atualizado em 24/9/20 às 15:22

GDF prorroga acolhimento em abrigos provisórios

Unidades do autódromo e Ceilândia acolhem até 200 pessoas cada uma

O Governo do Distrito Federal prorrogou por mais 60 dias o contrato com as entidades responsáveis pela manutenção dos dois alojamentos provisórios  montados para abrigar população em situação de rua durante o período da pandemia da Covid-19. As unidades do autódromo e Ceilândia, situados nas duas regiões com maior incidência de moradores em situação de rua no Distrito Federal, já atenderam, juntas, cerca de 800 pessoas nesses três meses de atividade, com gestão da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes).

O Alojamento Provisório de Ceilândia é administrado pelo Instituto Mãos Solidárias e o do Plano Piloto, pelo Instituto Tocar. Com capacidade para atender até 200 pessoas cada uma, as unidades acolhem as pessoas em situação de rua para evitar que elas fiquem expostas à disseminação do novo coronavírus e funcionam como uma espécie de casa para os abrigados, onde eles têm cama, armário, banheiro, lugar para tomar banho, lavar a roupa, fazer as refeições diárias, além de espaços de lazer e oficinas de capacitação profissional. Os acolhidos são encaminhados aos alojamentos por equipes da Abordagem Social, mas não são obrigados a permanecer no local.

“Estamos fazendo um trabalho importante nas unidades, principalmente com as capacitações profissionais que resgatam a autonomia e a autoestima dos acolhidos. Um trabalho reconhecido até mesmo pelo governo federal. A nossa ideia é ampliar ainda mais essas oficinas para que eles possam buscar uma vaga no mercado de trabalho, destaca a secretária de Desenvolvimento Social, Mayara Noronha Rocha.

Mayara Noronha Rocha afirma ainda que os alojamentos provisórios garantem mais que alimentação e higiene pessoal, já que também há um acompanhamento de saúde e socioassistencial para os acolhidos. “No local, os usuários têm acesso as orientações dos benefícios e programas. Os profissionais fazem um acompanhamento personalizado de acordo com a realidade de cada um. Além disso, nesse momento de pandemia, é importante manter esse espaço onde os moradores em situação de rua podem manter o distanciamento social”, destaca.

Autonomia aos acolhidos

“Eu estava dormindo em uma rodoviária até que o pessoal da Abordagem Social me trouxe para cá”, conta o chef de cozinha Abner Betolio, de 29 anos, um dos acolhidos no Alojamento Temporário de Ceilândia. Morador de Porto Alegre (RS), Abner veio para Brasília atraído por uma vaga de emprego que foi cancelada em meio à crise gerada pela pandemia do novo coronavírus. Sem ter como pagar hospedagem e a passagem de volta, passou a morar na rua.

No alojamento, Abner Betolio conseguiu um lugar para dormir, tomar banho, trocar de roupa, além de orientação para fazer um currículo adequado à sua formação e oficinas de capacitação. Com a autoestima fortalecida, ele diz se sentir mais preparado para voltar a procurar um emprego. “Vou seguir por aqui (no alojamento) até passar a pandemia. Depois, quero entregar currículos nos restaurantes, pois tenho uma vasta experiência em self-service, churrascaria e hamburgueria”, completa.

Além de cursos profissionalizantes e parcerias com empresas privadas, os dois alojamentos temporários também têm espaços de lazer e convivência e recebem contribuição de outras secretarias do Governo do Distrito Federal com atividades como sessões de cinema com filmes locais e oficinas de pintura.

O piauiense Carlos Eduardo Arantes, de 20 anos, foi um dos acolhidos no Alojamento de Ceilândia que teve nas aulas de pintura em tela a chance de recuperar o gosto pela arte e a lembrança das aulas de pintura que teve na infância. Morando nas ruas por problemas familiares, Carlos Eduardo, tem planos de cursar faculdade de psicologia quando deixar o alojamento. “Participo de várias oficinas aqui. O pessoal não quer apenas nos ensinar alguma coisa com elas, mas querem nos fazer pensar. Ampliar os horizontes”.

Outro acolhido, Carlos Roberto Maia, 43, disse ter registrado na tela uma imagem que viu quando estava passando por uma via de Taguatinga. “Eu fiz um avião, pois me marcou muito ver um objeto desse tamanho às margens da pista”, explica o mineiro, se referindo ao esqueleto da aeronave instalado na lateral da via Elmo Serejo, em Taguatinga.

Resgate da cidadania

O Alojamento Temporário instalado no Autódromo Nelson Piquet tem hoje 164 pessoas. Segundo o Instituto Tocar, que cuida da unidade, desde que foi instalado em abril, nove idosos que estavam acolhidos no local foram para Unidade de Acolhimento para Adultos e Famílias, a Unaf Areal, que é um abrigo permanente; e um foi encaminhado para o Lar dos Velhinhos Maria Madalena, no Núcleo Bandeirante. Dois idosos voltaram para o estado de origem. Cinco acolhidos tiveram auxílio para retornar ao seu estado de origem. E outros cinco usuários conseguiram retornar ao mercado de trabalho.

Já o Alojamento Temporário de Ceilândia tem, atualmente, 180 acolhidos. Dentre eles, 15 vão todos os dias trabalhar em uma cooperativa parceira e voltam para dormir no alojamento. Outros 20  conseguiram vaga efetiva de emprego.

De acordo com o Instituto Mãos Solidárias, que faz a manutenção da unidade em Ceilândia, das 302 pessoas em situação de rua que passaram pela unidade desde maio, 18 foram encaminhadas para duas clínicas de reabilitação que fizeram parceria com a entidade para receber os abrigados. Dez acolhidos já retornaram ao estado de origem e 30 passaram por um processo de reintegração à família e voltaram para a casa.

A subsecretária de Assistência Social, Kariny Alves, explica que os alojamentos resgatam a cidadania dessas pessoas que estão em uma situação de vulnerabilidade social. “Faz com que alguns deles consigam retomar essa vontade de tentar novamente a entrada no mercado de trabalho, vai despertando a vontade de mudar de vida, sair desse processo de rua. Uma pauta do movimento da população em situação de rua é a questão da habitação.

É o resgate de vida dessa pessoa”, destaca. “A decisão de prorrogar os alojamentos foi tomada considerando o grau de contaminação alto e para garantir a segurança das pessoas que estão em situação de rua, assegurando assim um local para dormir, a alimentação e o banho”, complementa.