26/10/20 9:38
Atualizado em 26/10/20 às 13:17

Bartolomeu Rodrigues: ‘O 53º Festival de Cinema terá alcance nacional’

Na pandemia, evento ganha repercussão e será transmitido pela primeira vez na televisão entre os dias 15 e 20 de dezembro

Foto: Divulgação/Secec


Quando decidiu cancelar o edital que escolheria a Organização da Sociedade Civil (OSC), em 30 de setembro deste ano, por conta de questionamentos sobre a capacidade da empresa selecionada, o secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues,  tinha uma escolha difícil a fazer: realizar ou não realizar o 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB). Ouviu opiniões adversas, respirou fundo e decidiu: “Sim, faremos esta edição”.

A decisão impôs um nova rotina de trabalho na Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec). Em menos de 30 dias, as inscrições do FBCB abrem-se para longas e curtas-metragens das mostras Competitiva e Brasília, sob curadoria do premiado cineasta Silvio Tendler.

Marcado para o período de 15 a 20 de dezembro, com transmissão pelo Canal Brasil, o mais tradicional festival de cinema do país segue rumo à continuidade em ano em que edições foram canceladas.  “A Covid apenas veio para expor de maneira crua a realidade e forçar o debate”, reforça o secretário. “Num cenário desses, seria uma lástima deixar o Festival de Brasília de fora. Estamos definitivamente dentro.”

Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Que significado tem, para a cultura do DF, não interromper o mais tradicional festival de cinema brasileiro? 

Acrescentaria o significado que tem para a cultura nacional, em um momento particularmente difícil. Não estamos falando apenas de uma crise sanitária. Vários sinais vinham, de muito tempo, apontando para a necessidade de uma reflexão dos setores culturais em face das transformações, sejam de ordem política, sejam tecnológicas, envolvendo o modus operandi do fazer cultural, num momento em que as estruturas flertam com o desmonte e o autoritarismo. A Covid apenas veio para expor de maneira crua a realidade e forçar o debate.

Debate e calor humano sempre foram características do FBCB? E agora, no formato remoto?

Seria bem melhor tudo isso acontecer numa sala cheia de gente, com gritos, vaias, aplausos e sorrisos. Mas veja que, desta vez, já temos um grande diferencial: transmitido pelo Canal Brasil, o 53º Festival de Cinema de Brasília será, literalmente, do “cinema brasileiro”, terá alcance nacional, algo impensável antes. Não só visto, como discutido. O debate está posto. As redes sociais hoje são salas cheias, gostemos ou não. Sem dúvida, será o campo para tocarmos em algumas feridas que o ambiente de um festival de cinema propicia, até para discutirmos o futuro do cinema brasileiro.

Pode-se dizer que o tripé democratização, descentralização e acesso é uma marca da atual gestão da Secretaria de Cultura e Economia Criativa?

Pode-se dizer que a atual gestão busca, no diálogo com todos os segmentos, promover uma política cultural pública que não se fixe na ideia de sustentar estruturas obsoletas.

Existe possibilidade de o Cine Brasília participar, mesmo que simbolicamente, do festival?

Estamos trabalhando para isso. Só não adianto nada agora porque depende de alguns protocolos que, para seguirmos ao pé da letra, precisaremos correr contra o tempo. Pensamos até mesmo na Estação do Metrô, que já recebeu o nome do Cine e, quem sabe, ganhará uma exposição permanente dos cartazes que marcaram época na cidade. Vêm novidades por aí.

Como foi a ideia de chamar o cineasta Sílvio Tendler para a curadoria do Festival de Brasília? 

Não foi fácil ter de cancelar o edital da instituição que realizaria o Festival de Brasília. Daí veio uma agradável surpresa: de todo o país, manifestações generosas de apoio e até, diria, de abnegação. E com elas, o nome do Sílvio, que estava em casa, com uma longa barba de Papai Noel, escondendo-se da Covid. Quando joguei o assunto, ele respondeu sorrindo e disposto: “Cancelar o Festival? De jeito nenhum! Vamos fazer.”

O que Silvio Tendler tem trazido de provocador para a Secretaria e Cultura e Economia Criativa?

Silvio não é só o cara de Jango, Os anos JK, Militares da democracia, Privatizações: a Distopia do Capital [filmes dirigidos pelo cineasta], etc. Silvio foi secretário de Cultura aqui do DF. Sabe como é carregar uma máquina desse tamanho nas costas. Fez um festival, diga-se, memorável, e está, nesse momento, dando-nos verdadeiras lições de como executar uma ideia que estava no papel. A energia dele me impressiona. Velho druida, deve ter trazido uma poção mágica, pois só isso explica o entusiasmo contagiante de toda a equipe desde que ele se engajou conosco.

O que o cinéfilo pode espera desta edição, já que se realiza no momento em que Brasília completa 60 anos?

Não me preocupo quando me chamam de exagerado, meu lado pernambucano até gosta, por isso acho que teremos o melhor Festival já realizado em tempos de pandemia. Aliás, por resistência, nosso Festival de Brasília já merecia esse reconhecimento. Em que pese a crise por que passa o cinema brasileiro atualmente, o festival vai mostrar que o setor não se entrega assim tão facilmente.

Realizar a 53ª edição do festival tem sido uma atitude de garra e coragem. Qual a sensação de realizar o evento mais tradicional do cinema brasileiro, em que pese tantas dificuldade e algumas oposições?

Pelo amor de Deus, é o que tenho a dizer: ou a gente para de brigar e se entende ou vai deixar a estrutura se corroer e ruir. Aí, não há uma ideia na cabeça e uma câmera na mão que possam dar jeito. Foi para evitar que se gastasse energia com discussões pessoais que cancelamos o edital. Agarrei-me com os santos protetores do cinema brasileiro e descobri que no meio do caminho tem muita gente boa, sim, para ajudar.

* Com informações da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec)