24/08/2026 às 18h26 - Atualizado em 26/10/2026 às 00h00

Diálise peritoneal traz conforto, liberdade e praticidade para pacientes renais

Tratamento pode ser realizado pelo próprio paciente em casa, com acompanhamento da equipe médica, e oferece mais autonomia para quem precisa de terapia renal substitutiva

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Agência Brasília* | Edição: Paulo Soares

Esta matéria foi produzida durante o período de defeso eleitoral (de 4 de julho de 2026 a 25 de outubro de 2026) e, em cumprimento à Lei nº 9.504/1997, está sendo publicada depois da vedação expirada.

A rotina de quem precisa fazer diálise costuma ser marcada por horários rígidos, deslocamentos e muitas horas dedicadas ao tratamento. Para Nelson Nedes Filho, a possibilidade de fazer a terapia em casa mudou essa realidade e trouxe de volta algo que ele considera essencial: liberdade. A relação de Nelson com os problemas renais começou cedo. Aos 27 anos, ele foi diagnosticado com insuficiência renal causada pela hipertensão arterial. Ao longo da vida, passou por cerca de oito anos de hemodiálise e chegou a receber um transplante de rim. O órgão, porém, deixou de funcionar adequadamente e foi necessário retomar a terapia renal substitutiva.

Foi quando ele buscou no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), unidade administrada pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), uma alternativa que pudesse se adaptar melhor à sua rotina. “A hemodiálise é muito necessária, mas ela acaba tomando um dia inteiro. Considerando os deslocamentos e a duração do tratamento, você sacrifica muito tempo da sua vida nisso e fica muito preso a essa rotina”, relata.

A alternativa encontrada foi a diálise peritoneal (DP), modalidade de tratamento que pode ser realizada em casa e utiliza o próprio organismo para ajudar na filtragem do sangue. Nelson realiza o procedimento há 12 anos e conta que a mudança trouxe mais autonomia para o dia a dia.

Como funciona a diálise peritoneal

A diálise é um tratamento que substitui parcialmente algumas funções dos rins, como a filtragem do sangue e a eliminação de toxinas e do excesso de líquidos do organismo. Ela é necessária para pacientes com insuficiência renal e pode ser realizada por diferentes modalidades, como a hemodiálise e a diálise peritoneal. Na DP, o peritônio, membrana que reveste internamente a cavidade abdominal, funciona como um filtro. Por meio dele, são retiradas substâncias que precisam ser eliminadas do organismo, além do excesso de líquidos.

A diálise peritoneal (DP), modalidade de tratamento que pode ser realizada em casa e utiliza o próprio organismo para ajudar na filtragem do sangue | Fotos: Divulgação/IgesDF

Para realizar o tratamento, é necessário um cateter implantado na região do abdome por uma equipe especializada. Por isso, a possibilidade de utilização da técnica precisa ser avaliada individualmente. “Pacientes que têm histórico de procedimentos abdominais prévios ou presença de ostomias (bolsas), por exemplo, precisam ser avaliados caso a caso para verificarmos a possibilidade de realizar a diálise peritoneal”, explica a coordenadora de Diálise Peritoneal do HBDF, Caroline Silva Pimenta.

Diferentemente da hemodiálise convencional, que normalmente exige que o paciente vá a uma unidade de saúde cerca de três vezes por semana, a diálise peritoneal pode ser realizada no próprio domicílio. O tratamento, porém, exige disciplina, cuidados de higiene e acompanhamento contínuo da equipe de saúde. “A hemodiálise tem duração de cerca de quatro horas por sessão, ou seja, aproximadamente 12 horas por semana. Já a diálise peritoneal pode durar entre oito e dez horas e, geralmente, é feita à noite, enquanto o paciente dorme. Dependendo da modalidade e da indicação, pode ser realizada diariamente. Cada tratamento tem suas particularidades, com vantagens e desafios, e a escolha deve considerar a realidade e as necessidades de cada paciente”, explica Caroline.

Antes de iniciar a modalidade, o paciente e/ou um cuidador escolhido por ele, que pode ser um familiar ou acompanhante, recebe treinamento especializado. A capacitação ensina todas as etapas necessárias para a realização segura do procedimento em casa. Os equipamentos e insumos necessários para o tratamento são disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “A diálise peritoneal é um procedimento totalmente seguro, mas demanda uma manipulação cuidadosa e cuidados sanitários para evitar infecções. Por isso, os pacientes e cuidadores passam por um treinamento especializado junto à nossa equipe para garantir que tudo seja feito da forma correta”, completa a médica.

Mesmo sendo realizado em casa, o tratamento não significa que o paciente fica sem acompanhamento. Quem faz DP mantém acompanhamento médico e realiza exames periódicos para avaliar a eficácia e a segurança da terapia. Atualmente, 157 pacientes realizam a modalidade domiciliar de diálise no HBDF.

Mais acesso e autonomia

Além de representar uma alternativa para os pacientes, a expansão da diálise peritoneal também contribui para ampliar a capacidade de atendimento do Serviço de Nefrologia do HBDF. Segundo o chefe do Núcleo de Nefrologia do hospital, Thiago Hayashida, nos últimos meses, a modalidade tem representado cerca de dois terços das vagas de diálise oferecidas pelo serviço. “Hoje, a diálise peritoneal é um dos pilares da nossa estratégia para ampliar o acesso à terapia renal substitutiva. Ao fortalecer a DP, conseguimos aumentar nossa capacidade assistencial e oferecer tratamento a mais pacientes, ao mesmo tempo em que otimizamos a utilização das vagas hospitalares de hemodiálise”, detalha.

O dado mostra a relevância da modalidade na ampliação do acesso ao tratamento renal no hospital. De acordo com o especialista, esse resultado é fruto dos investimentos na estruturação do programa, na capacitação de pacientes e cuidadores e no acompanhamento contínuo. A proposta é unir expansão do acesso, segurança e maior autonomia para quem precisa do tratamento.

Comodidade que gera qualidade de vida

Para Nelson, a principal diferença está justamente na possibilidade de continuar vivendo a vida para além do tratamento

Para Nelson, a principal diferença está justamente na possibilidade de continuar vivendo a vida para além do tratamento. Como a diálise é realizada durante a noite, em casa, ele consegue aproveitar o dia para se dedicar aos hobbies e às atividades que gosta. Entre música, quebra-cabeças e atividades físicas, o paciente encontrou no ciclismo uma das principais formas de manter o corpo ativo.

Ele conta que começou a pedalar também como uma maneira de cuidar da saúde circulatória e encontrou na atividade uma sensação de liberdade. “Me sinto muito livre quando estou pedalando, é uma sensação boa. Desde que comecei a diálise peritoneal, me sinto muito bem”, comemora.

Serviço

Pacientes com doença renal crônica que necessitam de terapia renal substitutiva podem conversar com seu médico nefrologista sobre a possibilidade de realizar diálise peritoneal. A indicação é individualizada e considera as condições clínicas, a capacidade para realização do tratamento no domicílio e a rotina de cada paciente. O acesso ao programa de diálise peritoneal do HBDF pode ocorrer de duas formas: por encaminhamento ambulatorial, via sistema de regulação, após indicação do nefrologista assistente; ou durante uma internação hospitalar, quando a equipe de Nefrologia identifica a diálise peritoneal como uma modalidade adequada para o paciente.

Após a avaliação pela equipe de Nefrologia e a confirmação da indicação, o paciente segue para as etapas de preparação para o tratamento, que incluem a programação do implante do cateter peritoneal, orientações e treinamento do paciente e/ou de seus familiares para a realização segura da terapia em casa.

Se você tem doença renal crônica e deseja saber se a diálise peritoneal é uma opção para o seu caso, consulte seu médico nefrologista.

 

*Com informações do IgesDF