06/11/2026 às 15h51 - Atualizado em 06/11/2026 às 15h51

Durante encontro em hospital, pacientes compartilham desafios e conquistas de viver com estomia

Evento no HRSM apresentou relatos de quem utiliza bolsa coletora e ofereceu orientações de especialistas sobre cuidados, alimentação e qualidade de vida

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Agência Brasília* | Edição: Chico Neto

Enquanto Lucimaria Oliveira encontrou na própria história uma forma de incentivar outras pessoas, Raimunda Cavalcante precisou superar o medo até de olhar para a bolsa coletora. Com experiências diferentes, as duas compartilham uma conquista: aprender a conviver com a estomia e recuperar a autonomia. Seus relatos marcaram o encontro realizado nesta quinta-feira (5) no Hospital Regional de Santa Maria (HRSM).

Administrado pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF), o hospital promoveu o IV Encontro das Pessoas com Estomia e o II Simpósio de Assistência à Pessoa com Estomia, com o tema “Viver Bem, Viver com Estomia”. 

Evento reuniu palestras e demonstrações sobre medicamentos e aparelhos utilizados em situações especiais | Foto: Divulgação/IgesDF

A programação reuniu pacientes, profissionais de saúde e residentes para compartilhar experiências e esclarecer dúvidas sobre o uso da bolsa coletora, alimentação, prevenção de complicações, cuidados com a pele, reabilitação e inclusão social. A iniciativa também buscou ampliar a visibilidade das pessoas com estomia e destacar a importância da informação e do acompanhamento especializado na adaptação à rotina.

Durante o encontro, os profissionais reforçaram a importância dos cuidados com a pele ao redor da estomia. O contato com resíduos eliminados pelo organismo, problemas de vedação e dificuldades no manuseio dos equipamentos podem provocar irritações e lesões. Para prevenir essas complicações, são fundamentais a escolha adequada da bolsa, a medição do estoma, o recorte correto da placa e a observação de possíveis alterações.

A alimentação também recebeu atenção especial. A nutricionista Laryssa Paz explicou que as orientações devem considerar as necessidades nutricionais, o funcionamento intestinal e a tolerância de cada paciente aos alimentos: “O paciente precisa conhecer melhor a resposta do próprio organismo aos alimentos. Dependendo da forma de preparo e da quantidade consumida, podem ocorrer alterações na consistência das fezes, produção de gases e desconfortos. Nosso papel é orientar e acompanhar essa adaptação para que ele tenha uma alimentação adequada e qualidade de vida”.

Segundo Laryssa, algumas pessoas podem precisar de suplementação nutricional, especialmente quando apresentam perda de peso ou dificuldades para atingir suas necessidades alimentares. O acompanhamento individualizado permite ajustar a dieta ao longo do tempo, evitando restrições desnecessárias.

“Quando encontro alguém que usa bolsa, procuro conversar, ajudar e explicar como funciona. Quero que a pessoa fique tranquila e entenda que pode continuar vivendo sua vida, porque viver com uma estomia pode exigir adaptações, mas não significa abrir mão dos sonhos, da independência ou da alegria de viver”

Lucimaria Oliveira, usuária de bolsa de colostomia definitiva

Além das orientações clínicas, a programação abordou os impactos emocionais, sociais e econômicos da estomia. As mudanças na rotina, a necessidade de utilizar dispositivos coletores e eventuais afastamentos do trabalho podem representar desafios para os pacientes e suas famílias.

Adaptação e autonomia

Lucimaria Oliveira utiliza uma bolsa de colostomia definitiva após o tratamento de um câncer intestinal. Há cinco anos convivendo com a estomia, ela encontrou nas redes sociais uma maneira de compartilhar sua experiência, combater o preconceito e encorajar quem enfrenta a mesma situação.

“Eu não tenho vergonha”, relatou. “No dia em que completo mais um ano da cirurgia, digo que nasci de novo. Posto fotos, vídeos e conto minha história para mostrar como estou vivendo. A vida continua, não precisa parar por causa da bolsa. Quando encontro alguém que usa bolsa, procuro conversar, ajudar e explicar como funciona. Quero que a pessoa fique tranquila e entenda que pode continuar vivendo sua vida, porque viver com uma estomia pode exigir adaptações, mas não significa abrir mão dos sonhos, da independência ou da alegria de viver.”

Para Raimunda Cavalcante, que convive com uma estomia há cerca de seis anos, a adaptação exigiu mais tempo. No início, ela dependia de uma enfermeira para trocar a bolsa coletora e tinha receio até mesmo de olhar para o dispositivo. Aos poucos, aprendeu a se cuidar e recuperou a confiança para retomar a rotina. “Passei mais de um mês sem conseguir trocar a bolsa sozinha”, lembrou. “Não saía de casa porque achava que estava com mau cheiro, me afastei de tudo, fiquei depressiva. Depois comecei a aprender, fui fazendo as trocas e perdi o medo”.

As experiências mostram que cada pessoa enfrenta desafios diferentes e que o acesso à orientação profissional, aliado à troca de vivências com outros pacientes, pode tornar o processo de adaptação mais seguro.

Entenda o que é uma estomia

A estomia é uma abertura criada cirurgicamente para estabelecer uma comunicação entre um órgão interno e o meio externo, permitindo a eliminação de resíduos ou o desempenho de funções específicas, conforme a necessidade clínica.

Traumas abdominais graves, obstruções, complicações de doenças intestinais e perfurações são alguns casos que exigem a estomia como tratamento

Entre os principais tipos estão a colostomia, que permite a eliminação de fezes pelo intestino grosso; a ileostomia, realizada no intestino delgado; e a urostomia, destinada à eliminação de urina. Também existem estomias utilizadas para alimentação, como a gastrostomia e a jejunostomia.

O procedimento pode ser necessário em situações como câncer colorretal, complicações de doenças intestinais, obstruções, perfurações e traumas abdominais graves. Em determinadas emergências, a estomia é essencial para controlar complicações e preservar a vida enquanto o paciente recebe o tratamento adequado.

A condição pode ser temporária, quando existe possibilidade de reconstrução do trânsito intestinal ou urinário, ou definitiva, quando o restabelecimento da função natural não é possível. Essa definição depende da doença de origem, das condições clínicas e da técnica cirúrgica utilizada.

“Em muitos casos, a estomia é realizada porque houve uma doença intestinal que exigiu uma intervenção para que o paciente pudesse superar aquela situação”, explicou o gerente de Serviços Cirúrgicos do HRSM, Franklin Santos. “Mas isso não significa, necessariamente, que a bolsa será definitiva. Sempre que houver indicação e condições clínicas, é importante avaliar a possibilidade de reconstrução do trânsito intestinal.”

Segundo Franklin, a possibilidade e o momento de uma cirurgia de reconstrução dependem de avaliação individualizada. Segundo o especialista, de modo geral, apenas 10% dos casos são definitivos.

Acompanhamento

No HRSM, aproximadamente 180 pessoas com estomia são acompanhadas pelo polo de atendimento da região de Santa Maria, segundo a gerente de Cuidados Ambulatoriais do hospital, Raiane Alves. O serviço oferece orientações sobre o manuseio dos equipamentos, prevenção de complicações, cuidados com a pele e adaptação às atividades diárias. Os pacientes chegam por encaminhamento e passam por uma avaliação inicial, durante a qual recebem informações sobre a utilização dos insumos, a troca da bolsa coletora e a identificação de possíveis alterações.

“Cada paciente tem uma história e uma condição clínica diferente, por isso trabalhamos com orientação, acolhimento e preparo para cada etapa, sem criar expectativas sobre procedimentos que nem sempre são possíveis”

Raiane Alves, gerente de Cuidados Ambulatoriais do HRSM

“O nosso trabalho vai além de ensinar a trocar uma bolsa”, detalhou Raiane, que também é enfermeira especialista em estomias. “Queremos que o paciente conquiste autonomia e segurança para cuidar de si mesmo. Ele precisa aprender a lidar com o equipamento, reconhecer possíveis alterações e entender que pode retomar suas atividades, respeitando suas condições de saúde.”

Após adquirir segurança para os cuidados diários, a pessoa continua vinculada ao serviço para retirada periódica dos insumos e novas avaliações, quando necessárias. O acompanhamento também considera aspectos emocionais e sociais, especialmente diante das expectativas relacionadas à possibilidade de reconstrução intestinal.

“Cada paciente tem uma história e uma condição clínica diferente, por isso trabalhamos com orientação, acolhimento e preparo para cada etapa, sem criar expectativas sobre procedimentos que nem sempre são possíveis”, ilustrou a enfermeira. “O mais importante é que a pessoa aprenda a viver bem e tenha qualidade de vida durante todo esse processo.”

Com acompanhamento adequado e acesso aos equipamentos necessários, muitas pessoas conseguem estudar, trabalhar, viajar e participar de atividades de lazer. A prática de exercícios físicos e a vida íntima e afetiva também podem ser mantidas, respeitando as condições clínicas e as recomendações da equipe assistencial.

Qualidade de vida

A reabilitação envolve diferentes áreas da saúde, como enfermagem, medicina, nutrição, psicologia, serviço social, terapia ocupacional e fonoaudiologia, que atuam de forma integrada para atender às necessidades de cada paciente.

“Muitas vezes, o paciente com estomia não é ouvido como deveria”, enfatizou o presidente da Comissão de Prevenção e Cuidados com a Pele e Estomias (CPCPE) do HRSM, Eduardo Loiola. “Queremos proporcionar um espaço em que ele possa aprender, compartilhar experiências e conhecer outras pessoas que enfrentam situações semelhantes.” 

Para a residente de enfermagem Eliene Maria de Jesus, do Centro Cirúrgico, a iniciativa também contribuiu para a formação dos profissionais e para a redução de preconceitos. “É uma oportunidade muito importante de aprendizado”, avaliou. “Muitos pacientes ficam assustados quando descobrem que precisarão de uma estomia, e alguns profissionais também ainda não tiveram contato com esse tipo de cuidado. Quanto mais conhecimento tivermos, melhor será a assistência”.

 

*Com informações do IgesDF