26/10/2026 às 17h37 - Atualizado em 26/10/2026 às 18h06

Hospital de Base realiza primeiro transplante de medula óssea

Procedimento amplia o acesso ao tratamento de cânceres do sangue pelo SUS no Distrito Federal

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Agência Brasília*  | Edição: Plácido Fernandes

Um estalo no ombro direito, durante um treino na academia, mudou a vida do comerciante Carlos França Pereira, de 54 anos. A dor persistente levou à descoberta de um tumor e ao diagnóstico de mieloma múltiplo, um tipo de câncer que se desenvolve na medula óssea. O medo de morrer e deixar os filhos marcou o início de uma jornada que, quase um ano depois, o levaria a se tornar o primeiro paciente a receber um transplante de medula óssea no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF).

Realizado em 8 de outubro, o procedimento representa um marco para a unidade administrada pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF). O hospital passa a oferecer transplantes autólogos, modalidade que utiliza células-tronco do próprio paciente, ampliando as possibilidades de tratamento de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS). 

Medo de morrer e deixar os filhos marcou o início da jornada de Carlos França Pereira, 54 anos, quando recebeu o diagnóstico em novembro do ano passado: "Pensei que era uma sentença de morte, que não tinha mais jeito" | Fotos: Divulgação/IgesDF

"Estou pensando em mudar minha vida, fazer completamente diferente, em termos de prestar atenção nas coisas, nos mínimos detalhes. E fazer só coisas boas, pra coisas boas ficarem perto de mim"

Carlos França Pereira, comerciante

"Pensei que era uma sentença de morte, que não tinha mais jeito e eu iria morrer", recorda Carlos sobre o diagnóstico recebido em novembro de 2025. A doença transformou sua rotina. Com dores constantes, precisou se afastar do trabalho e dedicar os dias aos cuidados médicos. "O mais difícil foi saber que tinha a doença, que iria morrer e deixaria meus filhos pra trás", conta.

Em fevereiro deste ano, iniciou a quimioterapia no HBDF. A resposta favorável abriu caminho para a próxima fase. A confirmação chegou por telefone, trazendo a notícia que aguardava há meses. "Foi uma alegria muito grande. Eu estava em casa, o telefone tocou e disseram que tinha dado certo. Foi só alegria", lembra.

Uma conquista para o SUS

O avanço é resultado de um projeto iniciado há cerca de uma década, a partir das articulações conduzidas pelo médico Alexandre Caio. Para viabilizar o serviço, foram necessárias adequações na estrutura física, capacitação de profissionais e implantação de protocolos específicos de segurança.

Cerca de 30 integrantes de diferentes especialidades participaram da preparação, que incluiu o cumprimento das exigências técnicas do Ministério da Saúde para o credenciamento. Para a chefe do Serviço de Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, Laura Ferreira de Mesquita Ferraz, o resultado desse esforço vai além da incorporação de uma nova modalidade terapêutica.

"Representa um salto de qualidade no cuidado oferecido pelo Hospital de Base. O transplante de medula óssea é um procedimento de alta complexidade. Para realizá-lo, o hospital inteiro precisou aprimorar seus processos, fluxos assistenciais e práticas de segurança do paciente", destaca.  

Antes da implantação do serviço, pessoas acompanhadas pela unidade que necessitavam desse tipo de intervenção eram encaminhadas à Central Estadual de Transplantes, responsável por distribuir as vagas entre os centros habilitados no Distrito Federal. A demanda podia resultar em meses de espera. 

"Esse primeiro transplante inaugura uma nova etapa na assistência hematológica do Distrito Federal. A rede pública passa a contar com maior capacidade para atender à demanda por esse tratamento"

Laura Ferreira de Mesquita Ferraz, chefe do Serviço de Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea

 

Agora, a ampliação da rede oferece uma alternativa de atendimento na própria instituição, permitindo que mais pessoas sejam acompanhadas por profissionais que já conhecem seu histórico clínico. "Esse primeiro transplante inaugura uma nova etapa na assistência hematológica do Distrito Federal. A rede pública passa a contar com maior capacidade para atender à demanda por esse tratamento, o que deve contribuir para reduzir o tempo de espera", explica Laura.

A expectativa é realizar de dois a quatro transplantes mensais, inicialmente destinados a pacientes com indicação da modalidade autóloga, especialmente em casos de mieloma múltiplo e determinados tipos de linfoma. 

Equipe celebra o sucesso do primeiro transplante de medula óssea feito no Hospital de Base 

Trinta minutos que exigiram dias de cuidados 

Diferentemente do que o nome pode sugerir, o transplante de medula óssea realizado em Carlos não envolveu cirurgia. As células-tronco foram retiradas do próprio sangue e, após uma quimioterapia de alta intensidade, devolvidas ao organismo por uma infusão semelhante a uma transfusão sanguínea.

Internado em 5 de outubro, o paciente passou pela coleta das células no dia seguinte e recebeu a medicação preparatória no dia 7. A infusão ocorreu em 8 de outubro e durou aproximadamente 30 minutos. A etapa mais delicada veio depois. Com as defesas do organismo profundamente reduzidas, permaneceu em isolamento, sob monitoramento constante, enquanto a equipe aguardava a retomada da produção das células sanguíneas.

O médico hematologista Gabriel de Carvalho Pereira, integrante da equipe responsável pelo caso, explica que a experiência exigiu integração entre diferentes especialidades e reforçou a importância de uma assistência organizada em todas as etapas.

"Implementar o transplante no hospital não significa somente o ganho do procedimento em si, mas principalmente a melhoria de todos os fluxos de qualidade, das interações entre as equipes e de toda a assistência de que o paciente de onco-hematologia necessita, que já é bastante complexa", ressalta.

A notícia mais aguardada chegou em 19 de outubro, quando os exames indicaram que a medula havia retomado a produção de células de defesa. O resultado foi confirmado no dia seguinte, permitindo a alta após 15 dias de internação, sem complicações graves. "Foi bacana, foi muito surpreendente. Dentro de mim, eu senti uma cura definitiva", relata o comerciante.

Embora represente uma etapa importante, a recuperação da medula não significa a cura do mieloma múltiplo. Nesse tipo de câncer, o objetivo do transplante é prolongar o controle da doença e melhorar a qualidade de vida. O paciente seguirá em acompanhamento médico, com novos exames para avaliar os resultados nos próximos meses.

Os planos para o futuro

Com o serviço em funcionamento, o Hospital de Base pretende ampliar gradualmente sua atuação. Entre os planos está a oferta do transplante alogênico, realizado com células-tronco de um doador, modalidade que poderá beneficiar outros perfis de pacientes.

Para Carlos, a experiência trouxe uma mudança de perspectiva. Depois de meses marcados pela incerteza, ele deseja retomar a rotina e dar mais valor às pequenas coisas. "Estou pensando em mudar minha vida, fazer completamente diferente. Em termos de prestar atenção nas coisas, nos mínimos detalhes. E fazer só coisas boas, pra coisas boas ficarem perto de mim", reflete.

Na despedida, a equipe multidisciplinar preparou uma homenagem que emocionou Carlos. Ele foi surpreendido por um corredor formado pelos profissionais que o acompanharam durante a internação, ao som de parabéns pelo seu renascimento. Balões com mensagens de carinho e um certificado de Honra ao Mérito, assinado por toda a equipe, marcaram a celebração. Entre aplausos e demonstrações de afeto, a emoção tomou conta de um momento que simbolizou não apenas a recuperação do paciente, mas também o cuidado e os vínculos construídos ao longo do tratamento.

Ao deixar o hospital, depois de participar de um momento histórico para a saúde pública do Distrito Federal, o comerciante tinha um desejo simples: voltar para casa e reencontrar os pequenos prazeres do cotidiano. "Assim que chegar em casa, vou tomar um banho e comer", comemora Carlos. 

*Com informações do IgesDF