Um estalo no ombro direito, durante um treino na academia, mudou a vida do comerciante Carlos França Pereira, de 54 anos. A dor persistente levou à descoberta de um tumor e ao diagnóstico de mieloma múltiplo, um tipo de câncer que se desenvolve na medula óssea. O medo de morrer e deixar os filhos marcou o início de uma jornada que, quase um ano depois, o levaria a se tornar o primeiro paciente a receber um transplante de medula óssea no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF).
Realizado em 8 de outubro, o procedimento representa um marco para a unidade administrada pelo Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF). O hospital passa a oferecer transplantes autólogos, modalidade que utiliza células-tronco do próprio paciente, ampliando as possibilidades de tratamento de alta complexidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
"Estou pensando em mudar minha vida, fazer completamente diferente, em termos de prestar atenção nas coisas, nos mínimos detalhes. E fazer só coisas boas, pra coisas boas ficarem perto de mim"
Carlos França Pereira, comerciante
"Pensei que era uma sentença de morte, que não tinha mais jeito e eu iria morrer", recorda Carlos sobre o diagnóstico recebido em novembro de 2025. A doença transformou sua rotina. Com dores constantes, precisou se afastar do trabalho e dedicar os dias aos cuidados médicos. "O mais difícil foi saber que tinha a doença, que iria morrer e deixaria meus filhos pra trás", conta.
Em fevereiro deste ano, iniciou a quimioterapia no HBDF. A resposta favorável abriu caminho para a próxima fase. A confirmação chegou por telefone, trazendo a notícia que aguardava há meses. "Foi uma alegria muito grande. Eu estava em casa, o telefone tocou e disseram que tinha dado certo. Foi só alegria", lembra.
Uma conquista para o SUS
O avanço é resultado de um projeto iniciado há cerca de uma década, a partir das articulações conduzidas pelo médico Alexandre Caio. Para viabilizar o serviço, foram necessárias adequações na estrutura física, capacitação de profissionais e implantação de protocolos específicos de segurança.
Cerca de 30 integrantes de diferentes especialidades participaram da preparação, que incluiu o cumprimento das exigências técnicas do Ministério da Saúde para o credenciamento. Para a chefe do Serviço de Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea, Laura Ferreira de Mesquita Ferraz, o resultado desse esforço vai além da incorporação de uma nova modalidade terapêutica.
"Representa um salto de qualidade no cuidado oferecido pelo Hospital de Base. O transplante de medula óssea é um procedimento de alta complexidade. Para realizá-lo, o hospital inteiro precisou aprimorar seus processos, fluxos assistenciais e práticas de segurança do paciente", destaca.
Antes da implantação do serviço, pessoas acompanhadas pela unidade que necessitavam desse tipo de intervenção eram encaminhadas à Central Estadual de Transplantes, responsável por distribuir as vagas entre os centros habilitados no Distrito Federal. A demanda podia resultar em meses de espera.
"Esse primeiro transplante inaugura uma nova etapa na assistência hematológica do Distrito Federal. A rede pública passa a contar com maior capacidade para atender à demanda por esse tratamento"
Laura Ferreira de Mesquita Ferraz, chefe do Serviço de Hematologia, Hemoterapia e Transplante de Medula Óssea
Agora, a ampliação da rede oferece uma alternativa de atendimento na própria instituição, permitindo que mais pessoas sejam acompanhadas por profissionais que já conhecem seu histórico clínico. "Esse primeiro transplante inaugura uma nova etapa na assistência hematológica do Distrito Federal. A rede pública passa a contar com maior capacidade para atender à demanda por esse tratamento, o que deve contribuir para reduzir o tempo de espera", explica Laura.
A expectativa é realizar de dois a quatro transplantes mensais, inicialmente destinados a pacientes com indicação da modalidade autóloga, especialmente em casos de mieloma múltiplo e determinados tipos de linfoma.
Trinta minutos que exigiram dias de cuidados
Diferentemente do que o nome pode sugerir, o transplante de medula óssea realizado em Carlos não envolveu cirurgia. As células-tronco foram retiradas do próprio sangue e, após uma quimioterapia de alta intensidade, devolvidas ao organismo por uma infusão semelhante a uma transfusão sanguínea.
Internado em 5 de outubro, o paciente passou pela coleta das células no dia seguinte e recebeu a medicação preparatória no dia 7. A infusão ocorreu em 8 de outubro e durou aproximadamente 30 minutos. A etapa mais delicada veio depois. Com as defesas do organismo profundamente reduzidas, permaneceu em isolamento, sob monitoramento constante, enquanto a equipe aguardava a retomada da produção das células sanguíneas.