Resultados da pesquisa

Brasília 59 anos

Thumbnail

Carnaval em Brasília: de bailes em clubes a blocos de rua

O Carnaval de Brasília começou antes mesmo da inauguração da cidade,em 1960 | Foto: Divulgação / Aruc Se hoje um milhão de brasilienses e turistas invadem as ruas de Brasília para brincar o Carnaval, é porque um grupo de pioneiros deu o pontapé para iniciar a festa do Momo, quando a cidade mal tinha comemorado seu primeiro ano de vida. Os primeiros moradores da capital contam que a folia existia desde antes da inauguração, em 21 de abril de 1960. Era um desejo de Israel Pinheiro, administrador da capital federal, fazer, no meio do Cerrado, o primeiro Carnaval da nova cidade. A princípio, os festeiros se reuniam na Travessa Dom Bosco, na Cidade Livre – hoje Núcleo Bandeirante –, com apenas alguns solitários fantasiados pelas ruas. Foi oficialmente em 1961 que a festança começou. Naquele ano, a alegria tomou conta dos salões de bailes dos clubes do Núcleo Bandeirante e do Plano Piloto. Em outubro, foi fundada a primeira escola de samba, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro. A inciativa veio de um grupo de moradores cariocas reunidos em um dos primeiros núcleos urbanos da cidade, ainda chamado de Bairro do Gavião – hoje Cruzeiro. A estreia foi em 1962, ocupando a W3 Sul, ponto de encontro da sociedade brasiliense na época. Além da Unidos do Cruzeiro, desfilaram outras três escolas: Alvorada em Ritmo – que venceu as três primeiras disputas –, Brasil Moreno e Unidos de Sobradinho. Primeiros desfiles de escolas de samba em Brasília | Foto: Divulgação / Aruc Durante muitos anos, a apresentação das agremiações foi o ponto alto do Carnaval brasiliense e também serviu de base para o fomento do samba na cidade e a disseminação do ritmo também em blocos de rua, como o Pacotão. Vencedora absoluta Das quatro escolas que se apresentaram em 1962, apenas a Unidos do Cruzeiro ainda existe e completa 59 anos em 21 de outubro deste ano. Depois dos três carnavais vencidos pela Alvorada em Ritmo – 1962, 1963 e 1964 -, a escola do Cruzeiro começou a vencer em 1965 e conquistou, logo de cara, o pentacampeonato. Nos primeiros anos, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro desfilava com o nome de Unidos do Cruzeiro. Foi assim até que um jornalista do Correio Braziliense, à época autor de muitas reportagens sobre a associação, reclamou que o nome era muito grande, difícil de ser usado em títulos. Ele sugeriu que a escola adotasse a sigla Aruc, que pegou. Desfile dos anos 1970: Aruc conquistou 31 dos 48 desfiles oficiais dos quais participou | Foto: Divulgação / Aruc A Aruc conquistou uma hegemonia como pouco se viu nos carnavais do Brasil. Ganhou 31 dos 48 desfiles oficiais dos quais participou. A escola trazia para a avenida 1,2 mil componentes com fantasias luxuosas, no padrão carioca da Sapucaí. As escolas de samba do DF desfilaram até 2014, quando a festa teve como vencedora a Acadêmicos da Asa Norte, escola fundada em 1969 e a segunda maior detentora de títulos – sete, ao todo. Palcos da folia Entre 1963 e 1966, a festa tomou conta da Rodoviária do Plano Piloto | Foto: Arquivo Público do DF Depois da W3 Sul, o palco da diversão foi transferido para a plataforma superior da Rodoviária de Brasília, onde ficou até 1966. A partir daí, até o começo da década de 1980, as escolas de samba se apresentavam na região central do Plano Piloto. Em 1982, o desfile foi levado para a Avenida Comercial de Taguatinga, mas logo voltou ao Plano Piloto, nos anos seguintes. As farras carnavalescas memoráveis da cidade lotavam mesmo era o Eixão Sul, entre as décadas de 1980 e 1990, chegando a reunir 50 mil pessoas na noite de desfiles do Grupo Especial, formado por seis escolas. “Foram grandes carnavais, mas aí começou a ter reclamação de moradores, começaram as obras do metrô e tivemos que sair de lá”, conta Moacyr de Oliveira Filho, o Moa, 67 anos, e presidente da Aruc pelo quinto mandato (não consecutivo). Para ele, o melhor lugar de Brasília para desfilar era a Passarela da Alegria, atrás da Torre de TV e que,  também conhecido como Caldeirão da Folia, foi o cenário onde as agremiações se apresentaram entre 1997 e 2004. “Era o lugar perfeito, a pista já estava pronta, não tem moradores perto, é um local centralizado, perto da Rodoviária, com estacionamento fácil, não causava grandes transtornos para ser fechado quando as arquibancadas eram montadas”, enumera. “Era um local que incomodava muito pouco a vida da cidade”. Ceilambódromo Em 2005, o Carnaval ganhou um espaço especialmente feito para os desfiles – o Ceilambódromo | Foto: Divulgação / Aruc Segundo Moa, o sucesso do Carnaval no fim da década de 1980 e nos anos 1990 se deve a uma programação cultural extensa e diversificada. Nas chamadas “batalhas de confete”, dois meses antes da farra, um evento pré-carnavalesco agitava as regiões administrativas. “Ia um conjunto de samba, o reinado do Momo e uma escola de samba”, retoma. “Um fim de semana era em Taguatinga, no outro em Ceilândia, no Guará… Cada fim de semana tinha em uma cidade. Isso ajudava a atrair o público.” O presidente da Aruc, Moa, participou de grande parte da história do Carnaval de Brasília | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Ele também lembra que havia dois eventos junto ao desfile das escolas que atraíam grande público: um baile infantil na tarde de domingo no “sambódromo” e todas noites tinha um baile popular quando acabavam as apresentações das agremiações. Em 2005, um novo capítulo marcou a história do Carnaval de Brasília. Por sete anos seguidos, o desfile foi realizado em Ceilândia, onde uma estrutura era montada exclusivamente para a folia, o Ceilambódromo – local em que hoje funciona uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A noite do desfile do grupo especial chegava a reunir 40 mil pessoas, mas, apesar do público, os dirigentes das escolas reclamavam da falta de estrutura e da distância. De Ceilândia, a festa voltou para o estacionamento do ginásio Nilson Nelson, onde permaneceu por mais dois anos até ser suspensa de vez. Há cinco anos as escolas de samba não desfilam em Brasília. Carnaval de rua Desfile do Pacotão em 1979: milhares de pessoas embaladas pela marchinha do Aiatolá| Foto: Divulgação / Pacotão A história do Carnaval de rua de Brasília começou no ano em que a cidade completava sua maioridade (18 anos). Numa época em que o desfile das escolas de samba imperava, em 1978, o bloco Pacotão surgiu timidamente no meio da avenida e, aos poucos, aglutinou multidões. Conhecido por satirizar a situação política do país, o bloco de rua mais tradicional da cidade tem marchinhas com letras ácidas contra políticos e cruza a W3 Sul pela contramão, como forma de protesto. A origem do nome “pacotão” faz referência ao conjunto de medidas anunciadas pelo então presidente da República Ernesto Geisel em 1977, conhecido como “Pacote de Abril”. O tal pacote não foi para a frente e, entre os jornalistas, virou motivo de piada. Da brincadeira, veio a sugestão de criar um bloco. “A ideia era fazer um bloco dos sujos, igual nos carnavais de antigamente, em que as pessoas botavam uma fantasia e iam para a rua. No primeiro desfile, em 1978, parecia um bando de malucos no meio da rua”, conta Moa, um dos fundadores do Pacotão. Naquele primeiro desfile, parte da bateria da Aruc saiu com o bloco e garantiu a diversão dos foliões. “Eu já frequentava a Aruc e pedi apoio ao presidente da escola, que adorou a ideia”, conta o jornalista. “Tanto que o primeiro cartaz de divulgação do bloco dizia: ‘o Pacotão e a Unidos do Cruzeiro convocam o povo para adentrar a avenida’”. Marcha do Aiatolá [Olho texto=”Geisel, você nos atolou, o Figueiredo também vai atolar. Aiatolá, aiatolá, venha nos salvar, que esse governo já ficou gagá.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] Auge do Pacotão, o desfile de 1984 foi o das Diretas Já | Foto: Divulgação / Pacotão O bando de “malucos” totalizou cerca de 100 pessoas em 1978. Um ano depois, o bloco explodiu e atraiu milhares. Naquele ano, foi escrita a marchinha conhecida até hoje como hino do Pacotão, a Marcha do Aiatolá. Em 1979, o general João Figueiredo sucedia a Ernesto Geisel no controle ditatorial do país. Enquanto isso, no Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderava a revolução que, em 11 de fevereiro, derrubou o monarca Mohammad Reza Pahlavi e instaurou a república islâmica. A marchinha caiu no gosto da cidade e milhares de pessoas desfilaram naquele ano. “Quando criamos o bloco, nunca imaginamos que o Pacotão iria se transformar no que se transformou”, conta Moa. Diretas já Mas o auge do Pacotão foi em 1984, ano das Diretas Já, quando uma multidão estimada entre 30 e 40 mil pessoas se entregou ao samba. A marchinha era Cai na real, general, e a maioria dos carnavalescos fez o percurso vestido de amarelo e verde carregando mensagens que pediam a retomada das eleições diretas para presidente. Esse desfile deixou o Pacotão nacionalmente famoso. O Fantástico, da Rede Globo, passou a mostrar o desfile todos os domingos durante alguns anos, simbolizando o Carnaval de Brasília. Ele existe até hoje, mas seus fundadores ficaram mais velhos, se afastaram das funções e não desfilam mais. [Olho texto=”Não adianta mais enrolar, é agora, tá na hora, vamos lá. Ninguém me segura, sai da minha frente. Eu, este ano, vou votar pra presidente. Chega de conversa mole, ninguém engole o tal Colégio Eleitoral. Cai na real, general.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=””] Clubes Clubes de Brasília eram palco de muita folia nas décadas de 1980 e 1990 | Foto: Divulgação/  Iate Clube Os bailes nos clubes também são um capítulo da história do Carnaval brasiliense que merece destaque. Desde os anos 1960, os mais animados vestiam as fantasias, pintavam os rostos e lotavam os salões. Bailes memoráveis eram concorridíssimos até os anos 2000. Em 1961, os carnavais eram celebrados em clubes do Plano Piloto, como no pioneiro Brasília Palace Hotel, e também em boates do Núcleo Bandeirante. Em 1962, foi criado no Hotel Nacional o Baile da Cidade, que contou com a presença da atriz norte-americana Rita Hayworth e do então primeiro-ministro Tancredo Neves. Houve também o baile popular, no Teatro Nacional, ainda em construção. No ano seguinte, o Baile da Cidade, novamente, lotou o Hotel Nacional, e quem apareceu por lá foi o astro hollywoodiano Kirk Douglas. Decoração do baile popular no Teatro Nacional ainda em construção | Foto: Arquivo Público do DF Nos anos 1980, as noites eram embaladas por marchinhas e bandas de sopro. Os bailes dessa época já eram sucesso e reuniam cerca de 5 mil pessoas. Mas o auge mesmo foi nos anos 1990, quando, em festas embaladas por bandas de axé, os brasilienses começaram a ouvir músicas baianas, como as de Luiz Caldas, tocadas, entre outras, pela banda Squema Seis. Também passaram a fazer sucesso as inúmeras festas do estilo micareta espalhadas pela cidade. Havia um revezamento dos dias dos bailes. Os do Iate Clube eram realizados domingo e terça-feira, enquanto no sábado e na segunda a folia tinha como palco o Clube do Congresso. “Os bailes dos anos 1990 reuniam de sete a oito mil pessoas nos dois dias de Carnaval”, lembra Nelson Gonçalves, diretor social do Iate Clube de Brasília. “Nada se compara aos carnavais daquela época”. Em 1996, o Carnaval do Iate foi inesquecível. Cinco bailes aconteceram durante os quatro dias divertimento: dois com a banda Squema Seis, dois com o Batom na Cueca e, no quinto, a folia embalada por um esquema mais tradicional: as marchinhas. “Eles eram no ginásio de esportes onde cabia mais gente”, conta Nelson. Bailes de Carnaval da década de 1990 no Iate Clube chegavam a reunir 8 mil pessoas | Foto: Divulgação / Iate Clube No Iate, o público era mais velho, na faixa entre 30 e 40 anos, e os bailes, mais refinados. Os mais jovens iam para o Minas Tênis Clube e para a Associação Atlética Banco do Brasil (AABB). Marilda Nepomuceno aos cinco anos:  fã de Carnaval desde pequena | Foto: Acervo pessoal Moradora da Asa Norte, Marilda Nepomuceno, 57 anos, é apaixonada por Carnaval desde criança. Nos anos 1970, segundo ela, a diversão acontecia nas matinês do Brasília Palace e, posteriormente, a folia era nos clubes. “A gente percorria todos os bailes, o Minas, a AABB, o Iate”, lembra. “Todo mundo ia”. Hoje, a diversão de Marilda e seus amigos é nos blocos de rua, que se tornaram a cara do Carnaval de Brasília.

Ler mais...

Thumbnail

Orédio Alves de Rezende, pioneiro das autopeças no DF

Induspina, a primeira loja para peças de automóveis no DF | Foto: Arquivo pessoal Parecia um domingo de sol como outro qualquer, quando o empresário Orédio Alves de Rezende decidiu levar a família para um piquenique ali nos arredores do Aeroporto Internacional de Brasília. Era final dos anos 1960 e o lugar era ermo, como quase toda a cidade na época. “A estrada que ia para o aeroporto passava pela Velhacap, hoje, Candangolândia”, lembra o pioneiro. De repente, um susto. Estaciona atrás de seu DKW-Vemaguet cinza um carro preto. “Era o presidente Juscelino Kubitschek, que ia para o aeroporto pegar um avião. Só ele e o motorista. Desceu do carro, deu um beijinho nas crianças, pegou um pedaço de qualquer coisa para comer e foi embora”, recorda. “Nessa história pouca gente acredita”, ri. Goiano de Pires do Rio, Orédio Alves, hoje com 83 anos, é daqueles desbravadores que chegaram a Brasília quando a cidade era um enorme canteiro de obras. Ou seja, bem antes da inauguração da nova capital, em 21 de abril de 1960. Havia poeira espalhada por toda a cidade – um verdadeiro manto vermelho estendido no horizonte. A vinda foi em 1957, para a Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, com a missão de instalar na Segunda Avenida, nº 970, a filial da Induspina Autopeças, primeira unidade da empresa fora de Goiás e a primeira loja do ramo no Distrito Federal. Pioneira no ramo de peças de veículos, a Induspina abriu a primeira loja no Núcleo Bandeirante | Foto: Arquivo pessoal O terreno foi cedido, pessoalmente, por Bernardo Sayão, engenheiro da equipe do arquiteto Oscar Niemeyer e do urbanista Lucio Costa – responsáveis pela idealização e construção de Brasília. “As pessoas achavam que eu estava doido ao vir para cá sozinho. Quando cheguei, camarada, aqui era tudo isolado, não tinha ninguém conhecido, só barulho de máquina dia e noite”, conta. “Eu vim para Brasília por causa do Bernardo Sayão, ele era sogro de um dos Pina, família que dominava Goiás na época, e da qual meu patrão fazia parte. Um dia, ouvi uma conversa deles assim: ‘se vocês, que são goianos, não se interessam por lá [Brasília], quem vai se interessar? Vocês têm que abrir uma loja lá’”. Sugestão dada, seu Orédio assentiu e seguiu as dicas. Filme O Legado de um Pioneiro, disponível apenas no Youtube, conta a história do pioneiro Orédio Alves de Rezende | Foto: Reprodução Homenageado em novembro deste ano com o título de Cidadão Honorário de Brasília, concedido pela Câmara Legislativa do DF, o empresário teve sua trajetória transformada em filme. Com duração de 60 minutos, O Legado de um Pioneiro – disponível apenas no Youtube -, é mais do que o resgate de uma vida, é a evidência dos princípios de um homem cujo maior prazer sempre foi trabalhar. “A primeira ideia era escrever um livro, mas o filme se tornou um projeto mais viável”, conta o produtor e roteirista Flávio Resende, filho de Orédio. “É a história de um homem que dedicou a vida ao trabalho, os seus valores. Sua trajetória é uma inspiração para as novas gerações”, avalia. Referência no mercado A Induspina tem até hoje uma loja na W3 Sul | Foto: Lúcio Bernardo Jr / Agência Brasília Graças ao esforço do pioneiro, a Induspina Autopeças, uma das raras empresas nascidas antes da inauguração da cidade –  ainda em atividade – , se tornaria, em pouco tempo, uma referência no segmento. Sobretudo porque disputava a concorrência no mercado local com uma única empresa, a Peças Moreira. Com o sucesso do negócio, veio a expansão. O lugar escolhido para a nova sede seria a 514 na W3 Sul. Naquele ano de 1960, mesmo com a inauguração da cidade, poucos lojistas se arriscavam a ter um empreendimento na rua comercial mais popular do DF – W3. Existiam apenas a Bibabô, loja de departamentos, o restaurante Roma e a Pioneira da Borracha, essas duas ainda em funcionamento. O empresário Orédio: “Gosto muito de Brasília, vi essa cidade crescer” | Foto: Lúcio Bernardo Jr / Agência Brasília “Todas as empreiteiras que trabalharam na construção de Brasília eram cadastradas na Induspina. O que eu tinha de peça, vendia, porque não tinha onde comprar, e as máquinas e caminhões trabalhavam dia e noite. Com isso, a empresa foi ficando muito popular, muito benquista”, explica. “Eu nunca deixei de atender uma pessoa que batesse na minha porta. Podia ser qualquer hora da noite ou da madrugada”, lembra, orgulhoso. Assim, trabalhando de sol a sol, um belo dia de 1964, Orédio aceitou abrir sociedade e expandiu os negócios, totalizando, até o final dos anos 1980, cinco filiais: Núcleo Bandeirante, Asa Sul, Taguatinga Centro, SIA e Asa Norte, congregando 80 funcionários. Hoje, há apenas uma loja, na W3 Sul, com 11 empregados. “Tudo o que sei eu aprendi com o seu Orédio”, se emociona Ronaldo Leite, que trabalha há mais de 20 anos na empresa. A carteirinha de pioneiro de Brasília | Foto: reprodução  “Gosto muito de Brasília, vi essa cidade crescer”, afirma o empresário, que faz questão de exibir a carteirinha da Associação dos Candangos Pioneiros de Brasília. Afastado da empresa por motivo de saúde, ele dedica seu tempo, há mais de 20 anos, à fazenda Santa Rosa, a 78 km de Brasília. “Eu sou filho de fazendeiro, trabalhei na roça”, conta. Orédio lembra ainda que, no fim dos anos 1970, quase início da década seguinte,  foi considerado o maior produtor de gado Gir (raça originária do Norte da Índia) da região. “Participei de tudo quanto é exposição, tenho a parede forrada de taças que ganhei com o meu gado”, revela.

Ler mais...

Thumbnail

A arte de transformar as flores secas do Planalto Central

Assim como os inconfundíveis traços do arquiteto Oscar Niemeyer desenhados nos concretos de várias edificações de Brasília, as flores secas do Cerrado são uma das marcas inconfundíveis do Distrito Federal. Trata-se da natureza local em seu estado bruto e puro. A essência da beleza rústica. Nas mãos de artesãos habilidosos, elas se transformam em belos arranjos montados que, há quase 50 anos, encantam moradores da cidade e turistas de todo país bem ali, em frente à Catedral Metropolitana de Brasília. Ao todo, são dez bancas que comercializam mais de 50 tipos de espécies de cores vibrantes e díspares. Elas podem ser encontradas no cerrado das cidades de Santa Maria, São Sebastião, Cristalina e Padre Bernardo. Também na vegetação seca de Alto Paraíso (GO). Em menor escala, entre uma repartição e outra do Plano Piloto, a poucos metros da algazarra das crianças nos pilotis ou na agitação urbana das entrequadras. São elas: pingo de ouro, sempre viva, papoulinha, amarelão, capim do cerrado, ourinho, folhas-moedas, capim-rabo-de-raposa, pireque-branco, muitas plumagens e pétalas, além, claro, de sementes e frutos de diversas árvores. Ah, sim, e tem a emblemática papipalon ou papipalan, a preferida de Lucio Costa [urbanista] e Oscar Niemeyer que, dizem os entendidos, o inspirou a projetar a Torre Digital. “Onde ela dá, parece um tapete branco”, explica Pedro dos Santos Fernandes, o mais antigo dos floristas da Catedral. Pedro Fernandes começou o ofício aos 7 anos | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Quando ele começou a vender os artefatos naturais do cerrado, tinha de sete para oito anos. Isso era início dos anos 70, pouco antes da inauguração da Catedral, em maio de 1970. Aprendeu o ofício com o pai, Dionísio, paraibano que chegou à nova capital no final dos anos 60 para encarar a construção civil. Não deu pé. Primeiro porque os canteiros de obras já estavam lotados de operários e, depois, porque achou o trabalho nos canteiros de obras pesado demais. “Como ele gostava de mexer com flores lá não foi difícil de se adaptar aqui”, conta Pedro Fernandes, hoje beirando os 60 anos. “Só que aqui ele encontrou uma variedade rica e única”, constata. Alquimia verde No livro, “O Menino do Dedo Verde” (1957), do francês Maurice Druon, Tistu é um guri com dom especial para lidar com flores. Numa espécie de Rei Midas da natureza, tudo que ele toca se transforma em arranjos de beleza única, jardins ornamentais. Impressionante a mágica que os “floristas” da Catedral Metropolitana fazem com as folhas, sementes, hastes, plumagens e flores que colhem pelo cerrado. É um tipo de artesanato genuíno e autêntico, 100% não industrializado que faz parte da história da nossa cidade. Assim como os prédios de Niemeyer e o estilo urbanístico de Lucio Costa, um de nossos cartões postais. Verdadeiros alquimistas do verde, eles vão criando composições artesanais das mais criativas formas, combinações perfeitas que encantam turistas, influenciam designers, lojas de decorações, compartilhando um pedacinho de Brasília com o resto do país. “Você tem que colher uma flor de qualidade, de primeira. Se pegar no tempo certo ela dura até 10 anos. Agora se pegar fora do tempo não dura um mês”, ensina o experiente Pedro. “Eu amo mexer com as flores do cerrado, peguei amor pela profissão”, confessa. Duas técnicas são usadas para produzir as flores secas | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Dois tipos de técnicas fazem sucessos na barraca dos artesãos de flores há décadas. As duas exigem dedicação e paciência num processo que vai da colheita ao armazenamento, passando pela desidratação, fervura em soda cáustica, clareamento com cloro, transformando-as em folhas esqueletizadas. Banhadas com material da cor de ouro, elas brilham ao sol. Já as flores pintadas na anilina, com tinta especifica para couro, palha e flores, demoram mais a ficar pronta – cerca de seis horas. Ambas fazem os turistas suspirarem de encanto e surpresa. “Eu nunca tinha visto esse tipo de trabalho antes. Lá em Belo Horizonte temos um mercado central que vende muito artesanato. Mas nada parecido”, comenta a designer de moda mineira Raquel Bacellar. “A cultura nordestina é muito rica nesse tipo de trabalho manual, até conhecemos algumas dessas flores, mas eu nunca tinha visto algo tão original e belo feito com elas”, comenta o empresário pernambucano Valdir Villar. O experiente Pedro conta que os brasilienses compram bastantes, mas os turistas  de fora são imbatíveis. “Ao contrário do que parece elas são fáceis de carregar e não estragam fáceis”, tranquiliza. E ao que tudo indica muitos turistas ainda vão se deslumbrar com a beleza bucólica das flores secas do cerrado. Isso porque se trata de uma tradição que passa de pai para filho, como aconteceu com seu Pedro, perpetuada na família. “Eu aprendi esse ofício com o meu tio, se eu não mexesse com flores, nem sei o que seria”, lembra o cearense Guajará Ferreira de Paula, desde os 18 anos no ramo. “Os filhos ajudam tanto na venda, como na colheita. Vou com o grupo para o mato”, revela Pedro.  

Ler mais...

Thumbnail

Nascidas com Brasília: tão perto, tão longe

Ivoone Araújo Eduardo, 88 anos, chegou em Brasília aos 28 anos, com o marido João Eduardo Neto e a filha Leila, na época com apenas 6 anos. O marido era funcionário do Ministério da Fazenda, fora transferido do Rio de Janeiro para a nova capital e se mudou com a promessa de morar na 709 Sul, na Asa Sul. Mas as casas na quadra estavam ocupadas e eles acabaram instalados em uma nova cidade que estava sendo criada nas proximidades do Plano Piloto, projetada pela equipe de Lucio Costa: o Cruzeiro. A enfermeira aposentada recorda detalhes daquele 30 de março de 1959. “Aqui era tudo Cerrado. Só tinha mato, poeira, gavião, veadinho, cobra, tudo que era bicho. Dez casas estavam sendo construídas, não tinha uma estrada”, conta. “Eu vim tão arrumada, com uma saia de veludo, sapato de verniz, toda bonitinha. Quando cheguei aqui e botei o pé na terra, a poeira subiu, a lágrima desceu”, conta. A família de Ivoone Araújo Eduardo, 88 anos, foi a primeira a viver no Cruzeiro | Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília A família foi a primeira a viver no Cruzeiro. A matriarca escolheu a casa que queria, a terceira da quadra, e mora nela até hoje. Ivoone não esconde o incômodo que a falta de infraestrutura da cidade provocava nos primeiros moradores. “Um mês depois que a gente chegou é que fizeram a pista”, diz. “Eu não queria ficar em um lugar sem luz e sem água. Aí combinaram de mandar o carro-pipa trazer água duas vezes por semana e a (construtora) Camargo Corrêa tinha um acampamento aqui perto e fornecia luz para a gente até 22h”, relata. Aos finais de semana, funcionários do Grupo de Trabalho de Brasília (GTB), órgão responsável por alojar os novos moradores da capital, disponibilizavam um ônibus para levá-los à Cidade Livre para fazer as compras da semana. Comprava-se em grande quantidade para estocar. Só mais tarde a prática da feira semanal passou a ser comum. A Feira Permanente do Cruzeiro hoje funciona onde era o acampamento da Camargo Corrêa. Dona Ivoone tinha as chaves das casas e ficou incumbida de mostrá-las aos funcionários do governo federal que eram transferidos, a maior parte deles vindos do Rio de Janeiro, mas, também, de outros estados do Sudeste e até do Nordeste. “Me deram licença do hospital para fazer esse serviço. Eu fiquei mostrando as casas. Lembro que quando chegou o segundo morador ele ficou louquinho, queria ir embora no mesmo dia”, conta a mulher que, no Rio de Janeiro, trabalhava no Hospital dos Servidores do Estado e, em Brasília, ajudou a fundar o Hospital das Forças Armadas (HFA). “Eu entendi ele, quis fazer a mesma coisa. Muita gente não tinha nada, mas eu deixei minha casa no Rio e vim para Brasília”, ressalta. No começo, o grande motivador para a permanência de Ivoone era financeiro: o marido ganhava três vezes mais. “Ele recebia o salário e uma dobradinha. O salário era pago e, ao longo do mês, o ordenado saía  mais duas vezes”, conta. Com o tempo, a família criou raízes no quadradinho. Os filhos cresceram, se casaram, vieram os netos e bisnetos… “A gente foi acostumando, melhorando a situação. Demorou quase um ano para eu me habituar, mas hoje eu não queria morar no Rio”, fala. Cemitério e Bairro do Gavião O Cruzeiro crescia rápido. O governo construiu mais casas. Água e luz, no entanto, só vieram dois anos depois dos primeiros moradores. Na época, a cidade ainda não tinha sido batizada de Cruzeiro. O nome oficial era Setor de Residências Econômicas Sul (SRE-S), mas, ainda não acostumados com as siglas, nenhum dos moradores do local decorava o nome certo. Registro de inauguração de mercado no Cruzeiro em 1966 | Foto: Arquivo Público do DF Surgiu, então, o apelido de “cemitério” por causa da situação ainda precária, com vegetação alta por perto e animais transitando nas ruas. “De longe via-se apenas as casinhas brancas no meio da poeira vermelha”, afirma o historiador Rafael Fernandes de Souza, que cresceu no Cruzeiro e escreveu o livro Cruzeiro, retratos de sua história: 1959 a 2009. O local também era chamado de Bairro do Gavião, por causa da grande quantidade desse tipo de animal solto na rua. Em 1960, um grupo de moradores, insatisfeitos com o nome do local onde moravam, procurou o jornal Correio Braziliense, cuja equipe resolveu batizar a cidade com o nome de Cruzeiro porque ela ficava próxima ao cruzeiro onde fora celebrada a Primeira Missa de Brasília, em 3 de maio de 1957. Sete anos depois, começou a construção dos prédios, o que deu nova configuração à cidade. O projeto original era inspirado na proposta de apartamentos populares de Lucio Costa, mas acabou desvirtuado. A ideia era um gabarito de 3 andares, a exemplo das quadras 400 da Asa Sul. “Provavelmente, devido à especulação imobiliária conseguiu-se um andar a mais e o setor ficou descaracterizado”, diz o historiador Rafael Fernandes de Souza. A nova parte da cidade ganhou o nome de Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul (SHCE-S), mas,  ainda resistentes às letras, os moradores pegaram carona na mudança monetária e o setor foi apelidado tal qual a nova moeda à época: Cruzeiro Novo. Obras de infraestrutura do Cruzeiro Novo | Foto: Arquivo Público do DF O outro lado da moeda A menos de 10km do centro da nova capital, os pioneiros da região administrativa mais próxima do Plano Piloto também reclamavam da distância entre o Cruzeiro e a Asa Sul, parte da cidade que já existia. Se eles achavam longe, imagina quem decidiu ir morar no Lago Sul? Numa época, vale salientar, em que nenhuma das pontes estava construída e era preciso dar a volta pelo aeroporto para chegar ao bairro nobre, que só se transformou oficialmente em cidade em 1994. “Na época, grande parte do comércio da Avenida W3 Sul ia até a 508 Sul. Era preciso dar a volta e ir até lá para comprar qualquer coisa, até um cigarro”, lembra o empresário pioneiro Gilberto Salomão, aos 88 anos. Gilberto Salomão, o primeiro a investir no Lago Sul | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília A ocupação no Lago começou quando a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) decidiu construir casas no bairro para servir de residência dos seus diretores. As 15 primeiras, nos conjuntos 5, 6 e 7 da QL 1 (hoje QL 8), ficaram prontas em junho de 1958. Elas não foram construídas em lotes vizinhos, mas salteados, para estimular o interesse de outros a construir e também morar no Lago Sul. Em 1959, foram construídas, nas quadras internas do Trecho 0, atual QI 3, 20 casas para os oficiais da Aeronáutica, devido ao fato de a área ficar próxima da Base Aérea.     Foto: Arquivo Público do DF [Olho texto=”Você sabia? Os primeiros moradores do Lago Sul foram Ney Dutra Ururahy, que era chefe de gabinete de Israel Pinheiro, e Joaquim Alfredo Tavares, chefe do Departamento de Terras e Agricultura da Novacap. Eles ocuparam as casas dias depois delas ficarem prontas, em junho de 1958″ assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] As casas não tinham luz nem água, usavam lampiões de querosene e a água chegava na carroceria de caminhões ou camionetes. “Mais tarde, quando começaram a erguer a igrejinha (de madeira) de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o pároco comprou um grupo gerador que cedia energia aos vizinhos durante algumas horas”, conta Lourenço Fernando Tamanini, no livro Brasília, Memória da Construção: A surpreendente história do Lago Sul e outras histórias exemplares. Tamanini morou no Lago Sul. No livro, ele conta que a casa, na QI 5, comprada em 1972, era “não só é a mais antiga do bairro, mas possivelmente a mais antiga do Distrito Federal”. Segundo ele, ela foi edificada no começo de 1957 e abrigou engenheiros da Companhia Construtora Brasileira de Estradas (CCBE), empresa paulista de terraplenagem que se deslocara para o Planalto Central para participar dos trabalhos de construção da nova capital. “Não era uma casa isolada, fazia parte do acampamento da empresa, que agrupava algumas outras edificações, alojamentos, oficinas, almoxarifado e até uma piscina”, diz o livro. Lago Sul, nem de graça Mas a história do Lago Sul se confunde à de Gilberto Salomão, o primeiro empresário a investir naquelas terras no fim do mundo. O empresário, que chegou com Brasília ainda em construção, em setembro de 1958, comprava lotes na Avenida W3 Sul, construía e vendia as modestas casas. Mas quando os lotes foram escasseando e encarecendo, ele achou ter encontrado nos terrenos do Lago Sul a solução: eram maiores e custavam menos, muito menos. Vista do Lago Sul quando o Centro Comercial Gilberto Salomão ainda estava em construção. Foto: Arquivo “Construí logo sete casas que ficaram prontas em 1962. Mas não apareceu comprador. Eu facilitei o pagamento e nada”, conta. O tempo foi passando e, desapontado, Gilberto decidiu alugar as casas, mas também não apareceram interessados, mesmo depois de o anúncio ter sido repetido semana após semana. “Resolvi então oferecer as casas a parentes e amigos para morarem de graça. Desta forma eu não precisaria me preocupar com a manutenção e com impostos. Ninguém aceitou, nem meu irmão”, recorda-se. Lojas do Centro Comercial Gilberto Salomão. Foto: Arquivo Público do DF Ninguém queria morar em um lugar longe, cheio de mato e com difícil acesso. As casas continuaram fechadas, solitárias e sem vizinhos até 1965, quando o médico pioneiro José Farani, que construiu o primeiro hospital particular de Brasília, o Santa Lúcia, chegou. Gilberto começou a se perguntar o motivo pelo qual seu empreendimento não tinha dado certo e, em conjunto com diretores da Novacap, chegou a uma resposta: faltava comércio no bairro. Foi assim que ele comprou um terreno e começou a construção do centro comercial que leva seu nome. Quando o Gilberto Salomão começou a ser construído, em 1965, existiam no Lago Sul pouco mais de 50 casas, incluindo as 15 erguidas pela Novacap, as 20 da Aeronáutica e as sete construídas pelo empresário pioneiro. Subiu para 497 após a inauguração do conjunto de lojas, em 1968. ”Foi um bom avanço, mas ainda insignificante em relação aos 5.958 lotes previstos no projeto de urbanização”, afirma o pioneiro Tamanini. As pontes só chegaram ao Lago Sul seis anos depois. A primeira deveria ter sido a Costa e Silva, um projeto de Oscar Niemeyer feito em 1967. As obras, iniciadas em 1973, ficaram anos paralisadas e a ponte só foi inaugurada em fevereiro de 1976. Inauguração da primeira ponte no Lago Sul. Foto: Arquivo Público do DF A primeira a ser de fato utilizada foi a Ponte das Garças, conhecida como Ponte do Gilberto, cuja construção durou poucos meses. Feita em um trecho estreito e pouco profundo do lago Paranoá, as obras começaram em junho de 1973 e a inauguração ocorreu em janeiro de 1974.

Ler mais...

Ordenar

Ordenar

Faceta do tipo

Tipo

Filtro personalizado

Faceta da marca

Marcador