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Brasília 59 anos

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Carnaval em Brasília: de bailes em clubes a blocos de rua

O Carnaval de Brasília começou antes mesmo da inauguração da cidade,em 1960 | Foto: Divulgação / Aruc Se hoje um milhão de brasilienses e turistas invadem as ruas de Brasília para brincar o Carnaval, é porque um grupo de pioneiros deu o pontapé para iniciar a festa do Momo, quando a cidade mal tinha comemorado seu primeiro ano de vida. Os primeiros moradores da capital contam que a folia existia desde antes da inauguração, em 21 de abril de 1960. Era um desejo de Israel Pinheiro, administrador da capital federal, fazer, no meio do Cerrado, o primeiro Carnaval da nova cidade. A princípio, os festeiros se reuniam na Travessa Dom Bosco, na Cidade Livre – hoje Núcleo Bandeirante –, com apenas alguns solitários fantasiados pelas ruas. Foi oficialmente em 1961 que a festança começou. Naquele ano, a alegria tomou conta dos salões de bailes dos clubes do Núcleo Bandeirante e do Plano Piloto. Em outubro, foi fundada a primeira escola de samba, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro. A inciativa veio de um grupo de moradores cariocas reunidos em um dos primeiros núcleos urbanos da cidade, ainda chamado de Bairro do Gavião – hoje Cruzeiro. A estreia foi em 1962, ocupando a W3 Sul, ponto de encontro da sociedade brasiliense na época. Além da Unidos do Cruzeiro, desfilaram outras três escolas: Alvorada em Ritmo – que venceu as três primeiras disputas –, Brasil Moreno e Unidos de Sobradinho. Primeiros desfiles de escolas de samba em Brasília | Foto: Divulgação / Aruc Durante muitos anos, a apresentação das agremiações foi o ponto alto do Carnaval brasiliense e também serviu de base para o fomento do samba na cidade e a disseminação do ritmo também em blocos de rua, como o Pacotão. Vencedora absoluta Das quatro escolas que se apresentaram em 1962, apenas a Unidos do Cruzeiro ainda existe e completa 59 anos em 21 de outubro deste ano. Depois dos três carnavais vencidos pela Alvorada em Ritmo – 1962, 1963 e 1964 -, a escola do Cruzeiro começou a vencer em 1965 e conquistou, logo de cara, o pentacampeonato. Nos primeiros anos, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro desfilava com o nome de Unidos do Cruzeiro. Foi assim até que um jornalista do Correio Braziliense, à época autor de muitas reportagens sobre a associação, reclamou que o nome era muito grande, difícil de ser usado em títulos. Ele sugeriu que a escola adotasse a sigla Aruc, que pegou. Desfile dos anos 1970: Aruc conquistou 31 dos 48 desfiles oficiais dos quais participou | Foto: Divulgação / Aruc A Aruc conquistou uma hegemonia como pouco se viu nos carnavais do Brasil. Ganhou 31 dos 48 desfiles oficiais dos quais participou. A escola trazia para a avenida 1,2 mil componentes com fantasias luxuosas, no padrão carioca da Sapucaí. As escolas de samba do DF desfilaram até 2014, quando a festa teve como vencedora a Acadêmicos da Asa Norte, escola fundada em 1969 e a segunda maior detentora de títulos – sete, ao todo. Palcos da folia Entre 1963 e 1966, a festa tomou conta da Rodoviária do Plano Piloto | Foto: Arquivo Público do DF Depois da W3 Sul, o palco da diversão foi transferido para a plataforma superior da Rodoviária de Brasília, onde ficou até 1966. A partir daí, até o começo da década de 1980, as escolas de samba se apresentavam na região central do Plano Piloto. Em 1982, o desfile foi levado para a Avenida Comercial de Taguatinga, mas logo voltou ao Plano Piloto, nos anos seguintes. As farras carnavalescas memoráveis da cidade lotavam mesmo era o Eixão Sul, entre as décadas de 1980 e 1990, chegando a reunir 50 mil pessoas na noite de desfiles do Grupo Especial, formado por seis escolas. “Foram grandes carnavais, mas aí começou a ter reclamação de moradores, começaram as obras do metrô e tivemos que sair de lá”, conta Moacyr de Oliveira Filho, o Moa, 67 anos, e presidente da Aruc pelo quinto mandato (não consecutivo). Para ele, o melhor lugar de Brasília para desfilar era a Passarela da Alegria, atrás da Torre de TV e que,  também conhecido como Caldeirão da Folia, foi o cenário onde as agremiações se apresentaram entre 1997 e 2004. “Era o lugar perfeito, a pista já estava pronta, não tem moradores perto, é um local centralizado, perto da Rodoviária, com estacionamento fácil, não causava grandes transtornos para ser fechado quando as arquibancadas eram montadas”, enumera. “Era um local que incomodava muito pouco a vida da cidade”. Ceilambódromo Em 2005, o Carnaval ganhou um espaço especialmente feito para os desfiles – o Ceilambódromo | Foto: Divulgação / Aruc Segundo Moa, o sucesso do Carnaval no fim da década de 1980 e nos anos 1990 se deve a uma programação cultural extensa e diversificada. Nas chamadas “batalhas de confete”, dois meses antes da farra, um evento pré-carnavalesco agitava as regiões administrativas. “Ia um conjunto de samba, o reinado do Momo e uma escola de samba”, retoma. “Um fim de semana era em Taguatinga, no outro em Ceilândia, no Guará… Cada fim de semana tinha em uma cidade. Isso ajudava a atrair o público.” O presidente da Aruc, Moa, participou de grande parte da história do Carnaval de Brasília | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Ele também lembra que havia dois eventos junto ao desfile das escolas que atraíam grande público: um baile infantil na tarde de domingo no “sambódromo” e todas noites tinha um baile popular quando acabavam as apresentações das agremiações. Em 2005, um novo capítulo marcou a história do Carnaval de Brasília. Por sete anos seguidos, o desfile foi realizado em Ceilândia, onde uma estrutura era montada exclusivamente para a folia, o Ceilambódromo – local em que hoje funciona uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A noite do desfile do grupo especial chegava a reunir 40 mil pessoas, mas, apesar do público, os dirigentes das escolas reclamavam da falta de estrutura e da distância. De Ceilândia, a festa voltou para o estacionamento do ginásio Nilson Nelson, onde permaneceu por mais dois anos até ser suspensa de vez. Há cinco anos as escolas de samba não desfilam em Brasília. Carnaval de rua Desfile do Pacotão em 1979: milhares de pessoas embaladas pela marchinha do Aiatolá| Foto: Divulgação / Pacotão A história do Carnaval de rua de Brasília começou no ano em que a cidade completava sua maioridade (18 anos). Numa época em que o desfile das escolas de samba imperava, em 1978, o bloco Pacotão surgiu timidamente no meio da avenida e, aos poucos, aglutinou multidões. Conhecido por satirizar a situação política do país, o bloco de rua mais tradicional da cidade tem marchinhas com letras ácidas contra políticos e cruza a W3 Sul pela contramão, como forma de protesto. A origem do nome “pacotão” faz referência ao conjunto de medidas anunciadas pelo então presidente da República Ernesto Geisel em 1977, conhecido como “Pacote de Abril”. O tal pacote não foi para a frente e, entre os jornalistas, virou motivo de piada. Da brincadeira, veio a sugestão de criar um bloco. “A ideia era fazer um bloco dos sujos, igual nos carnavais de antigamente, em que as pessoas botavam uma fantasia e iam para a rua. No primeiro desfile, em 1978, parecia um bando de malucos no meio da rua”, conta Moa, um dos fundadores do Pacotão. Naquele primeiro desfile, parte da bateria da Aruc saiu com o bloco e garantiu a diversão dos foliões. “Eu já frequentava a Aruc e pedi apoio ao presidente da escola, que adorou a ideia”, conta o jornalista. “Tanto que o primeiro cartaz de divulgação do bloco dizia: ‘o Pacotão e a Unidos do Cruzeiro convocam o povo para adentrar a avenida’”. Marcha do Aiatolá [Olho texto=”Geisel, você nos atolou, o Figueiredo também vai atolar. Aiatolá, aiatolá, venha nos salvar, que esse governo já ficou gagá.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] Auge do Pacotão, o desfile de 1984 foi o das Diretas Já | Foto: Divulgação / Pacotão O bando de “malucos” totalizou cerca de 100 pessoas em 1978. Um ano depois, o bloco explodiu e atraiu milhares. Naquele ano, foi escrita a marchinha conhecida até hoje como hino do Pacotão, a Marcha do Aiatolá. Em 1979, o general João Figueiredo sucedia a Ernesto Geisel no controle ditatorial do país. Enquanto isso, no Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderava a revolução que, em 11 de fevereiro, derrubou o monarca Mohammad Reza Pahlavi e instaurou a república islâmica. A marchinha caiu no gosto da cidade e milhares de pessoas desfilaram naquele ano. “Quando criamos o bloco, nunca imaginamos que o Pacotão iria se transformar no que se transformou”, conta Moa. Diretas já Mas o auge do Pacotão foi em 1984, ano das Diretas Já, quando uma multidão estimada entre 30 e 40 mil pessoas se entregou ao samba. A marchinha era Cai na real, general, e a maioria dos carnavalescos fez o percurso vestido de amarelo e verde carregando mensagens que pediam a retomada das eleições diretas para presidente. Esse desfile deixou o Pacotão nacionalmente famoso. O Fantástico, da Rede Globo, passou a mostrar o desfile todos os domingos durante alguns anos, simbolizando o Carnaval de Brasília. Ele existe até hoje, mas seus fundadores ficaram mais velhos, se afastaram das funções e não desfilam mais. [Olho texto=”Não adianta mais enrolar, é agora, tá na hora, vamos lá. Ninguém me segura, sai da minha frente. Eu, este ano, vou votar pra presidente. Chega de conversa mole, ninguém engole o tal Colégio Eleitoral. Cai na real, general.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=””] Clubes Clubes de Brasília eram palco de muita folia nas décadas de 1980 e 1990 | Foto: Divulgação/  Iate Clube Os bailes nos clubes também são um capítulo da história do Carnaval brasiliense que merece destaque. Desde os anos 1960, os mais animados vestiam as fantasias, pintavam os rostos e lotavam os salões. Bailes memoráveis eram concorridíssimos até os anos 2000. Em 1961, os carnavais eram celebrados em clubes do Plano Piloto, como no pioneiro Brasília Palace Hotel, e também em boates do Núcleo Bandeirante. Em 1962, foi criado no Hotel Nacional o Baile da Cidade, que contou com a presença da atriz norte-americana Rita Hayworth e do então primeiro-ministro Tancredo Neves. Houve também o baile popular, no Teatro Nacional, ainda em construção. No ano seguinte, o Baile da Cidade, novamente, lotou o Hotel Nacional, e quem apareceu por lá foi o astro hollywoodiano Kirk Douglas. Decoração do baile popular no Teatro Nacional ainda em construção | Foto: Arquivo Público do DF Nos anos 1980, as noites eram embaladas por marchinhas e bandas de sopro. Os bailes dessa época já eram sucesso e reuniam cerca de 5 mil pessoas. Mas o auge mesmo foi nos anos 1990, quando, em festas embaladas por bandas de axé, os brasilienses começaram a ouvir músicas baianas, como as de Luiz Caldas, tocadas, entre outras, pela banda Squema Seis. Também passaram a fazer sucesso as inúmeras festas do estilo micareta espalhadas pela cidade. Havia um revezamento dos dias dos bailes. Os do Iate Clube eram realizados domingo e terça-feira, enquanto no sábado e na segunda a folia tinha como palco o Clube do Congresso. “Os bailes dos anos 1990 reuniam de sete a oito mil pessoas nos dois dias de Carnaval”, lembra Nelson Gonçalves, diretor social do Iate Clube de Brasília. “Nada se compara aos carnavais daquela época”. Em 1996, o Carnaval do Iate foi inesquecível. Cinco bailes aconteceram durante os quatro dias divertimento: dois com a banda Squema Seis, dois com o Batom na Cueca e, no quinto, a folia embalada por um esquema mais tradicional: as marchinhas. “Eles eram no ginásio de esportes onde cabia mais gente”, conta Nelson. Bailes de Carnaval da década de 1990 no Iate Clube chegavam a reunir 8 mil pessoas | Foto: Divulgação / Iate Clube No Iate, o público era mais velho, na faixa entre 30 e 40 anos, e os bailes, mais refinados. Os mais jovens iam para o Minas Tênis Clube e para a Associação Atlética Banco do Brasil (AABB). Marilda Nepomuceno aos cinco anos:  fã de Carnaval desde pequena | Foto: Acervo pessoal Moradora da Asa Norte, Marilda Nepomuceno, 57 anos, é apaixonada por Carnaval desde criança. Nos anos 1970, segundo ela, a diversão acontecia nas matinês do Brasília Palace e, posteriormente, a folia era nos clubes. “A gente percorria todos os bailes, o Minas, a AABB, o Iate”, lembra. “Todo mundo ia”. Hoje, a diversão de Marilda e seus amigos é nos blocos de rua, que se tornaram a cara do Carnaval de Brasília.

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Orédio Alves de Rezende, pioneiro das autopeças no DF

Induspina, a primeira loja para peças de automóveis no DF | Foto: Arquivo pessoal Parecia um domingo de sol como outro qualquer, quando o empresário Orédio Alves de Rezende decidiu levar a família para um piquenique ali nos arredores do Aeroporto Internacional de Brasília. Era final dos anos 1960 e o lugar era ermo, como quase toda a cidade na época. “A estrada que ia para o aeroporto passava pela Velhacap, hoje, Candangolândia”, lembra o pioneiro. De repente, um susto. Estaciona atrás de seu DKW-Vemaguet cinza um carro preto. “Era o presidente Juscelino Kubitschek, que ia para o aeroporto pegar um avião. Só ele e o motorista. Desceu do carro, deu um beijinho nas crianças, pegou um pedaço de qualquer coisa para comer e foi embora”, recorda. “Nessa história pouca gente acredita”, ri. Goiano de Pires do Rio, Orédio Alves, hoje com 83 anos, é daqueles desbravadores que chegaram a Brasília quando a cidade era um enorme canteiro de obras. Ou seja, bem antes da inauguração da nova capital, em 21 de abril de 1960. Havia poeira espalhada por toda a cidade – um verdadeiro manto vermelho estendido no horizonte. A vinda foi em 1957, para a Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, com a missão de instalar na Segunda Avenida, nº 970, a filial da Induspina Autopeças, primeira unidade da empresa fora de Goiás e a primeira loja do ramo no Distrito Federal. Pioneira no ramo de peças de veículos, a Induspina abriu a primeira loja no Núcleo Bandeirante | Foto: Arquivo pessoal O terreno foi cedido, pessoalmente, por Bernardo Sayão, engenheiro da equipe do arquiteto Oscar Niemeyer e do urbanista Lucio Costa – responsáveis pela idealização e construção de Brasília. “As pessoas achavam que eu estava doido ao vir para cá sozinho. Quando cheguei, camarada, aqui era tudo isolado, não tinha ninguém conhecido, só barulho de máquina dia e noite”, conta. “Eu vim para Brasília por causa do Bernardo Sayão, ele era sogro de um dos Pina, família que dominava Goiás na época, e da qual meu patrão fazia parte. Um dia, ouvi uma conversa deles assim: ‘se vocês, que são goianos, não se interessam por lá [Brasília], quem vai se interessar? Vocês têm que abrir uma loja lá’”. Sugestão dada, seu Orédio assentiu e seguiu as dicas. Filme O Legado de um Pioneiro, disponível apenas no Youtube, conta a história do pioneiro Orédio Alves de Rezende | Foto: Reprodução Homenageado em novembro deste ano com o título de Cidadão Honorário de Brasília, concedido pela Câmara Legislativa do DF, o empresário teve sua trajetória transformada em filme. Com duração de 60 minutos, O Legado de um Pioneiro – disponível apenas no Youtube -, é mais do que o resgate de uma vida, é a evidência dos princípios de um homem cujo maior prazer sempre foi trabalhar. “A primeira ideia era escrever um livro, mas o filme se tornou um projeto mais viável”, conta o produtor e roteirista Flávio Resende, filho de Orédio. “É a história de um homem que dedicou a vida ao trabalho, os seus valores. Sua trajetória é uma inspiração para as novas gerações”, avalia. Referência no mercado A Induspina tem até hoje uma loja na W3 Sul | Foto: Lúcio Bernardo Jr / Agência Brasília Graças ao esforço do pioneiro, a Induspina Autopeças, uma das raras empresas nascidas antes da inauguração da cidade –  ainda em atividade – , se tornaria, em pouco tempo, uma referência no segmento. Sobretudo porque disputava a concorrência no mercado local com uma única empresa, a Peças Moreira. Com o sucesso do negócio, veio a expansão. O lugar escolhido para a nova sede seria a 514 na W3 Sul. Naquele ano de 1960, mesmo com a inauguração da cidade, poucos lojistas se arriscavam a ter um empreendimento na rua comercial mais popular do DF – W3. Existiam apenas a Bibabô, loja de departamentos, o restaurante Roma e a Pioneira da Borracha, essas duas ainda em funcionamento. O empresário Orédio: “Gosto muito de Brasília, vi essa cidade crescer” | Foto: Lúcio Bernardo Jr / Agência Brasília “Todas as empreiteiras que trabalharam na construção de Brasília eram cadastradas na Induspina. O que eu tinha de peça, vendia, porque não tinha onde comprar, e as máquinas e caminhões trabalhavam dia e noite. Com isso, a empresa foi ficando muito popular, muito benquista”, explica. “Eu nunca deixei de atender uma pessoa que batesse na minha porta. Podia ser qualquer hora da noite ou da madrugada”, lembra, orgulhoso. Assim, trabalhando de sol a sol, um belo dia de 1964, Orédio aceitou abrir sociedade e expandiu os negócios, totalizando, até o final dos anos 1980, cinco filiais: Núcleo Bandeirante, Asa Sul, Taguatinga Centro, SIA e Asa Norte, congregando 80 funcionários. Hoje, há apenas uma loja, na W3 Sul, com 11 empregados. “Tudo o que sei eu aprendi com o seu Orédio”, se emociona Ronaldo Leite, que trabalha há mais de 20 anos na empresa. A carteirinha de pioneiro de Brasília | Foto: reprodução  “Gosto muito de Brasília, vi essa cidade crescer”, afirma o empresário, que faz questão de exibir a carteirinha da Associação dos Candangos Pioneiros de Brasília. Afastado da empresa por motivo de saúde, ele dedica seu tempo, há mais de 20 anos, à fazenda Santa Rosa, a 78 km de Brasília. “Eu sou filho de fazendeiro, trabalhei na roça”, conta. Orédio lembra ainda que, no fim dos anos 1970, quase início da década seguinte,  foi considerado o maior produtor de gado Gir (raça originária do Norte da Índia) da região. “Participei de tudo quanto é exposição, tenho a parede forrada de taças que ganhei com o meu gado”, revela.

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A arte de transformar as flores secas do Planalto Central

Assim como os inconfundíveis traços do arquiteto Oscar Niemeyer desenhados nos concretos de várias edificações de Brasília, as flores secas do Cerrado são uma das marcas inconfundíveis do Distrito Federal. Trata-se da natureza local em seu estado bruto e puro. A essência da beleza rústica. Nas mãos de artesãos habilidosos, elas se transformam em belos arranjos montados que, há quase 50 anos, encantam moradores da cidade e turistas de todo país bem ali, em frente à Catedral Metropolitana de Brasília. Ao todo, são dez bancas que comercializam mais de 50 tipos de espécies de cores vibrantes e díspares. Elas podem ser encontradas no cerrado das cidades de Santa Maria, São Sebastião, Cristalina e Padre Bernardo. Também na vegetação seca de Alto Paraíso (GO). Em menor escala, entre uma repartição e outra do Plano Piloto, a poucos metros da algazarra das crianças nos pilotis ou na agitação urbana das entrequadras. São elas: pingo de ouro, sempre viva, papoulinha, amarelão, capim do cerrado, ourinho, folhas-moedas, capim-rabo-de-raposa, pireque-branco, muitas plumagens e pétalas, além, claro, de sementes e frutos de diversas árvores. Ah, sim, e tem a emblemática papipalon ou papipalan, a preferida de Lucio Costa [urbanista] e Oscar Niemeyer que, dizem os entendidos, o inspirou a projetar a Torre Digital. “Onde ela dá, parece um tapete branco”, explica Pedro dos Santos Fernandes, o mais antigo dos floristas da Catedral. Pedro Fernandes começou o ofício aos 7 anos | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Quando ele começou a vender os artefatos naturais do cerrado, tinha de sete para oito anos. Isso era início dos anos 70, pouco antes da inauguração da Catedral, em maio de 1970. Aprendeu o ofício com o pai, Dionísio, paraibano que chegou à nova capital no final dos anos 60 para encarar a construção civil. Não deu pé. Primeiro porque os canteiros de obras já estavam lotados de operários e, depois, porque achou o trabalho nos canteiros de obras pesado demais. “Como ele gostava de mexer com flores lá não foi difícil de se adaptar aqui”, conta Pedro Fernandes, hoje beirando os 60 anos. “Só que aqui ele encontrou uma variedade rica e única”, constata. Alquimia verde No livro, “O Menino do Dedo Verde” (1957), do francês Maurice Druon, Tistu é um guri com dom especial para lidar com flores. Numa espécie de Rei Midas da natureza, tudo que ele toca se transforma em arranjos de beleza única, jardins ornamentais. Impressionante a mágica que os “floristas” da Catedral Metropolitana fazem com as folhas, sementes, hastes, plumagens e flores que colhem pelo cerrado. É um tipo de artesanato genuíno e autêntico, 100% não industrializado que faz parte da história da nossa cidade. Assim como os prédios de Niemeyer e o estilo urbanístico de Lucio Costa, um de nossos cartões postais. Verdadeiros alquimistas do verde, eles vão criando composições artesanais das mais criativas formas, combinações perfeitas que encantam turistas, influenciam designers, lojas de decorações, compartilhando um pedacinho de Brasília com o resto do país. “Você tem que colher uma flor de qualidade, de primeira. Se pegar no tempo certo ela dura até 10 anos. Agora se pegar fora do tempo não dura um mês”, ensina o experiente Pedro. “Eu amo mexer com as flores do cerrado, peguei amor pela profissão”, confessa. Duas técnicas são usadas para produzir as flores secas | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Dois tipos de técnicas fazem sucessos na barraca dos artesãos de flores há décadas. As duas exigem dedicação e paciência num processo que vai da colheita ao armazenamento, passando pela desidratação, fervura em soda cáustica, clareamento com cloro, transformando-as em folhas esqueletizadas. Banhadas com material da cor de ouro, elas brilham ao sol. Já as flores pintadas na anilina, com tinta especifica para couro, palha e flores, demoram mais a ficar pronta – cerca de seis horas. Ambas fazem os turistas suspirarem de encanto e surpresa. “Eu nunca tinha visto esse tipo de trabalho antes. Lá em Belo Horizonte temos um mercado central que vende muito artesanato. Mas nada parecido”, comenta a designer de moda mineira Raquel Bacellar. “A cultura nordestina é muito rica nesse tipo de trabalho manual, até conhecemos algumas dessas flores, mas eu nunca tinha visto algo tão original e belo feito com elas”, comenta o empresário pernambucano Valdir Villar. O experiente Pedro conta que os brasilienses compram bastantes, mas os turistas  de fora são imbatíveis. “Ao contrário do que parece elas são fáceis de carregar e não estragam fáceis”, tranquiliza. E ao que tudo indica muitos turistas ainda vão se deslumbrar com a beleza bucólica das flores secas do cerrado. Isso porque se trata de uma tradição que passa de pai para filho, como aconteceu com seu Pedro, perpetuada na família. “Eu aprendi esse ofício com o meu tio, se eu não mexesse com flores, nem sei o que seria”, lembra o cearense Guajará Ferreira de Paula, desde os 18 anos no ramo. “Os filhos ajudam tanto na venda, como na colheita. Vou com o grupo para o mato”, revela Pedro.  

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Nascidas com Brasília: tão perto, tão longe

Ivoone Araújo Eduardo, 88 anos, chegou em Brasília aos 28 anos, com o marido João Eduardo Neto e a filha Leila, na época com apenas 6 anos. O marido era funcionário do Ministério da Fazenda, fora transferido do Rio de Janeiro para a nova capital e se mudou com a promessa de morar na 709 Sul, na Asa Sul. Mas as casas na quadra estavam ocupadas e eles acabaram instalados em uma nova cidade que estava sendo criada nas proximidades do Plano Piloto, projetada pela equipe de Lucio Costa: o Cruzeiro. A enfermeira aposentada recorda detalhes daquele 30 de março de 1959. “Aqui era tudo Cerrado. Só tinha mato, poeira, gavião, veadinho, cobra, tudo que era bicho. Dez casas estavam sendo construídas, não tinha uma estrada”, conta. “Eu vim tão arrumada, com uma saia de veludo, sapato de verniz, toda bonitinha. Quando cheguei aqui e botei o pé na terra, a poeira subiu, a lágrima desceu”, conta. A família de Ivoone Araújo Eduardo, 88 anos, foi a primeira a viver no Cruzeiro | Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília A família foi a primeira a viver no Cruzeiro. A matriarca escolheu a casa que queria, a terceira da quadra, e mora nela até hoje. Ivoone não esconde o incômodo que a falta de infraestrutura da cidade provocava nos primeiros moradores. “Um mês depois que a gente chegou é que fizeram a pista”, diz. “Eu não queria ficar em um lugar sem luz e sem água. Aí combinaram de mandar o carro-pipa trazer água duas vezes por semana e a (construtora) Camargo Corrêa tinha um acampamento aqui perto e fornecia luz para a gente até 22h”, relata. Aos finais de semana, funcionários do Grupo de Trabalho de Brasília (GTB), órgão responsável por alojar os novos moradores da capital, disponibilizavam um ônibus para levá-los à Cidade Livre para fazer as compras da semana. Comprava-se em grande quantidade para estocar. Só mais tarde a prática da feira semanal passou a ser comum. A Feira Permanente do Cruzeiro hoje funciona onde era o acampamento da Camargo Corrêa. Dona Ivoone tinha as chaves das casas e ficou incumbida de mostrá-las aos funcionários do governo federal que eram transferidos, a maior parte deles vindos do Rio de Janeiro, mas, também, de outros estados do Sudeste e até do Nordeste. “Me deram licença do hospital para fazer esse serviço. Eu fiquei mostrando as casas. Lembro que quando chegou o segundo morador ele ficou louquinho, queria ir embora no mesmo dia”, conta a mulher que, no Rio de Janeiro, trabalhava no Hospital dos Servidores do Estado e, em Brasília, ajudou a fundar o Hospital das Forças Armadas (HFA). “Eu entendi ele, quis fazer a mesma coisa. Muita gente não tinha nada, mas eu deixei minha casa no Rio e vim para Brasília”, ressalta. No começo, o grande motivador para a permanência de Ivoone era financeiro: o marido ganhava três vezes mais. “Ele recebia o salário e uma dobradinha. O salário era pago e, ao longo do mês, o ordenado saía  mais duas vezes”, conta. Com o tempo, a família criou raízes no quadradinho. Os filhos cresceram, se casaram, vieram os netos e bisnetos… “A gente foi acostumando, melhorando a situação. Demorou quase um ano para eu me habituar, mas hoje eu não queria morar no Rio”, fala. Cemitério e Bairro do Gavião O Cruzeiro crescia rápido. O governo construiu mais casas. Água e luz, no entanto, só vieram dois anos depois dos primeiros moradores. Na época, a cidade ainda não tinha sido batizada de Cruzeiro. O nome oficial era Setor de Residências Econômicas Sul (SRE-S), mas, ainda não acostumados com as siglas, nenhum dos moradores do local decorava o nome certo. Registro de inauguração de mercado no Cruzeiro em 1966 | Foto: Arquivo Público do DF Surgiu, então, o apelido de “cemitério” por causa da situação ainda precária, com vegetação alta por perto e animais transitando nas ruas. “De longe via-se apenas as casinhas brancas no meio da poeira vermelha”, afirma o historiador Rafael Fernandes de Souza, que cresceu no Cruzeiro e escreveu o livro Cruzeiro, retratos de sua história: 1959 a 2009. O local também era chamado de Bairro do Gavião, por causa da grande quantidade desse tipo de animal solto na rua. Em 1960, um grupo de moradores, insatisfeitos com o nome do local onde moravam, procurou o jornal Correio Braziliense, cuja equipe resolveu batizar a cidade com o nome de Cruzeiro porque ela ficava próxima ao cruzeiro onde fora celebrada a Primeira Missa de Brasília, em 3 de maio de 1957. Sete anos depois, começou a construção dos prédios, o que deu nova configuração à cidade. O projeto original era inspirado na proposta de apartamentos populares de Lucio Costa, mas acabou desvirtuado. A ideia era um gabarito de 3 andares, a exemplo das quadras 400 da Asa Sul. “Provavelmente, devido à especulação imobiliária conseguiu-se um andar a mais e o setor ficou descaracterizado”, diz o historiador Rafael Fernandes de Souza. A nova parte da cidade ganhou o nome de Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul (SHCE-S), mas,  ainda resistentes às letras, os moradores pegaram carona na mudança monetária e o setor foi apelidado tal qual a nova moeda à época: Cruzeiro Novo. Obras de infraestrutura do Cruzeiro Novo | Foto: Arquivo Público do DF O outro lado da moeda A menos de 10km do centro da nova capital, os pioneiros da região administrativa mais próxima do Plano Piloto também reclamavam da distância entre o Cruzeiro e a Asa Sul, parte da cidade que já existia. Se eles achavam longe, imagina quem decidiu ir morar no Lago Sul? Numa época, vale salientar, em que nenhuma das pontes estava construída e era preciso dar a volta pelo aeroporto para chegar ao bairro nobre, que só se transformou oficialmente em cidade em 1994. “Na época, grande parte do comércio da Avenida W3 Sul ia até a 508 Sul. Era preciso dar a volta e ir até lá para comprar qualquer coisa, até um cigarro”, lembra o empresário pioneiro Gilberto Salomão, aos 88 anos. Gilberto Salomão, o primeiro a investir no Lago Sul | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília A ocupação no Lago começou quando a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) decidiu construir casas no bairro para servir de residência dos seus diretores. As 15 primeiras, nos conjuntos 5, 6 e 7 da QL 1 (hoje QL 8), ficaram prontas em junho de 1958. Elas não foram construídas em lotes vizinhos, mas salteados, para estimular o interesse de outros a construir e também morar no Lago Sul. Em 1959, foram construídas, nas quadras internas do Trecho 0, atual QI 3, 20 casas para os oficiais da Aeronáutica, devido ao fato de a área ficar próxima da Base Aérea.     Foto: Arquivo Público do DF [Olho texto=”Você sabia? Os primeiros moradores do Lago Sul foram Ney Dutra Ururahy, que era chefe de gabinete de Israel Pinheiro, e Joaquim Alfredo Tavares, chefe do Departamento de Terras e Agricultura da Novacap. Eles ocuparam as casas dias depois delas ficarem prontas, em junho de 1958″ assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] As casas não tinham luz nem água, usavam lampiões de querosene e a água chegava na carroceria de caminhões ou camionetes. “Mais tarde, quando começaram a erguer a igrejinha (de madeira) de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o pároco comprou um grupo gerador que cedia energia aos vizinhos durante algumas horas”, conta Lourenço Fernando Tamanini, no livro Brasília, Memória da Construção: A surpreendente história do Lago Sul e outras histórias exemplares. Tamanini morou no Lago Sul. No livro, ele conta que a casa, na QI 5, comprada em 1972, era “não só é a mais antiga do bairro, mas possivelmente a mais antiga do Distrito Federal”. Segundo ele, ela foi edificada no começo de 1957 e abrigou engenheiros da Companhia Construtora Brasileira de Estradas (CCBE), empresa paulista de terraplenagem que se deslocara para o Planalto Central para participar dos trabalhos de construção da nova capital. “Não era uma casa isolada, fazia parte do acampamento da empresa, que agrupava algumas outras edificações, alojamentos, oficinas, almoxarifado e até uma piscina”, diz o livro. Lago Sul, nem de graça Mas a história do Lago Sul se confunde à de Gilberto Salomão, o primeiro empresário a investir naquelas terras no fim do mundo. O empresário, que chegou com Brasília ainda em construção, em setembro de 1958, comprava lotes na Avenida W3 Sul, construía e vendia as modestas casas. Mas quando os lotes foram escasseando e encarecendo, ele achou ter encontrado nos terrenos do Lago Sul a solução: eram maiores e custavam menos, muito menos. Vista do Lago Sul quando o Centro Comercial Gilberto Salomão ainda estava em construção. Foto: Arquivo “Construí logo sete casas que ficaram prontas em 1962. Mas não apareceu comprador. Eu facilitei o pagamento e nada”, conta. O tempo foi passando e, desapontado, Gilberto decidiu alugar as casas, mas também não apareceram interessados, mesmo depois de o anúncio ter sido repetido semana após semana. “Resolvi então oferecer as casas a parentes e amigos para morarem de graça. Desta forma eu não precisaria me preocupar com a manutenção e com impostos. Ninguém aceitou, nem meu irmão”, recorda-se. Lojas do Centro Comercial Gilberto Salomão. Foto: Arquivo Público do DF Ninguém queria morar em um lugar longe, cheio de mato e com difícil acesso. As casas continuaram fechadas, solitárias e sem vizinhos até 1965, quando o médico pioneiro José Farani, que construiu o primeiro hospital particular de Brasília, o Santa Lúcia, chegou. Gilberto começou a se perguntar o motivo pelo qual seu empreendimento não tinha dado certo e, em conjunto com diretores da Novacap, chegou a uma resposta: faltava comércio no bairro. Foi assim que ele comprou um terreno e começou a construção do centro comercial que leva seu nome. Quando o Gilberto Salomão começou a ser construído, em 1965, existiam no Lago Sul pouco mais de 50 casas, incluindo as 15 erguidas pela Novacap, as 20 da Aeronáutica e as sete construídas pelo empresário pioneiro. Subiu para 497 após a inauguração do conjunto de lojas, em 1968. ”Foi um bom avanço, mas ainda insignificante em relação aos 5.958 lotes previstos no projeto de urbanização”, afirma o pioneiro Tamanini. As pontes só chegaram ao Lago Sul seis anos depois. A primeira deveria ter sido a Costa e Silva, um projeto de Oscar Niemeyer feito em 1967. As obras, iniciadas em 1973, ficaram anos paralisadas e a ponte só foi inaugurada em fevereiro de 1976. Inauguração da primeira ponte no Lago Sul. Foto: Arquivo Público do DF A primeira a ser de fato utilizada foi a Ponte das Garças, conhecida como Ponte do Gilberto, cuja construção durou poucos meses. Feita em um trecho estreito e pouco profundo do lago Paranoá, as obras começaram em junho de 1973 e a inauguração ocorreu em janeiro de 1974.

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Nascidas com Brasília: senhoras e senhores, com vocês… as satélites

“Naquela época, milhares de imigrantes, muitos com suas famílias, se dirigiam ao Planalto Central em busca de empregos. A construção de acampamentos de madeira não podia mais atender à demanda”. A frase de Ernesto Silva, pioneiro que foi diretor da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) na época da construção de Brasília, está no livro História de Brasília e explica o surgimento das primeiras cidades-satélites. O ano é 1958. A capital sequer tinha sido inaugurada e novos imigrantes desembarcavam aqui todos os dias. No livro Brasília Kubitschek de Oliveira, o escritor, jornalista, historiador e ex-governador do Distrito Federal Ronaldo Costa Couto relata que, em 1º de novembro de 1956, havia 232 operários em Brasília. Em fevereiro de 1957, a cidade já é um vasto canteiro de obras, com cerca de três mil candangos e mais de 200 máquinas em atividade incessante. Os números crescem em ritmo vertiginoso. Recenseamento do IBGE mostra 12,7 mil residentes em julho de 1957, número que passa para 28,8 mil habitantes em 1958, quando foi criada Taguatinga. No início de 1959, mais 30 mil pessoas chegaram e a população total era superior a 60 mil habitantes na inauguração de Brasília. Primeiros estabelecimentos comerciais de Taguatinga na Avenida Central em 1961. Foto: Getúlio Romão Taguatinga foi a primeira cidade-satélite criada pela Novacap com o objetivo de proporcionar aos candangos que ajudaram a construir a capital a aquisição de um terreno para a construção da casa própria. “Taguatinga não foi uma invasão, não foi uma imprevidência”, ressalta Ernesto Silva. Inicialmente chamada de Vila Sarah Kubitschek, Taguatinga surgiu devido ao crescimento populacional da Cidade Livre, que não conseguia mais suportar a massa de imigrantes que chegavam à capital – sem ter onde morar, os recém-chegados passaram a se alojar em acampamentos ao longo da Avenida W3 e nas imediações do Núcleo Bandeirante. Taguatinga: planejada, mas adiantada Taguatinga foi planejada por Lucio Costa, mas deveria nascer apenas dez anos depois da inauguração de Brasília. Em junho de 1958, o traçado da cidade estava apenas em estudos, mas a pressão popular fez com que a Novacap acelerasse o assentamento das famílias na cidade-satélite. Foto tirada nas proximidades da C3, no centro de Taguatinga, em 1964. Foto: Getúlio Romão “Era um sábado. Cinco de junho de 1958. Juscelino estava em Brasília e fora convidado a jantar no restaurante JK, na Cidade Livre. Ao cair da tarde, soubemos que grande massa popular, que estimamos em duas mil pessoas, empunhando cartazes com dizeres como ‘Queremos ficar onde estamos’, se portava à frente do restaurante”, conta Ernesto Silva. Israel Pinheiro, então presidente da Novacap, pediu que sua equipe fosse ao local e, na ocasião, eles acalmaram os manifestantes falando sobre a criação da cidade-satélite a 25 quilômetros do Plano Piloto. “Cumprindo o prometido, às sete horas da manhã do dia seguinte comparecemos à Vila Sarah Kubitschek e parlamentamos com os representantes da comunidade. Mostramo-lhes a planta de Taguatinga e fizemos ver a eles a vantagem de já se instalarem nos seus próprios lotes onde, mais tarde, poderiam construir a casa definitiva”, relata o então diretor na Novacap, acrescentando que a empresa pública prometeu transferir a população, dar transporte, construir os barracões, providenciar assistência médica e a construção de escolas. Foto: Arquivo Público do DF [Olho texto=”Você Sabia? A Avenida Samdu foi batizada por causa do Serviço de Atendimento Médico de Urgência que havia no local” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] No primeiro dia destinado à transferência dos moradores no local, apenas uma família foi transferida. Em dez dias, cerca de quatro mil pessoas foram alojadas em Taguatinga, que começou a crescer com a chegada do mínimo de infraestrutura: hospitais, escola, a rede de abastecimento de água (ainda que provisória), fossas sépticas, transporte diário para os trabalhadores, feito em caminhões da Novacap. Cidade-dormitório Seis meses após a instalação dos primeiros habitantes, Taguatinga já era uma realidade, com escolas, hospitais, casa para professoras e estabelecimentos comerciais em funcionamento. A cidade foi planejada para ser uma cidade-dormitório para apenas 25 mil pessoas e os primeiros moradores ocuparam a área onde hoje estão localizadas a QSD e a QSC do Setor Sul. “Tudo mudou depois que mudou a capital. A imprevidência e a demagogia geraram a Vila Dimas e Vila Matias, os terrenos foram distribuídos a apaniguados, praças públicas foram loteadas e os lotes foram vendidos a amigos da situação”, relata Ernesto Silva, lembrando que, em 1959, Taguatinga tinha uma população de 3.677 moradores. Imagem aérea do balão da Avenida Central de Taguatinga em março de 1964. Foto: Getúlio Romão “Durante muitos anos a cidade era chamada de cidade-dormitório. As pessoas trabalhavam no Plano e dormiam aqui. Mas os taguatinguenses não gostavam nem um pouco desse título, custamos a tirar esse nome”, diz o pioneiro Getúlio Romão, 74 anos, que chegou à cidade em dezembro de 1960, com o pai, José Romão Filho, aos 15 anos. “Ele foi convencido por amigos e veio fundar uma empresa de ônibus aqui. Naquela época, todo mundo queria vir para Brasília ficar rico”, conta o profissional que se tornou uma espécie de fotógrafo oficial da cidade e tem dezenas de milhares de fotografias de Taguatinga tiradas nesses 61 anos. “Tudo de importante que aconteceu aqui foi registrado por mim. Eu fotografei tudo que cresceu, inaugurou, foi fabricado aqui”, afirma. O pai de Getúlio não ficou rico como planejava. Um ano depois da chegada a Brasília, as vias de ligação entre as cidades foram asfaltadas e o transporte público da capital passou por licitação. A Viação Nossa Senhora Aparecida Ltda. ficou de fora da licitação e faliu, um ano depois de ser montada. “Daí meu pai montou um cine foto, que era o que ele sabia fazer. Vim de uma família de fotógrafos”, relata. Daquela época, Getúlio, que trabalhou de cobrador na empresa do pai, guarda uma recordação sobre o transporte da capital. “Os ônibus do meu pai faziam a linha Plano Piloto-Sobradinho. Como a estrada era de terra, na época de chuvas, era preciso colocar correntes nas rodas dos ônibus para eles subirem aquela estrada do Colorado”, afirma. Getúlio Romão se tornou uma espécie de fotógrafo oficial da cidade e tem dezenas de milhares de fotografias de Taguatinga tiradas nesses 61 anos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília Sobradinho, a segundinha Sobradinho foi a segunda cidade-satélite criada para ser a moradia definitiva de trabalhadores da construção de Brasília. A cidade foi fundada em 13 de maio de 1960 para abrigar a população que vivia nos acampamentos de empreiteiras localizadas na Vila Amaury, no Bananal e nas invasões próximas à Vila Planalto, inundadas pelas águas do Lago Paranoá. E, também, os funcionários do Banco do Brasil que vieram transferidos para a nova capital. A partir de março de 1960, cerca de 30 famílias, diariamente, eram transferidas para a cidade. No final do ano, o local contava com mais de 8 mil famílias. A ocupação das residências ocorreu de maneira ordenada, mas o plano original da cidade sofreu algumas modificações no decorrer de sua implantação com o reparcelamento de algumas quadras. [Olho texto=”O que desejamos, porém, é que a Taguatinga, a Sobradinho, ao Gama, ao Guará, à Ceilândia e a outras cidades-satélites seja proporcionado o mesmo tratamento que ao Plano Piloto, pois, ali moram seres humanos semelhantes aos que habitam os apartamentos e os palácios de Brasília: os bravos trabalhadores que foram os grandes artífices da obra monumental” assinatura=”Ernesto Silva” esquerda_direita_centro=”centro”] O comerciante Aristides de Almeida Barreto, 91 anos, foi levado para Sobradinho em 1961, dois anos depois de chegar em Brasília, em maio de 1959. Até então, ele morava em uma invasão nos arredores da Avenida W3 Sul. “Fui obrigado a sair de lá. O caminhão encostou para carregar nossa bagagem. Falaram que a gente tinha que ir para Taguatinga, Núcleo Bandeirante, Gama, Planaltina ou Sobradinho. Escolhi Sobradinho, minha mulher ‘arrupiou”, queria ir para Taguatinga”, conta. “Eu tinha vindo aqui passear uma vez e gostei”, justifica. Rua em Sobradinho em 1964. Foto: Arquivo Público do DF Antes da inauguração da capital, ele trabalhava como carpinteiro em uma construtora, mas, nas horas vagas e nos feriados, era camelô. “Desde a Bahia eu gostava de comprar e vender coisas. Montava minha banquinha onde tinha gente, principalmente na W3 e no aeroporto”, conta. Aristides saiu de Araci, município no interior da Bahia, aos 31 anos para tentar a vida na nova capital. “Juntou uma turma e veio, eu nem sabia o que era Brasília. Eu vim sem minha mulher, tinha medo de ser preso, ela não tinha nem 17 anos completos”, relembra. “Mas depois de 90 dias fui buscá-la de pau-de-arara”, completa, referindo-se à mulher, Maria Miranda Barreto, 76 anos. Aristides de Almeida Barreto, 91 anos, e sua mulher Maria Miranda Barreto, 76 anos, em frente ao Bazar Barreto, aberto em 1962. Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília Na cidade-satélite, Aristides trabalhou de pedreiro e carpinteiro até abrir, em 1962, o Bazar Barreto, que funciona até hoje. “Quando recebia uma mercadoria, ia do início ao fim da Avenida W3, de loja em loja perguntando o preço. Aí vinha aqui e botava o meu. Se eu tivesse vendendo caro o pessoal não comprava. Aí eu botava igual ou mais barato um pouquinho. Por isso que eu ganhei dinheiro, graças a Deus”, diz. A mulher, que lavava roupas para os operários na invasão, passou a ajudá-lo na loja. “Era aquele tanto de homem, e eles não sabiam pregar nem um botão”, conta Maria, que era cobiçada na época. “Eram quatro irmãs e ela era a mais bonita. Todo mundo queria namorar ela”, diz Aristides Barreto. Gama, a terceira satélite As terras que hoje constituem a região administrativa do Gama, a terceira cidade-satélite criada, pertenciam à Fazenda Ipê, Fazenda do Alagado, Fazenda da Suzana, Fazenda Ponte Alta e Fazenda Gama, que acabaram desapropriadas para a construção de Brasília. Em 1959, o Censo Experimental de Brasília, feito pelo IBGE, mostrou que cerca de mil pessoas residiam nessa área. Obras no Gama em 1964. Foto: Arquivo Público do DF A cidade foi instituída por lei em 13 de abril de 1960 e inaugurada em 12 de outubro do mesmo ano. Os primeiros moradores foram famílias de trabalhadores oriundas da construção da Barragem do Paranoá e, também, da Vila Amaury, Vila IAPI e Vila Planalto. Posteriormente, a cidade recebeu habitantes do Setor de Indústria de Taguatinga. A ocupação iniciou-se pelo Setor Leste, quadra 21, onde se localizou o núcleo pioneiro, e depois prosseguiu nas quadras 15, 18 e 22. Em 1970, a cidade já tinha cerca de 72 mil habitantes. O Gama veio a ser instalado a 8 km da primeira edificação construída na área da nova capital: o Catetinho, a primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek, cuja obra foi concluída em 10 dias. E chegam Guará e Ceilândia… O Guará foi criado em 1969 para abrigar servidores públicos que ainda eram transferidos do Rio de Janeiro, quase uma década depois na inauguração da capital e, em 1971 surgiu Ceilândia, a cidade mais populosa do DF, atualmente. Em 1969, com apenas nove anos de fundação, Brasília já tinha quase 80 mil pessoas que moravam em barracos em diferentes localidades invadidas. Foi criada, então, a Campanha de Erradicação das Invasões (CEI), o primeiro projeto de erradicação de favelas realizado no Distrito Federal pelo governador Hélio Prates e essa população foi levada para a região ao norte de Taguatinga, nas antigas terras da Fazenda Guariroba. Ceilândia, a cidade mais populosa do Distrito Federal, surgiu em 1971 com o primeiro projeto de erradicação de favelas realizado no DF. Foto: Museu da Memória Viva de Ceilândia A Novacap fez a demarcação dos lotes em 97 dias, com início em outubro de 1970. Em 27 de março de 1971, um sábado, o então governador Hélio Prates lançava a pedra fundamental da nova cidade, no local onde está a famosa caixa d’água, um dos ícones ceilandenses. Naquele dia também teve início o processo de assentamento das 20 primeiras famílias da invasão do IAPI. Pedra fundamental de Ceilândia ficava no local onde está a famosa caixa d’água. Foto: Museu da Memória Viva de Ceilândia Em nove meses, a transferência das famílias estava concluída e as ruas abertas. Nos primeiros anos, a população carecia de água, de iluminação pública, de transporte coletivo e lutava contra a poeira, a lama e as enxurradas. Como todo início de trajetória. VOCÊ SABIA?  Ceiândia foi batizada inspirada na sigla CEI e na palavra de origem norte-americana “landia”, que significa cidade (o sufixo inglês estava na moda na época). A primeira vez que um ônibus fez a linha Ceilândia-Plano Piloto foi em 28 de março de 1971, um dia após a chegada da primeira família. Era um coletivo da TCB e a passagem custou 60 centavos. Em 2 de abril de 1971, nasceu, de parto normal, o primeiro ceilandense, Clébio Danton Melo Pontes, filho de Maria Eliete de Melo Pontes e Manuel da Ponte. Clébio se chamaria Ceilândio, mas, graças à interferência de assistentes sociais, o pai do menino mudou de ideia.    E mais um pouco de história… Na próxima quinta-feira (7/11), o terceiro e último capítulo da série Nascidas com Brasília conta a história da criação do Cruzeiro e do Lago Sul. A primeira cidade, erguida praticamente dentro do Plano Piloto. Já o Lago Sul, bem mais distante, quase não saiu do papel e só se consolidou após a construção das pontes, que o aproximaram de Brasília. Confira.  

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Nascidas com Brasília: as ocupações pioneiras

Quando Brasília começou a ser construída, em outubro de 1956, o Planalto Central já era ocupado por dois núcleos urbanos que davam ares interioranos à região onde seria erguida a capital modernista do país. O mais antigo deles, Planaltina, já era uma cidade um século antes de a nova capital começar a ser desenhada. Fundada em 1933, a outra, Brazlândia, era um povoado da área rural do município goiano de Luziânia e tinha menos de mil moradores em 21 de abril de 1960. Com o início das obras, no entanto, as pessoas começaram a povoar o quadrilátero destinado ao futuro Distrito Federal. Primeiro, foram os engenheiros da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) que chegaram quando Brasília ainda era um descampado de terra e mato para planejar os primeiros passos da construção. Depois, vieram os milhares de trabalhadores, comerciantes e empresários atraídos pelas oportunidades trazidas pela criação de uma cidade do zero, no meio do nada. Por último, chegaram os funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro. O Núcleo Bandeirante tinha existência limitada ao período da construção. Os lotes deveriam ser devolvidos à Novacap no final de 1959. Foto: Arquivo Público do DF Naquela época, todos pensavam que os candangos iriam embora depois da inauguração da capital. A Cidade Livre, onde hoje é o Núcleo Bandeirante, por exemplo, o principal acampamento dos trabalhadores, tinha existência limitada ao período da construção. Os lotes foram cedidos em sistema de comodato, isto é, a escritura não era definitiva e os terrenos deveriam ser devolvidos à Novacap no final de 1959. Brasília, com o projeto primoroso de Lucio Costa e reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, fora planejada para abrigar 500 mil pessoas, basicamente todas elas funcionários públicos e suas famílias. Mas a força e persistência dos candangos, que se recusaram a ir embora com a inauguração da capital, fez surgir mais cidades que o previsto pelo urbanista. A partir desta quinta-feira (24), a Agência Brasília publica uma série de três matérias que contam a história das primeiras cidades surgidas ao mesmo tempo que Brasília ou logo após a sua inauguração – hoje chamadas de Regiões Administrativas (RAs), mas originalmente batizadas de cidades-satélites. Essa série faz parte de uma série maior que homenageia Brasília às vésperas dos seus 60 anos. As reportagens são publicadas todas as quintas-feiras desde o dia 21 de abril deste ano. A primeira reportagem fala dos acampamentos que acabaram ficando e se tornaram cidades. Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Paranoá, Vila Planalto e Vila Telebrasília. As duas últimas não se transformaram em uma Região Administrativa, mas ajudaram a formar a RA I, o Plano Piloto. Os primeiros acampamentos A Candangolândia abrigava a sede da Novacap até 1959, quando a companhia foi transferida para o Plano Piloto e o local passou a ser conhecido como Velhacap. Foto: Arquivo Público do DF Existe entre os pioneiros uma velha discussão sobre onde nasceu Brasília. O que muita gente não sabe é que, com o início das obras da capital, surgiram, ao mesmo tempo, dois núcleos urbanos com a mesma importância histórica: Núcleo Bandeirante e Candangolândia. Como parte das obras de infraestrutura necessárias à construção de Brasília, foram abertas pela Novacap, em dezembro de 1956, as principais avenidas do Núcleo Bandeirante, chamado de Cidade Livre, previsto para funcionar como centro comercial e recreativo para as pessoas ligadas diretamente à construção de Brasília, pois as cidades de Planaltina, Luziânia e Brazlândia não ofereciam condições e infraestrutura suficientes para sustentação das obras da nova capital. Já a Candangolândia surgiu do primeiro acampamento oficial promovido pela Novacap para administrar as obras de Brasília, em 1956. A cidade abrigava a sede da Companhia, residências das equipes técnicas e administrativas, posto de saúde, hospital, posto policial, dois restaurantes e uma escola para os filhos dos funcionários. Foto: Arquivo Público do DF [Olho texto=”VOCÊ SABIA? Para incentivar a vinda de comerciantes para o Planalto Central, o Núcleo Bandeirante era livre do pagamento de impostos. Daí a origem do nome Cidade Livre.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] Em 1959, no entanto, a Novacap foi transferida para o Plano Piloto e a Candangolândia passou a ser conhecida como Velhacap. O local, dotado de boa infraestrutura para a época e com variados equipamentos públicos, se tornou uma alternativa de moradia para trabalhadores de todo o país que chegavam para trabalhar na construção de Brasília. Com o fluxo cada vez maior de pessoas que chegavam para a construção de Brasília os acampamentos, que dariam lugar à Candangolândia, se transformaram em uma pequena vila. Logo a população começou a demandar os elementos da vida cotidiana de uma pequena cidade. Cidade desmontada O Núcleo Bandeirante também abrigava o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (ou Hospital do IAPI) e o atual Museu Vivo da Memória Candanga. Traçado com apenas três ruas, o loteamento da Cidade Livre estava destinado a ter uso exclusivamente comercial e, por esse motivo, não eram fornecidos alvarás para residências. Em 1957, já existiam, em construções de madeira, armazéns, casas de tecidos, restaurantes, barbearias, tinturarias, marcenarias, açougues, farmácias, escolas (duas), cinema, bares, pensões e hotéis. Também foram erguidos locais para cultos religiosos, como uma igreja batista, um ponto para cultos kardecistas e uma igreja católica. Com a aproximação da inauguração de Brasília e o medo da desmontagem da Cidade Livre, surgiu um movimento de moradores que reivindicava a fixação da cidade, contrariamente ao estipulado pela Novacap. O Movimento Pró-Fixação e Urbanização do Núcleo Bandeirante chegou a ser apoiado por Jânio Quadros em sua campanha presidencial, mas ele posicionou-se contra a fixação depois das eleições. Foi preciso muita luta. De um lado, o governo tentou transferir os moradores para as cidades-satélites do Gama e Taguatinga, já inauguradas, e ameaçou demolir as edificações. Do outro, integrantes do movimento articulavam vagas para abrigar crianças em creches, buscavam apoio de parlamentares e faziam comícios em favor da permanência. A fixação do acampamento e sua transformação em cidade veio com a aprovação e sanção da Lei nº 4.020, em 20/06/61. A partir de então, os moradores passaram a lutar pela implementação da infraestrutura necessária a uma cidade, que foi sendo feita ao longo da década de 1960, momento em que as edificações de madeira foram sendo substituídas, aos poucos, por edificações de alvenaria. A barragem do Paranoá Outra cidade que teve origem a partir de acampamentos de candangos foi o Paranoá. Inicialmente, em 1957, a região era ocupada por trabalhadores dos canteiros de obras montados para a construção da barragem do lago Paranoá. Após a inauguração de Brasília, em 1960, os habitantes permaneceram no local devido à necessidade de conclusão das obras da usina hidrelétrica. Nessa época, o acampamento de operários chamado de Vila Paranoá já era composto por 800 moradias que abrigavam cerca de 3 mil moradores. Ataíde Pereira das Neves e a Igreja São Geraldo: “Todas as crianças eram batizadas aqui”. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília “Era muita gente, sete companhias que faziam a barragem e todos os operários moravam nesse acampamento”, conta o pernambucano Ataíde Pereira das Neves, 79 anos, que veio para Brasília em 1957, aos 18 anos, para passear. “Um conhecido nosso tinha vindo para cá, foi buscar a esposa e nos contou coisas maravilhosas sobre Brasília. Eu quis conhecer a cidade que estava sendo construída no meio do nada”, diz. Ataíde veio para passar um mês e ficou dez anos sem voltar para a terra natal. “Achei tanto emprego que acabei ficando. Meu pai era um homem de posses e sempre me questionava, em telegramas, se eu não ia voltar. Mas eu quis tentar. Naquela época pegavam as pessoas que queriam trabalhar pelo braço”, diz. “Trabalhei de cozinheiro para os americanos (da empresa Raymond Concrete Pile Company of the Americas), fui marteleteiro dentro da barragem (operava um equipamento que perfurava o solo e as rochas) e fui tratorista. Até para o Juscelino Kubitschek cozinhei, lá no Catetinho”, enumera o pioneiro. Paranoá na década de 1970. Foto: Acervo pessoal O antigo acampamento da Vila Paranoá foi transferido para onde fica hoje a cidade e o local original tornou-se área de preservação ambiental, o Parque Urbano e Vivencial do Paranoá. Ao andar pelo local, seu Ataíde aponta: “Aqui ficava a delegacia, ali era a escola e minha casa ficava na esquina”. Naquela época, os operários se divertiam em festas que aconteciam na casa de Raimunda Lima Santos, 88 anos, que também chegou em Brasília em 1957. Ela tinha 25 anos e veio acompanhar o marido, que se empregou nas obras da barragem. “Viemos do Piauí em um pau-de-arara. Aqui não tinha nada quando cheguei”, lembra. “Só tinha homem no acampamento. As únicas mulheres eram eu, minha mãe e minha irmã”, conta. Da época da construção da capital, os dois pioneiros guardam boas lembranças. Dona Raimunda recorda-se da dificuldade em fazer compras antes da inauguração da barragem. “Não passava ônibus e nem havia comércio. Tínhamos que ir todo fim de semana para o Núcleo Bandeirante fazer compras para passar a semana”, lembra. Raimunda Lima Santos, 88 anos, chegou a Brasília em 1957, aos 25 anos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília No local onde era o acampamento, ficaram de pé algumas estruturas, como a caixa d’água e a Igreja São Geraldo, construída em 1957 — a segunda igreja mais antiga do DF, tombada pelo pela Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal (Depha) em 1993. “Todas as crianças eram batizadas aqui. Era muito trabalho, mas, também, muita alegria. A vida aqui era muito boa”, diz Ataíde. No coração da capital A Vila Planalto decorre da instalação dos acampamentos de várias construtoras que ali se estabeleceram desde 1956 para executar as obras da nova capital. Serviam para abrigar tanto os técnicos envolvidos com as atividades de administração da Novacap quanto funcionários de obra das empreiteiras. Funcionários de diferentes construtoras se instalaram no local durante a execução de diferentes obras, como o Palácio da Alvorada, o Brasília Palace Hotel, além da construção do Eixo Monumental e da Praça dos Três Poderes. Demolição de barracos na Vila Planalto em 1968. Foto: Arquivo Público do DF Em 1958, um grande conjunto de 22 acampamentos se formava ao redor do conjunto das obras prioritárias para a cidade. Como os demais acampamentos de obras, a Vila Planalto estava destinada a ser removida logo ao final dos trabalhos, com a desmontagem das edificações de madeira. Porém, devido à sua localização privilegiada e existência de boa infraestrutura no local, bem como por não haver, à época, nenhuma política habitacional capaz de oferecer melhores opções de moradia para a população, os moradores da Vila Planalto ali permaneceram, criando um núcleo habitacional pioneiro em pleno coração da Capital da República. À beira do lago A Vila Telebrasília surgiu em 1956 como acampamento de funcionários da construtora Camargo Corrêa e se localiza à beira do lago Paranoá, no final da Asa Sul. Semelhante a outros remanescentes de acampamentos pioneiros, já não há exemplos de edificações de madeira originais da época da construção. A lei que regularizou a área e garantiu a permanência dos moradores no local, de 1991, no entanto, exigiu respeito aos padrões existentes de ocupação original com a manutenção da volumetria de edificações baixas e presença de vegetação. Assim, buscou-se a preservação da rua como espaço de lazer e convívio cotidiano, semelhante ao contexto de pequenas cidades tradicionais. A Vila Telebrasília constitui-se, atualmente, como um local de habitação popular dentro do Conjunto Urbanístico de Brasília. E mais um pouco de história… Na próxima quinta-feira (31), o segundo capítulo da série Nascidas com Brasília conta a história da criação das primeiras cidades-satélites. A capital ainda não havia sido inaugurada, mas novos imigrantes desembarcavam no Planalto Central todos os dias. A construção de acampamentos de madeira não atendia à demanda e a Novacap decidiu criar cidades. Taguatinga foi a primeira delas. Confira.  

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Uma infância livre na alvorada da capital

A turma da 312 também frequentou ícones da infância brasiliense, como o Parque Ana Lídia, inaugurado em 1971 |  Foto: Arquivo Pessoal Amigos da 312 Norte/Facebook Eles cresceram com Brasília. Chegaram à capital em 1966 com a transferência dos pais, funcionários públicos. Tinham 4, 5, 6 anos. Foram morar na mesma quadra, a 312 Norte, e conviveram diariamente até a adolescência, em meados dos anos 80. Faziam tudo juntos. Iam à mesma escola, que ficava dentro da quadra, corriam entre os blocos brincando de pique-pega, jogavam bola, faziam trilhas e exploravam o Cerrado praticamente virgem perto de casa. Guardam, assim, lembranças de uma infância livre e muito divertida. “A gente só ia em casa para almoçar e jantar. Quando não estávamos na escola, estávamos brincando embaixo do bloco”, resume o bancário Ernesto Morais, o Nesto, hoje com 55 anos. Crianças só iam em casa para almoçar e jantar e passavam o dia embaixo do bloco Os vizinhos da primeira superquadra da Asa Norte a ser inaugurada completa, com todos os blocos (são 11 no total) e equipamentos públicos, tornaram-se amigos e colecionam memórias de momentos vividos lado a lado ao longo de uma vida. Um grupo de cerca de 50 pessoas com, em média, 55 anos, é amigo até hoje. Eles se encontram toda sexta-feira à noite em um bar na comercial da 312. Eles cresceram, casaram-se, tiveram filhos e alguns ainda moram ali. “Éramos muito colados”, diz o assistente administrativo Ismael Teles, 58 anos, que participava das brincadeiras, mas tinha que obedecer a regras. “Meu pai era mais severo. Eu tinha hora para brincar, mas também tinha que estudar”, lembra. A 312 Norte foi a primeira superquadra da Asa Norte a ser inaugurada completa, com todos os blocos e equipamentos públicos, em 1966 Apesar de alguns blocos já terem sido construídos, àquela época, em outras quadras da Asa Norte, a 312 foi a primeira a ficar completa na parte norte da capital. Inaugurada em junho de 1966, ela foi ocupada basicamente por funcionários públicos transferidos principalmente do Ceará e do Rio de Janeiro. Em uma época na qual a região era muito mais uma extensão de terra vermelha do que um bairro residencial, a quadra foi, por muito tempo, o local mais populoso de Brasília. Seus 864 apartamentos eram ocupados por famílias numerosas. Na casa de Carlos Cézar Soares Batista – o Cecéu, hoje com 58 anos – por exemplo, eram seis: dois adultos (os pais) e quatro crianças. Ele tinha 5 anos quando chegou em Brasília em 1966, ano em que os pais vieram transferidos do Ceará. Eles trabalhavam no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) em Fortaleza. Em Brasília tiveram o quinto filho, Danilo, nascido em 1981. “Era muito menino. Às vezes eram oito, dez filhos e os primos praticamente moravam junto. Era tanta gente, que fazíamos campeonato de futebol por bloco. Montávamos os times por andar”, conta Cecéu, que morava no bloco D. Nesto morava no bloco I e Ismael no bloco K. Cecéu aos 8 anos, no meio de duas amigas da quadra Parque de diversões Os amigos brincavam na própria quadra, com brinquedos baratos e até improvisados. Diferentemente destes tempos atuais de tablets, smartphones, games e outras modernidades eletrônicas, eles soltavam pipa, jogavam bolinha de gude e futebol e brincavam de vários piques – pega, esconde, ladrão. O material de construção também virava brinquedo: tábuas e ripas de madeira ora eram usadas em carrinhos de rolimã, ora viravam tacos de bete, uma versão simplificada do beisebol, quando o grupo é dividido em dois times: um começa com os tacos (rebatedores) e o outro com a bola (lançadores). O time de bete, uma das brincadeiras preferidas da turma Tudo virava brincadeira para as crianças. A água da enxurrada formada quando chovia era represada por eles com areia e outros materiais usados em obras. A quadra foi entregue com asfalto, mas a área dos estacionamentos era livre e usada pela turma como campo de futebol ou de queimada. “Nossa vida era dentro da quadra, que era nosso parque de diversões”, conta Cecéu. “Hoje a gente vem à quadra e nem vê criança”, lamenta. Os irmãos Roberto e Robson Lopes, na década de 1970, brincando embaixo do bloco Às vezes eles saíam da quadra e se aventuravam pelo Cerrado. Passavam horas dentro do mato para chegar à Água Mineral, a pé. Ou iam ao Lago Paranoá, onde aproveitavam para pescar e se refrescar no calor da seca do Planalto Central. “Aqui em volta era tudo mato, não tinha nada. Tinha uma mina onde é a 311 Norte, a coisa mais bonita, a gente brincava na água”, recorda-se o radialista Roberto Lopes, 56 anos, que tinha o irmão Robson, seis anos mais novo, como grande companheiro de aventura. “Ele tem o cabelo branco desde aquela época”, brincam os amigos. Os irmãos cresceram e se casaram, mas continuam morando no mesmo bloco D da SQN 312, cada um em um apartamento com sua família. Mirinzada A turma da 312 também frequentou ícones da infância brasiliense, como o Parque Ana Lídia, inaugurado quando eles tinham cerca de 10 anos, e a Piscina de Ondas, que abriu as portas sete anos depois. O Parque da Cidade, no entanto, ficava longe demais do final da Asa Norte.  “Tudo era muito longe. Não era como hoje que todo mundo tem carro. Brincar mesmo era aqui na quadra ou perto dela”, conta Cecéu. Os irmãos Roberto e Robson Lopes moram até hoje no bloco D da 312 Norte. Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília A turma cresceu e surgiu a segunda geração de amigos da 312 Norte. Em 1982, um morador da quadra, que era funcionário da Secretaria de Esportes e Lazer, muito querido pelas crianças, organizou a Mirinzada, um evento esportivo que movimentou a meninada. Nem quadra de esportes existia e as competições aconteceram no asfalto mesmo, nos estacionamentos entre os blocos. Eduardo Teles, 50 anos, é o irmão caçula de Ismael. Ele tinha 12 ou 13 anos e participou do time de vôlei, mas os “atletas” da quadra montaram também times de atletismo, futebol e basquete. Os mais velhos foram técnicos dos times das crianças. Ismael treinou o time apelidado de “Muralha Vermelha”. Eduardo Teles (primeiro agachado à esquerda) jogou no time de vôlei na Mirinzada, em 1982 Eduardo não sabe dizer se apenas os moradores da 312 participaram da Mirinzada ou se o evento foi aberto a outras quadras. Ele só se lembra de que cada equipe vestia uma camiseta de cor diferente – a dele era azul marinho, mas também havia camisetas vermelhas, amarelas e pretas. Recorda também de que as competições reuniam centenas de crianças. “Não me lembro direito, era muito novo. Mas foi um evento que reuniu os moradores de todos os blocos. A 312 era como uma comunidade, todo mundo se conhecia. Não tinha nada em volta”, diz. Adolescentes Por ter, entre os moradores, um grande número de estudantes e professores da Universidade de Brasília (UnB), a 312 Norte logo se tornou um importante ponto cultural da cidade. Foi lá que surgiu, nos anos 1980, o Panelão da Arte (“Para acabar com as panelinhas!”), com a apresentação regular de vários artistas ao ar livre na quadra. Naquela época, a turma, que ainda andava junta, chegou à adolescência. Consequentemente, as brincadeiras embaixo do bloco deram lugar às festinhas, que aconteciam nas salas dos apartamentos; às matinês ao som das bandas brasilienses Aborto Elétrico e Plebe Rude; e aos bailes de carnaval no Minas Tênis Clube, a poucos quilômetros dali. Baianinhas prontas para a matinê da AABB, em 1975 Os clubes do Bolinha e da Luluzinha se misturaram e produziram até alguns casamentos a partir dos namoricos da turma. Cecéu era o galã, enquanto todos os meninos queriam namorar as três irmãs dele. Ele não nega a fama de namorador, mas justifica. “Eu fazia sucesso porque tinha uma mobilete”, diz o hoje servidor público, casado há 32 anos com Cláudia Volpi, 53 anos, que ele conheceu no trabalho. Redes sociais As redes sociais permitem o convívio dos amigos de infância na vida adulta depois dos casamentos e filhos. Eles mantêm um grupo no Facebook que tem 478 membros – umas cinco gerações de moradores da quadra. Lá postam fotos antigas, além de registros das ocasiões em que se encontram e matam um pouco da saudade do passado. Anualmente, grande parte deles se encontra no aniversário da quadra, que fez 53 anos em junho. Na data, moradores e ex-moradores se organizam e armam uma grande festa no gramado que divide a quadra com a vizinha 311. É uma reunião de milhares de pessoas. Alguns já não moram em Brasília. Fabíola Parente Ramalho, 56 anos, aproveita as redes sociais para manter contato com os amigos que ficaram na capital. Ela viveu durante três décadas na quadra, mas desde 1997 mora fora, em Volta Redonda (RJ). “Pela internet conseguimos estar sempre presentes na vida uns dos outros”, diz. “Aquela época foi tudo de bom. Tivemos uma infância muito feliz e saudável. Eu era muito moleca, estava o tempo todo embaixo do bloco, brincando com os meninos no pilotis”, acrescenta. Amigos até hoje: eles mantêm um grupo no Facebook com 478 membros de cinco gerações de moradores da quadra | Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília

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Cine Brasília: a história da cidade contada na telona

Localizado numa entrequadra da Asa Sul, o Cine Brasília é, atualmente, o único cinema de rua da capital federal. Foto: Arquivo Público do DF. Foto: Arquivo Público O Cine Brasília nasceu junto com a cidade. A primeira sessão foi realizada um dia depois da inauguração da nova capital, em 22 de abril de 1960 (saiba mais sobre a história do cinema no vídeo abaixo). O espaço faz parte do projeto arquitetônico modernista desenhado por Oscar Niemeyer. Mais do que isso. Está incorporado no inconsciente dos brasilienses e de representantes da classe cinematográfica brasileira do país como símbolo cultural local. Uma máxima que até já virou clichê, de tão proferida, é a de que “o Cine Brasília é o templo do cinema brasileiro”. Não há quem discorde. “O Cine Brasília é um marco do cinema da cidade. Tinha a função, no começo, de entreter os servidores que vieram para trabalhar na capital”, conta Vanderlei da Silva, coordenador do audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF. A estreia foi marcada pelas gargalhadas do público que conferiu as comédias Anáguas a Bordo (1959), com os galãs Cary Grant e Tony Curtis, e o pastelão A Canoa Furou (1959), protagonizado pelo astro do gênero Jerry Lewis. Com o tempo, o Cine Brasília, o último cinema de rua do DF, ganhou missões mais nobres. Entre elas, a de valorizar a exibição de produções nacionais, especialmente filmes regionais. “Aqui é a casa deles”, garante o gerente Rodrigo Rodrigues Torres, também responsável pela programação dos filmes. “E, principalmente, dos trabalhos financiados pela Secretaria de Cultura via Fundo de Apoio à Cultura”, reforça. [Olho texto=”O Cine Brasília é um dos meus recantos preferidos da cidade. Tem um espaço físico privilegiado, além de ser um cartão-postal” assinatura=”Berê Bahia, pesquisadora e cineclubista” esquerda_direita_centro=”direita”] Esta semana, por exemplo, ainda dá tempo dos brasilienses e turistas de passagem pela capital conferirem a mais recente sensação do cinema nacional, o drama de fantasia pernambucano Bacurau, da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Em outras ocasiões são reexibidos clássicos restaurados que marcaram época na cinematografia mundial, como o marco da nouvelle vague, Acossado (1960), de Jean-Luc Godard, ou do Cinema Novo, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Obras referenciais que contam com um público seleto. “Só comecei a frequentar o Cine Brasília em 1982, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Foi o ano em que Tabu, de Júlio Bressane, foi o vencedor”, lembra a pesquisadora e cineclubista Berê Bahia, autora de um catálogo que conta três décadas do mais importante evento cinematográfico do país, entre 1965-1997. “O Cine Brasília é um dos meus recantos preferidos da cidade. Tem um espaço físico privilegiado, além de ser um cartão-postal”, lembra. Com preço de ingresso bem atraente, um terço (1/3) a menos do valor médio das entradas em outros cinemas da cidade, o Cine Brasília também se caracterizou por exibir filmes que fogem dos grandes circuitos, o chamado mainstream. Aposta na exibição de produções internacionais com temáticas reflexivas, grande parte vindas de embaixadas cujo países apresentam uma cinematografia rara e original, além de documentários, gênero de pouca inserção no mercado. “O Cine Brasília não é um cinema comercial convencional”, explica Rodrigo Rodrigues Torres. “A gente tenta dar espaço a filmes que têm dificuldades de circular na praça”, continua. A casa do Festival de Brasília A outra missão do Cine Brasília, patrimônio imaterial da cidade, é o de trabalhar a formação de público. Para tanto, o espaço abraça dois projetos importantes em parceria com as secretarias de Cultura e Educação dentro do programa Cultura Educa. Ambos direcionados ao público jovem da rede pública do DF. Um deles, Concertos Didáticos, traz apresentação especial da Orquestra Sinfônica de Brasília para a garotada. O outro, Escola vai ao Cinema, leva todas as semanas uma média de 500 alunos para assistir a uma sessão no cinema. “Muitas dessas crianças nunca haviam ido ao cinema”, revela o gerente. “A gente tem apostado nas futuras gerações”, diz, orgulhoso. O local tem uma das maiores telas de cinema do Distrito Federal Nada representa mais a cara do Cine Brasília, no entanto, do que o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Conceitualmente idealizado no seio da Universidade de Brasília (UnB) pelo historiador e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, junto com os intelectuais da academia, a mais importante mostra de cinema do país surgiu cinco anos depois da inauguração do prédio, em 1965, com o nome de Semana do Cinema Brasileiro. O filme vencedor daquela primeira edição foi o drama social, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, filme de Roberto Santos baseado na obra de Guimarães Rosa. “O Cine Brasília acomoda um dos maiores festivais de cinema do país. Ele sempre foi feito por meio da Secretaria de Cultura, na antiga Fundação Cultural. É um produto do Governo do Distrito Federal”, reforça o coordenador do audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Vanderlei da Silva. “Talvez o Festival não teria o glamour que tem se não fosse pelo Cine Brasília”, observa. E, em seus 52 anos de edição, glamour foi o que não faltou no Festival, mas não apenas isso. Beldades como Leila Diniz, Sônia Braga, Carla Camuratti e Patrícia Pillar desfilaram pelo corredor do cinema, assim como os cineastas Arnaldo Jabor, Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, Ruy Guerra e Vladimir Carvalho. Seu filme O País de São Saruê teve a exibição proibida em 1971, por conta das críticas políticas. O imbróglio culminou com o cancelamento das três edições seguintes do evento: 1972, 1973 e 1974. “A mostra teve vários momentos importantes”, conta Vanderlei da Silva, do Audiovisual da Secretaria de Cultura. “O Cine Brasília resistiu a muitas tempestades. Teve momentos de glória, crítica, descrédito, rejeição”, escreve Berê Bahia no livro 30 Anos de Cinema e Festival – A História do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (1965 -1997). Estrutura e funcionamento Os principais ambientes do Cine Brasília, que é administrado por 12 servidores, fora o pessoal terceirizado da limpeza e segurança, são o hall de entrada, bem próximo as quadras 106/107 Sul. A localização dá um clima de cinema de bairro ao local. Sorte da vizinhança, que pode aproveitar o grande palco, a telona (14m x 6,30m), a enorme sala de público com suas 619 cadeiras e, além disso, na parede, o que poucos sabem, algumas intervenções de Athos Bulcão. No segundo andar, a sala de projeção, equipada com modernos equipamentos de exibição. Importantes nomes do cinema nacional, como Grande Otelo, prestigiaram os eventos no Cine Brasília. Foto: Arquivo Público A mudança do projetor de película 35mm, um charme e importante símbolo de resistência do mais antigo cinema da cidade, é um filme à parte na história desse lugar emblemático. Isso porque os frequentadores cativos, cineastas e produtores, enfim, amantes da Sétima Arte, não queriam saber da novidade visual. Venceu o futuro, a modernidade, porém. O projetor digital 2k, que exibe filmes no formato DCP, ou seja, digital cinema packpage, um formato padrão do cinema digital, não deixa nada a desejar em qualidade de som e imagem a nenhum cinema da cidade. “Todos os estabelecimentos do gênero passaram por essa adaptação que marcou a segunda década do século 20”, conta o gerente Rodrigo Torres. “Nossa projeção do ponto de vista técnico é excelente. Para continuar com sua condição social de exibir filmes, tivemos que passar por essa transição”, emenda. Assista ao vídeo: ?

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Uma construção ousada e um conteúdo recheado de memórias de Brasília

Do lado de fora, colunas que lembram uma aranha – ou uma espaçonave, ou uma Catedral invertida –, o busto de Juscelino Kubitschek e um espelho d’água castigado pela seca de setembro. Dentro, cadeiras do saudoso Cine Bruni (que talvez você nunca tenha ouvido falar), o Jeep onde Bernardo Sayão, Lucio Costa e Israel Pinheiro andavam para visitar as obras de construção da nova capital e a cadeira onde JK se sentou para assistir a primeira missa da cidade, na Praça do Cruzeiro. Memórias, histórias e um apanhado de curiosidades sobre a fundação e os primeiros anos de Brasília fazem parte do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (IHG-DF), localizado na 703/903 Sul, na Asa Sul. Apesar da grandiosidade arquitetônica do prédio projetado por Milton Ramos – que deixou seus traços no Teatro Nacional, no Itamaraty e no Hospital de Base –, o espaço que reúne museu e escola passa despercebido por grande parte da população. Inaugurado em junho de 1964, se junta a outros institutos de outros estados, além do nacional, sediado no Rio de Janeiro. O propósito é reunir o acervo da fundação de Brasília – e de seu fundador. É um primo público do Memorial JK, entidade privada em homenagem ao ex-presidente do Brasil idealizador de Brasília. Aliás, há muito de Juscelino por lá. Se os restos mortais do mineiro estão hoje no memorial do Eixo Monumental, no Instituto Histórico e Geográfico está a lápide que cobria a sua sepultura antes da exumação do corpo. Peças raras Jeep Willys 1952 branco que transportava os construtores pelas obras da cidade. Paulo H. Carvalho/Agência Brasília O museu do instituto é um caso à parte. Além do atlas apontando a região onde seria construída Brasília, há um baú usado pela comissão Cruls – que visitou a região para estudar o melhor ponto de instalação da nova capital, o Jeep Willys 1952 branco que transportava os construtores pelas obras da cidade, a cadeira onde Juscelino Kubitschek se sentou para assistir a primeira missa, ainda em 1957, além dos enormes projetores de extinto Cine Bruni. Objetos pessoais de JK e parte da exposição do centenário do ex-presidente, criada por Elifas Andreato, também estão abertas aos visitantes. As aulas assistidas pelos estudantes são ministradas em um auditório com as poltronas originais do Cine Bruni que funcionava no Setor Bancário Norte – no tempo em que ainda era permitido fumar em local fechado. Poltronas com cinzeiros originais do Cine Bruni / Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília Turistas curiosos em saber mais sobre a cidade aparecem por lá, mas são as crianças e os adolescentes – e até os adultos, do curso de pedagogia da Universidade de Brasília (UnB) –, em visitas agendadas, o público alvo do instituto.   Cadeira onde JK se sentou para assistir a primeira missa. Foto: Paulo H. Carvalho/ Agência Brasília A palestra, seguida de visitação e de atividades lúdicas ocorrem nos turnos da manhã e da tarde às segundas, quintas e sextas-feiras. Até dezembro de 2019, a agenda de visitações gratuitas está lotada – e ainda há fila de espera. Até agora, 90 mil estudantes já passaram por lá. Escolas Desde 1994, a história da cidade é ensinada a quem vai ensiná-la. Disposto a diminuir a carência de conhecimento sobre a história e geografia local, o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal fez um acordo com a Secretaria de Educação. A parceria resultou na criação do programa educacional Distrito Federal: Seu Povo, Sua História. Até agora, 90 mil estudantes já visitaram por lá. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília O IHG-DF disponibiliza seu espaço, instrumentos, equipamentos e acervo histórico-museológico e bibliográfico. Em contrapartida, a pasta libera professores das áreas de história, geografia e pedagogia com perfil para educação patrimonial em museu. Anualmente, são mais de seis mil alunos atendidos pelo programa. A professora Denise Coelho, 48 anos, e mais três colegas: Ivana Caldeira, Otávio Oliveira e Luiz Gustavo Leonel, são os responsáveis por ampliar os conhecimentos dos alunos que visitam o local. “O programa foi criado pela dificuldade das escolas em encontrar material didático que traga o conteúdo, além disso, muitas escolas trabalham a história do Brasil e não fala da história do Distrito Federal. Às vezes outras pessoas de outras regiões conhecem mais sobre a capital que os próprios moradores”, frisa Denise. Formação Todas as terças-feiras, professores da rede pública assistem aulas no curso Distrito Federal – seu povo, sua história, com carga horária de 180 horas. Dali, saem prontos a expandir os conhecimentos do que formou a Brasília de hoje. As atividades acontecem em parceria com a Secretaria de Educação. “Brasília ficou de fora dos livros no período do governo militar. Ajudamos a resgatar muito do que ficou pra trás”, explica a secretária-executiva do Instituto Histórico e Geográfico do DF, Agnês de Lima Leite, há 24 anos na instituição. A equipe de professores do instituto ainda promove um clube de leitura aberto à comunidade em que ao menos um dos títulos lidos trate da história de Brasília. Um trabalho semestral também é feito com alguma unidade de ensino em que os alunos, depois de quatro meses, fazem uma apresentação sobre um tema específico da capital. Neste semestre o protagonista é o Lago Paranoá. Experiências A professora Daniane Bevenito já levou mais de dez turmas para participar da ação. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília A professora de geografia Daniane Carvalho Bevenito, 42 anos, já levou mais de dez turmas para participar da ação, como os estudantes do 7º ano do Centro Educacional 04 do Guará. “Todo ano trago alunos aqui. Complementa o meu conteúdo. O material é ótimo e sempre há mudanças nos temas trabalhados.” A estudante Isa Vitória de França Saraiva, de 13 anos, aprovou a iniciativa. “Toda escola deveria trazer os alunos aqui porque possibilita mais aprendizado”, defende. Para ela, aprender a contar a história de própria cidade é importante, ainda mais sendo a capital do Brasil. “Temos que conhecer não só o presente, mas também o passado. Agora tenho mais conhecimentos que poderei passar para meus familiares. Eles também vão gostar de saber”, disse.

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Memorial‌ ‌JK:‌ ‌38‌ ‌anos‌ ‌guardando‌ ‌o‌ ‌tesouro‌ ‌da‌ ‌história‌ ‌de‌ ‌Brasília‌

O recepcionista Euricles Oliveira é o funcionário mais antigo do Memorial JK. Ele estava lá na inauguração e coleciona histórias de quase quatro décadas no monumento | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília “Ele, filho de caixeiro viajante, saiu do nada, da pobreza. Estudou, correu atrás e chegou onde chegou. É incrível e emocionante. Se hoje é difícil, imagina naquela época?”, questiona o funcionário mais antigo do Memorial JK, que após passar anos como motorista e conviver com três gerações de Kubitscheks, assumiu a função de recepcionista. Ou melhor: de contador de histórias. Ele acredita que o monumento cumpre o papel idealizado por Dona Sarah, viúva de JK: manter viva a memória do marido.  Carga emocional As visitas ao local são, muitas vezes, carregadas de emoção. As pessoas choram por vários motivos: por recordar ou conhecer as épocas retratadas no Memorial, por reconhecer parentes nas imagens, por se verem retratadas ali.  É o que conta Tamires Alves, 31 anos, que trabalha há meia década no monumento. É história viva. Chama atenção pela importância, remete ao passado, tem uma riqueza de detalhes impressionanteVânia de Araújo, 58 anos, turista de Belo Horizonte (MG)direita Conterrâneas de JK, Isaura de Araújo, 82 anos, e Vânia de Araújo, 58, fizeram questão que o Memorial fosse a primeira parada quando resolveram visitar a capital. Moradoras de Belo Horizonte, mãe e filha se impressionaram com a magnitude do monumento. “É história viva. Chama atenção pela importância, remete ao passado, tem uma riqueza de detalhes impressionante”, valoriza a filha, pedagoga.  A mãe, por sua vez, volta ao passado com as lembranças que remetem sua infância. “JK foi um grande presidente. Dom Bosco previu Brasília como a capital, no centro do Planalto, e ele conseguiu cumprir a promessa e a profecia”, recorda a idosa.   Morada definitiva de JK, câmara mortuária é cercada de obras de arte | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília Talvez o espaço que desperte maior curiosidade – e até medo dos menores – esteja no segundo andar. É a Câmara Mortuária, morada definitiva do estadista que nasceu em 12 de setembro de 1901, na cidade de Diamantina (MG). O túmulo onde JK descansa está no centro de um ambiente com paredes esculpidas por Athos Bulcão e um vitral feito por Marianne Peretti. O espaço recebe luz natural que varia de tom de acordo com a posição do Sol.  A participação da ex-primeira-dama não é mero adendo. Idealizadora do monumento, sua trajetória também tem destaque. O gabinete de onde ela despachou desde a inauguração tem jardim de inverno feito pelas mãos de Roberto Burle Marx, além de objetos pessoais e fotografias de época. Lado a lado com o marido, a imagem de Dona Sarah se repete no caminho de JK. Ela protagonizou grandes ações de assistência social. Mobilização nacional O projeto arquitetônico do Memorial JK foi inaugurado em 1981. Trata-se de uma homenagem de Dona Sarah Kubitschek para manter viva a memória do marido após sua morte, cinco anos antes. Ela fez uma campanha para adquirir um terreno, doado pelo então presidente João Figueiredo em área icônica — onde a primeira missa foi celebrada, em 1957. Também mobilizou todo o país para angariar doações e recursos para a construção. O ato teve apoio de políticos, amigos, familiares e do povo.  A obra foi feita em 17 meses, com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. São 120 metros de comprimento, 32 metros de largura e um pedestal de concreto armado de 28 metros de altura, de onde sai uma grande mão em forma de concha e protege a estátua em bronze, feita por Honório Peçanha, de onde JK acena para a cidade.   Os espelhos d’água, as rampas de acesso, e o verde do gramado e dos jardins emolduram o edifício monumental, todo em mármore branco contrastando com o céu da capital. No jardim, uma escultura de Dona Sarah abraçada ao presidente convida o visitante a conhecer um pouco da história do Brasil. Um pequeno monumento de granito negro reproduz uma das frases do ex-presidente. Às vésperas do aniversário, o local passou por manutenção externa que deixou a fachada com cara de nova.  Discursos serão publicados  E no embalo das comemorações do aniversário, cinco anos de discursos de Juscelino Kubitschek serão transformados em livros. A primeira obra, com as falas proferidas em seu primeiro ano de governo, em 1956, será disponibilizada nesta quinta-feira (12), em sessão solene no Senado Federal. Os outros lançamentos estão previstos até 12 de setembro de 2021, quando JK completaria 119 anos. Ouça o que o presidente disse em alusão à inauguração da cidade, em 1960:   Seis perguntas para Anna Christina Kubitschek: Como se deu a escolha dos itens que compõem o acervo do Memorial JK? Quando o Memorial JK foi inaugurado, tínhamos um acervo menor que o atual, com peças apenas coletadas por nossa família. Com o passar dos anos, fomos aumentando ele aos poucos, com a incorporação de novos itens, doados por brasileiros e por amigos, outros obtidos pela nossa equipe. Exemplo disso é o estudo que está ao lado do quadro de Portinari que retrata JK com a faixa presidencial. O nosso saudoso Sérgio Vasconcelos comprou em um leilão e doou ao Memorial. Mas há itens que estão aqui desde o começo e que tem um enorme simbolismo. Caso, por exemplo, da Biblioteca de JK. Ela veio do Rio de Janeiro exatamente como estava montada no apartamento de Copacabana. Outro acervo que também é do início do Memorial é o da sala da minha avó, com seus móveis projetados por Oscar Niemeyer. Mas fui, com o passar dos anos, adicionando os itens, como os vestidos que ela usava, e que fazem imenso sucesso. Como acontece a conservação dos vestuários expostos? Com que frequência são retirados, limpos, repostos? De que forma acontece a limpeza? Essa foi uma ideia que tive após visitar o Metropolitan, em Nova York. Lá havia uma exposição temporária do vestuário de Jackeline Kennedy Onassis, e isso me inspirou a trazer a proposta para o memorial JK, pois as pessoas adoravam aquela mostra. Após minha avó falecer, levei esse toque intimista e que todos adoram para o Memorial JK. Tal como todo o acervo, que é cuidado por duas museólogas, todas as peças passam por limpeza e conservação diária, feita por pessoal especializado e usando as técnicas mais modernas de conservação de acervos. Há mudanças esporádicas nos itens do acervo ou tudo é definitivo? O acervo está sempre sendo modificado e atualizado, com a incorporação de novas peças e mudanças ocasionadas pelo feedback que o público nos dá. Exemplo disso é a galeria de JK e as personalidades. Era uma exposição temporária que virou definitiva. Assim, muitos outros itens foram atualizados e aumentados. Isso sem falar da necessidade de modernizar sempre o espaço. No início, não tínhamos, por exemplo, o elevador para pessoas com deficiência, que hoje proporciona mais conforto a todos os visitantes. Há dois anos, fizemos o grande projeto de digitalização e de plena acessibilidade. É uma renovação constante. Qual é a história da pintura feita por Candido Portinari a JK em 1956? Esta peça está, desde o início, no acervo do Memorial. Trata-se de uma pintura a óleo feita em 1960, com 1,99m de altura por 99cm de largura. Ele a pintou auxiliado por fotos, fazendo uma composição nos tons escuros de preto, terras e verdes e nos tons ocres, amarelo e branco. Os dois sempre foram muito amigos. E JK era um amante das artes, especialmente do modernismo. Tanto é assim que, em 1944, quando era prefeito de Belo Horizonte, promoveu a Mostra de Arte Moderna na cidade. Foi Portinari que, naquele mesmo ano, indicou Guignard para montar o curso de pintura e desenho, embrião da futura Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte. Quais os principais desafios de gerenciar o Memorial JK? Passados 38 anos, como é o trabalho para manter viva a memória do seu avô? É gratificante. Às vezes, vou ao limite das minhas energias, pela característica que tenho de administrar planejando o futuro – os planos para 2020, por exemplo, terminei em maio deste ano. Também sou perfeccionista e detalhista, o que faz com que eu viva 24 horas pensando em como gerenciar o Memorial para ser mais dinâmico, acessível e confortável – e isso em conjunto com a vida que nós, mulheres, temos, repleta de compromissos… Mas meu foco principal é justamente gerenciar a memória do meu avô, tentando sempre antever problemas, estabelecer metas e gerar resultados. Qual é o planejamento para levar toda essa história às novas gerações? O Brasil vive um momento único e sensível, em que sentimos a falta da moderação e da conciliação que JK sabia propor. Então, decidimos resgatar suas falas mais importantes como presidente da República. Nesta quinta-feira (12), que marca o 117° aniversário de nascimento do meu avô, vamos lançar, em conjunto com o Senado Federal, o primeiro de uma série de cinco livros com os seus discursos. Este documento histórico estará acessível a toda a população e poderá influenciar e ajudar os políticos e as novas gerações. Até porque iremos doar estes livros, e não vender, facilitando o acesso popular a tantas reflexões profundas, que só ele soube propor ao país.

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Bruno Giorgi e suas esculturas ajudam a contar a história de Brasília

Os Guerreiros na Praça dos Três Poderes. Obra é popularmente conhecida como Os Candangos, um símbolo da cidade | Foto: Renato Araújo / Agência Brasília Reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Brasília chama a atenção de moradores e turistas pelos conjuntos arquitetônicos. Entre eles, monumentos, edifícios e esculturas. As obras do artista Bruno Giorgi, por exemplo, são símbolos da capital.  Giorgi é conhecido como um dos mais importantes escultores brasileiros. Filho de pais italianos, ele nasceu em 1905, em São Paulo, e morreu em 1993, no Rio de Janeiro. A mãe o colocou para fazer aulas de escultura quando criança, por ser um menino muito agitado. A convite do arquiteto Oscar Niemeyer, o artista desenvolveu três obras na capital entre as décadas de 50 e 60. [Olho texto=”Os Guerreiros foi a primeira escultura criada por ele. Elaborada em 1959 e mais conhecida como Os Candangos, a obra é feita em bronze e está localizada na Praça dos Três Poderes.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”esquerda”] Os Guerreiros foi a primeira escultura criada por ele. Elaborada em 1959 e mais conhecida como Os Candangos, a obra é feita em bronze e está localizada na Praça dos Três Poderes. Segundo o professor de Arte da Universidade de São Paulo (USP) Olívio Guedes, a expressão “candangos” vem da África, mais precisamente de Angola. [Relacionadas esquerda_direita_centro=”direita”] “Os negros chamavam os portugueses assim. Durante a construção de Brasília, aquelas pessoas que vinham, principalmente do Nordeste, eram apelidadas dessa forma. Então, esse nome deixou de ser um vilão e passou a ser uma homenagem aos trabalhadores”, lembra.  Na avaliação do doutor em História da Arte, a escultura, que mostra duas pessoas se abraçando, é uma forma de dizer que dois guerreiros estão lutando por um país igualitário. “Os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) estão reunidos naquela praça. A imagem traz um simbolismo de união, força e equilíbrio”, classifica Olívio Guedes.    Outra escultura de Giorgi, que fica ao lado do edifício do ministério das Relações Exteriores, chama atenção na Esplanada dos Ministérios. Pesando cerca de 50 toneladas, o Meteoro foi construído em 1967. O material feito em mármore Carrara (italiano) demorou cerca de 14 meses para ser finalizado e quase caiu na cabeça do artista no momento da colocação.   A escultura O Meteoro está localizada no espelho d’água do Palácio do Itamaraty | Foto: Renato Araújo / Agência Brasília Para Frederico Barreto, professor do Departamento de Projeto, Expressão e Representação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), a peça circular que parece flutuar sobre o espelho d’água do Palácio do Itamaraty representa os laços diplomáticos entre os países do mundo. “É uma esfera estilizada montada em cinco peças que se interceptam de forma harmoniosa, mas que permite ver seus desvãos e suas distinções”, comenta.    Construído em 1965, o Monumento à Cultura fica na praça Edson Luís, na UnB. Doada pelo empresário Adolpho Bloch, a escultura também é feita em bronze. Para Guedes, ela representa uma sustentação cultural. “As colunas possuem asas e foram colocadas no meio da universidade, isso significa que quando colocamos asas no conhecimento podemos voar longe”, diz. Barreto explica que a obra tem formas corporais altamente estilizadas. “Mais pontiagudas e elegantes, simbolizando a atitude alerta e vigilante que é expressada em muitas obras de Bruno Giorgi.”    Monumento à Cultura fica na praça Edson Luís, na UnB | Foto: Renato Araújo / Agência Brasília Modernismo As esculturas de Bruno Giorgi foram feitas no período modernista. Olívio Guedes lembra que o movimento surgiu na França, no final do século 19, mas chegou ao Brasil apenas em 1922 e se estendeu até 1960. “Os modernistas tinham por base a experiência do país deles, como a política e a cultura. No caso de Bruno Giorgi, ele juntou a cultura dos dois países”, explica.      Frederico Barreto afirma que o movimento causou grande revolução nas formas, nos materiais, nos simbolismos e na própria conduta dos artistas, seja na arquitetura, na escultura, na dança, nas artes plásticas e visuais ou na literatura. “Eles eram libertários e protagonistas de advocacias transformadores na sociedade” conta.

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Destemidos, construtores pioneiros de Brasília apostaram na capital

Da esquerda para a direita, César Peres, construtor pioneiro de Brasília, e o irmão Alberto Peres no dia da inauguração da construtora | Foto: Arquivo pessoal Para que Brasília fosse erguida, foram necessárias pessoas que não tivessem medo de apostar no desconhecido. Mais do que acreditar, os primeiros construtores da nova capital tiveram que investir dinheiro, vencer as adversidades do tempo e, ao longo dos anos, lutar contra crises econômicas para que as empresas pioneiras que ajudaram a levantar a cidade em meio a poeira e mato continuassem a todo vapor.       César Peres aceitou o desafio do irmão mais novo, Alberto Peres: veio para Brasília em 1960, mesmo sem saber se o solo vermelho do Cerrado lhe renderia frutos. Com o dinheiro que havia juntado antes de se mudar para a recém-inaugurada capital, fundou a construtora Ipê, em 1961, em Taguatinga. “Meu pai era um construtor nato, mesmo não sendo formado. Ele sempre teve paixão por essa área. Não é à toa que isso foi passado para mim e para meu filho”, lembra Júlio Peres, 64 anos, um dos cinco filhos do engenheiro. O pioneiro faleceu em 2001, aos 83 anos, devido a uma pneumonia e complicações cardíacas.   [Olho texto=”Meu pai era um construtor nato, mesmo não sendo formado. Ele sempre teve paixão por essa área. Não é à toa que isso foi passado para mim e para meu filho” assinatura=”Júlio Peres, filho do construtor pioneiro César Peres ” esquerda_direita_centro=”esquerda”] Mesmo vivendo em uma cidade de incertezas, coragem era o sentimento que César esbanjava. “Ele era um itinerante, gostava do desafio, de coisas novas. Participar da construção foi um momento de muita alegria”, comenta Júlio. A firma, que começou com 20 funcionários e atualmente está na sua segunda geração, com 200, foi responsável pelos primeiros prédios e lojas das cidades de Brasília, como alguns de Taguatinga.  “Meu avô tinha uma visão de futuro, e isso o ajudava a alavancar os negócios. Ele conseguiu vender esses locais a prestação, e as pessoas, mesmo não o conhecendo, compravam porque acreditavam nele. É muito difícil confiarmos nos outros, mas ele era extremamente cativante e correto”, afirma o neto do pioneiro, César Peres Neto, 37 anos.   Júlio Peres e o filho, César Peres Neto, dirigem a construtora atualmente | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Para a família, uma das receitas do sucesso da construtora era o relacionamento com os funcionários. Ao mesmo tempo em que era sério e exigente, conta Júlio, César tratava todos com igualdade. “Ele era uma pessoa muito humana. Comprava lanche para  pessoal, se preocupava se o trabalhador voltaria com segurança para casa quando o expediente acabava e se o empregado estava evoluindo profissionalmente”, recorda o filho, que acompanhou o pai em muitas obras.   Atualmente à frente da construtora Ipê, filho e neto não escondem a admiração pela pessoa e pelo profissional que César foi. “Quando encontro conhecidos do meu avô, todos elogiam a forma correta como ele agia. Isso moldou nossa família e nos espelhamos muito nele”, diz César Neto. Júlio destaca o cuidado que o pai tinha ao entregar uma obra: “Quem está recebendo um imóvel tem a esperança de um local novo, com momentos diferentes. Claro que a empresa visa ao lucro, mas ele sempre prezou a responsabilidade social e ambiental”.     Raízes da Novacap     Também egresso dos primórdios da cidade, o engenheiro Luiz Carlos Botelho chegou após muita batalha na vida. Começou a trabalhar aos 7 anos, como vendedor de leite. Depois foi engraxate, sapateiro e lavador de ônibus. Veio para Brasília em 1956, com a família. O pai dele foi convidado pelo ex-presidente Juscelino Kubitschek para montar a parte administrativa da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap).  Inicialmente, Luiz, aos 14 anos, trabalhou como office boy da companhia. Depois, fez um curso de datilografia e começou a ajudar os advogados da Novacap a redigirem contratos, até ser promovido para um cargo de chefia no local, aos 16 anos. Aos 19, foi cursar engenharia civil na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), posteriormente tendo sido aprovado no vestibular da Universidade de Brasília (UnB) para o mesmo curso.  Pedro Henrique de La Roque, filho de Luiz Carlos Botelho, mostra as construções das quais seu pai participou | Foto: Renato Araújo / Agência Brasília “Ele praticamente sustentava a família. Meu avô parou de trabalhar e minha avó cuidava da minha tia, que ainda era pequena”, lembra um dos quatro filhos de Luiz Pedro Henrique de La Roque, 37 anos. Logo Luiz conseguiu um emprego em uma empresa pioneira de Brasília, a Eldorado Construtora. Lá ele foi o engenheiro responsável por construir o viaduto da W3 – que liga a W3 Sul e Norte – , o edifício da Telebrás, os primeiros prédios da Asa Norte e o Clube do Exército de Brasília.   O filho recorda de um episódio triste, mas com um final feliz, sobre o clube. O local pegou fogo, e, com o orçamento apertado, pela primeira vez, Luiz se desesperou. “Um dia, enquanto ele chorava sem saber o que fazer, um ajudante da obra disse: ‘a vida é dura para quem é mole’. Foi o suficiente para ele levar essa frase para o resto da vida”, comenta Pedro Henrique. Com uma “ginástica” financeira, o engenheiro conseguiu o dinheiro para terminar a obra.  [Relacionadas esquerda_direita_centro=”direita”]   Em 1979, Luiz fundou a LDN Empreendimento, com mais dois engenheiros. O nome fazia referência às iniciais dos nomes dos sócios. Após oito anos e com a saída dos outros integrantes, nasceu a construtora LDN. Luiz passou a contar com a ajuda de Pedro Henrique na direção da empresa e, juntamente com toda equipe, fez a restauração do Museu do Catetinho, da sede do Banco Cooperativo do Brasil (Bancoob) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além de construções de embaixadas e outras fora da capital. São cerca de 250 obras espalhadas entre Brasília, Tocantins, Goiás e Mato Grosso do Sul. [Olho texto=”Era como se Brasília fosse a casa deles, que tinham que cuidar porque participaram de toda a construção” assinatura=”Pedro Henrique de La Roque, engenheiro civil ” esquerda_direita_centro=”esquerda “] Pedro Henrique lembra que o pai sempre acreditou no desenvolvimento de Brasília. “Antigamente era bem diferente de hoje em dia. As pessoas tinham muita preocupação com as diretrizes da cidade. Era como se Brasília fosse a casa deles, que tinham que cuidar porque participaram de toda a construção”, recorda. Para o filho, a sucessão dos negócios se deve à honestidade do pai, que faleceu no ano passado por complicações cardíacas. “Ele não desistia nunca e sempre pensava na evolução dos funcionários. Há pessoas que estão aqui há mais de 30 anos e começaram de baixo”, afirma.  Autarquias e tecnologia   Segundo o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Cláudio Queiroz, Rio de Janeiro e São Paulo são a origem da maioria dos empresários que estavam dispostos a montar o negócio na nova capital. “Inicialmente, os primeiros empreendimentos feitos em Brasília eram autarquias do governo, como Banco do Brasil, Caixa Econômica, Clube do Exército, Instituto de Aposentadoria e Pensão”, explica.    Para o docente, tanto os  empresários quanto aqueles que colocavam a “mão na massa” participaram de um grande salto tecnológico na construção civil. “As características das obras eram inovadoras. Eles tiveram uma evolução tecnológica tanto para assumir os prazos de construção quanto para interpretar a arquitetura da época. Cada construtor compreendeu a nobreza da perspectiva de Brasília”, comenta.

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Brasília Palace Hotel – uma história de glamour e badalação

JK e convidados acompanham, pelo rádio, jogo da seleção na Copa de 58 no Brasília Palace Hotel. Ao fundo, painel de azulejo de Athos Bulcão | Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação …E tudo aconteceu por causa de uma cafeteira esquecida e ligada na tomada após uma reunião. Em questão de minutos, um rastro de destruição e caos detonou todo o terceiro andar do Brasília Palace Hotel, um dos primeiros prédios a serem erguidos na nova capital – em 30 de junho de 1958, junto com o Palácio da Alvorada. Era uma madrugada de agosto de 1978 e o incidente fechou por mais de 20 anos o lugar projetado por Oscar Niemeyer. Mas, como uma fênix brasiliense, o espaço se recuperou da tragédia e hoje brilha na paisagem bucólica do Setor de Hotéis e Turismo Norte (SHTN), à beira do Lago Paranoá. “A reforma foi de 100%, aproveitaram só a estrutura de aço. Aliás, o Brasília Palace Hotel foi o primeiro empreendimento do Brasil a ser construído com vigas metálicas produzidas no país. Toda a estrutura de ferro foi mantida, só fizeram algumas recuperações, o restante foi todo reconstruído”, explica Mariana Ramalho, há quase dez anos gerente de operações do hotel. Reerguido com quase todas as suas características originais em 2005, após investimento de mais de R$ 22 milhões de empresas vinculadas ao grupo Paulo Octávio, o empreendimento sofreu uma sutil alteração no desenho pioneiro feito por Niemeyer. Tudo foi acompanhado pelo escritório do arquiteto e seguindo as normas da época. Hoje, o hotel conta com pequenas sacadas que substituíram janelões panorâmicos. “É um projeto do Oscar Niemeyer, um marco”, destaca a gerente. O hotel nasceu de uma necessidade orgânica. Dentro, os móveis antigos, alguns da época do surgimento do local, dão um clima de nostalgia mágica ao espaço. A ideia de Niemeyer era que o local acolhesse, num primeiro momento, os engenheiros, técnicos e arquitetos que aqui chegassem para a construção da cidade, então alojados na Cidade Livre (hoje Núcleo Bandeirante) ou na Vila Planalto. Mas acabou servindo de base, também, para dezenas de visitantes que queriam conhecer, in loco, a grande epopeia faraônica do governo JK. O hotel, inaugurado em junho de 1958, foi uma das primeiras construções da cidade | Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação Baixinho, com seus três andares que lembram a estrutura dos prédios da Esplanada que vieram depois, o Brasília Palace Hotel tinha 135 quartos e foi o primeiro estabelecimento do gênero no Brasil a ter sistema de ar-condicionado. Nos seus anos de glória o lugar possuía, como estrutura, a piscina, quadras de vôlei, tênis e basquete, uma prainha charmosa formada na beira do lago, além de restaurante e dois bares. Os serviços do espaço foram oferecidos antes de sua inauguração, quando recebeu, ainda com as instalações incompletas, o então ditador paraguaio Alfredo Strossner. Era uma emergência. “A dois de maio, Brasília recebe a visita do Presidente do Paraguai, General Alfredo Stroessner, (…), sendo ali realizado imponente banquete em homenagem àquele visitante”, escreve no livro Histórias de Brasília – Um Sonho, Uma Esperança, Uma Realidade, Ernesto Silva, um dos diretores da Novacap. Bailes e festas Concluído e inaugurado, o Brasília Palace Hotel virou referência de glamour e badalação na cidade. Era o espaço de confraternização e convivência dos pioneiros, gente da alta sociedade, políticos e embaixadores. E dos servidores vindos de outros pontos do país, que se encontravam nos bailes e festas no salão principal, um luxo só. Para começar, contava, e conta até hoje, com uma das primeiras obras assinadas pelo artista plástico Athos Bulcão, em Brasília. Com mais de 2m de altura, o trabalho, um mural com influências surrealistas, é bem diferente das intervenções realizadas com os conhecidos azulejos. Painel de Athos Bulcão ocupa lugar de destaque no salão. Espaço foi cenário das primeiras obras do artista na cidade | Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação “As pessoas que acreditavam em Brasília e que vieram para cá não tinham espaços de lazer. O Iate Clube só ficaria pronto no começo dos anos 60, então o Brasília Palace Hotel era o lugar das famílias que chegavam à cidade”, diz a gerente Marina Ramalho. “Durante o dia aproveitava a piscina, havia uma quadra de esporte e acesso ao Lago, que estava em construção. À noite, ocorriam os bailes e aos domingos, a missa”, detalha. Até por conta da posição estratégica, ou seja, de ser um dos poucos lugares de lazer e diversão, natural que o hotel fosse palco de importantes acontecimentos. Além dos bailes de carnavais e festas de réveillon, o espaço foi cenário para o primeiro concurso de Miss Brasília de 1959. O desfile de maiô foi realizado à beira da piscina oval do hotel que, reza a lenda, foi desenhada por Niemeyer nesse formato, porque era Páscoa na época. Tom e Vinícius No mesmo ano, no bar do Palace, Tom Jobim e Vinícius de Moraes tocaram pela primeira vez em público a música Água de Beber, registro pioneiro musical feito na nova capital durante passagem pela cidade. No ano seguinte, 1960, o Palace Hotel foi escolhido para celebrar o Ano Novo Judaico, realizado por centenas de israelitas que vieram trabalhar na construção de Brasília. Apaixonado pelo hotel, o presidente JK, que chamava o lugar de “xodó”, fazia questão de apresentar o Palace às autoridades e comitivas que vinham conhecer as obras de Brasília e, durante os jogos da seleção brasileira no Mundial de 1958, não saia de lá. Há até uma foto clássica dele ouvindo a final da Copa, tendo como fundo, os azulejos de Athos Bulcão. Juscelino não escondia o encanto com o clima calmo, aconchegante e intimista do hotel, destoante dos demais estabelecimentos do gênero no setor. [Olho texto=”Foi a última visita que ele fez em vida à Brasília. Teve algumas surpresas, outras nem tanto. A gente tem uma honra muito grande de ter essa Rural Willys aqui, por conta de toda a simbologia que ela traz” assinatura=”Mariana Ramalho, gerente do hotel” esquerda_direita_centro=”direita”] “A gente brinca que ele é um hotel que sussurra, é muito tranquilo. Se alguém fala num tom mais alto, as pessoas se assustam”, observa a gerente Mariana. “É o lugar ideal na cidade para se hospedar com a família, pelo sossego, pela paz e beleza. Todas às vezes que venho a Brasília fico aqui. É um lugar que realça, em sua plenitude, a história de Brasília”, comenta o servidor público pernambucano Walter Abreu Diniz que, por conta do trabalho, vem pelo menos duas vezes ao mês à capital. Na parte externa do hotel que seguia o modelo de administração nos padrões dos Estados Unidos, é possível o hóspede ou turista ver uma relíquia que pertenceu ao presidente JK. Trata-se de uma Rural Willys com a qual ele veio à cidade, às escondidas, em 1972, já que era um político caçado pelos militares. Contam que, na época, ele desembarcou de avião em Luziânia, seguindo, à paisana, no veículo em comitiva até a cidade que sonhou criar. Nessa Rural Willys, Juscelino Kubitschek visitou Brasília pela última vez. O carro é uma das atrações do espaço | Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação “Foi a última visita que ele fez em vida a Brasília. Teve algumas surpresas, outras nem tanto. A gente tem uma honra  grande de ter essa Rural Willys aqui, por conta de toda a simbologia que ela traz”, diz, emocionada, a gerente Mariana Ramalho. Nobres e astros da música A lista de hóspedes que já passaram pelo Palace Hotel chama a atenção pelo ineditismo, elegância e diversidade. Símbolo do luxo, da cultura e do poder dos anos 60, o espaço serviu de pouso para a realeza mundial. Quando tudo em Brasília ainda era um canteiro de obras e poeira a perder de vista, estiveram por aqui, entre outros, o príncipe Misaka, do Japão, em junho de 1958; o príncipe Bernhard, da Holanda, em janeiro de 1959; além da duquesa de Kent, da Inglaterra, em março do mesmo ano. Em abril de 1959, o comandante cubano Fidel Castro passou pela cidade, visitou o Palace, gostou do que viu, mas deixou para descansar o esqueleto em outras padrarias. Convidado pelo presidente Jânio Quadros para receber uma condecoração, em agosto de 1961, o colega de farda e ideologia, Che Guevara, ficou hospedado no apartamento 305. Estrelas da nossa música como Roberto Carlos, Wilson Simonal, Chico Buarque, Odair José e os comediantes Mussum e Zacarias desfrutaram do conforto e charme do espaço. Então no auge da carreira, ainda curtindo os louros do sucesso do disco Gitá, lançado um ano antes, o roqueiro Raul Seixas pernoitou no quarto 231, em junho de 1975. No mesmo ano, em novembro, Ney Matogrosso, no ápice da carreira solo, após arrebatar o país à frente dos Secos & Molhados, fez um show à meia-noite no Golden Room do Hotel. À frente de uma equipe de 40 pessoas responsável pela limpeza e organização dos hoje 156 quartos do Brasília Palace Hotel, a governanta Rosimaria Rodrigues não esconde a satisfação de trabalhar num lugar com uma história tão bonita com a cidade. Ela conta que um dos momentos mais marcantes ali foi quando recebeu a seleção brasileira durante a Copa de 2014 e a musa das passarelas, Gisele Bündchen. “É sempre um grande prazer receber a clientela do estabelecimento, tenho orgulho de trabalhar num lugar com a importância que tem o Brasília Palace Hotel”, resume.

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Festa dos Estados matou a saudade de pioneiros longe de casa

Festa foi um dos mais tradicionais eventos de Brasília. Frequentadores curtiam a comida, a história e a cultura dos estados de origem Foto: Arquivo Público No frio congelante de junho, em uma Brasília ainda despelada, a festa rolava solta. Em barraquinhas estilizadas, os candangos se reuniam para matar a saudade de casa, mesmo de longe. A Festa dos Estados mobilizava toda a nova capital com sua passagem direta para qualquer lugar do país por meio de comida, bebida e cultura. História, tradição e saudosismo marcam a celebração que se transformou no principal evento cultural e turístico da cidade. Além de tudo, era realizada com o nobre fim de ajudar uma entidade com fins filantrópicos, a Casa do Candango.  O evento surgiu lá pelos idos do nascimento de Brasília. Foi organizado para captar recursos e manter as creches e os abrigos da Casa do Candango, criada para amparar os mais necessitados na época do surgimento da capital. O encontro tornou-se indispensável. Seu auge ocorreu entre 1960 e 1980, quando a diversidade dos moradores e a saudade da terra natal eram retratadas nas barracas que representavam todos os estados brasileiros.   [Olho texto=”Era lugar de encontrar os amigos, de paquerar, de lembrar de casa. Naquela época não havia restaurantes regionais como hoje. A gente só podia encontrar comida típica nesses eventos” assinatura=”Carlos Eduardo Monteiro, filho de uma das fundadoras da Festa dos Estados” esquerda_direita_centro=”esquerda”] A primeira edição foi realizada em 1961, no formato de festa junina na entrequadra da 105 Sul, em frente ao local conhecido como Bloco 5. Cada barraca tinha motivos de uma unidade da Federação, com o que melhor representava sua cultura, costumes e culinária trazidos e bancados pelos governos estaduais. Os trabalhos eram completamente voluntários e a entrada, gratuita.  A festa era sempre na última semana de junho, quando o frio mais castigava a população e a “fumaça” saía das bocas dos frequentadores. Isso, porém, não desanimava ninguém. Saíam dos armários as melhores roupas, com direito a luvas, cachecóis e até ponchos, que marcaram época e um período. Os candangos, espalhados pelos acampamentos, compareciam em peso. Era momento de lazer.  Filho de Yolanda Monteiro, uma das fundadoras da Festa dos Estados, Carlos Eduardo Monteiro lembra, emocionado, de detalhes da atração. Na primeira, ele foi o padre da quadrilha. Foto: Paulo Tavares/Agência Brasília Filho de Yolanda Monteiro, uma das fundadoras da festa, Carlos Eduardo Monteiro recorda, emocionado, detalhes da atração. “Era lugar de encontrar os amigos, de paquerar, de lembrar de casa. Naquela época não havia restaurantes regionais como hoje. A gente só podia encontrar comida típica nesses eventos”, conta o advogado que chegou à capital aos oito anos. A mãe manteve na parede de casa lembranças da festividade até seus últimos suspiros. Era nostalgia pura. Na barraca do Amazonas, em época de zona franca, clientes faziam filas para comprar calças jeans. Porco no rolete só era encontrado no espaço do Paraná. Quadrinha era figurinha carimbada na de Sergipe. Vatapá e Caruru apenas na Bahia do quadradinho. E, assim, todos eram levados de volta para casa pelo paladar. Ou conheciam novos lugares dessa maneira. Em certo momento, começaram a chegar representantes de países como Japão e Estados Unidos, que, mais tarde, fariam a Festa das Nações. [Relacionadas esquerda_direita_centro=”direita”] “Como naquela época havia dificuldades dos alimentos chegarem em Brasília, o governo emprestou aviões para os responsáveis pelas barracas trazerem ingredientes de cada estado. Assim, era possível fazer as comidas típicas”, conta Monteiro. Como contrapartida da ajuda dos estados, parte do arrecadado era enviado ao local de origem. Nos anos áureos, cada estande contava com a primeira-dama de seu estado, responsável pela divulgação do lugar. Eram as “Patronces”. Pelo que lembra Carlos Eduardo Monteiro, não era de graça: elas buscavam votos para seus maridos candidatos. A atuação diminuiu depois que os moradores da capital passaram a votar no território do Distrito Federal.   Festa dos Estados fez a alegria dos candangos na nova capital. Foto: Acervo/Casa do Candango Ficou pequeno Com sucesso absoluto, os espaços ficaram pequenos e a festa foi migrando. Da 105 Sul, passou para a 107 Sul, em um grande descampado. Depois, passou a ser realizada atrás do Cine Brasília, na entrequadra 106/107 Sul. O Setor Hoteleiro Norte também foi palco da festividade, quando nada tinha, em um Centro de Convenções construído em madeira em formato arredondado.  Estrutura de formato redondo (à esquerda), no Setor Hoteleiro Norte, também foi palco da festividade. Foto: Arquivo Público Por vários anos, o evento tomou conta da área próxima à Torre de TV, entre a feira e a Funarte. Por fim, funcionou no Pavilhão do Parque da Cidade, que teria sido criado exatamente para esse fim porque gastava-se demais com a estrutura de madeira montada todo ano pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap).  Parte da história A pioneira Terezita Braga Telles foi líder de barracas. Colaboradora da Casa do Candango, ela tratava com as autoridades os detalhes da organização. “Surgiu como reunião das esposas das autoridades e se tornou o congraçamento de todos os estados do país”, define. Nascida em Belém (PA), ela se mudou para o Rio de Janeiro ainda na infância, onde cresceu e casou-se. Ela mudou-se para Brasília na época da construção.  “Era uma beleza. Os hotéis ficavam lotados de tanta gente que vinha prestigiar a festa”, conta. Aos 81 anos, com a saúde debilitada, Terezita se emociona ao lembrar do evento. Sua parte preferida, garante, eram as atrações locais trazidas para se apresentarem na capital. “Certa vez o violeiro Almir Sater veio do Mato Grosso do Sul. Ele pegou um versinho meu e pediu para musicar. A música ficou linda!”, recorda.  A pioneira Terezita Braga Telles foi líder de barracas na Festa dos Estados. Foto: Paulo Tavares/Agência Brasília Em entrevistas concedidas ao Programa História Oral do Arquivo Público do DF, pioneiros contaram suas experiências com a festividade. Waldemar Alves de Magalhães chegou à então futura capital em 1957: “Eu tive a felicidade de colocar nome nas duas barracas que estavam diretamente sobre a minha administração. Os outros também foram colocando os nomes das origens de cada estado, daí surgiu o nome da festa”, revelou.  Maria Victoria Moreira Caldas foi funcionária da Companhia da Nova Capital, onde atuou como secretária de Israel Pinheiro. Ela contou que a temperatura baixa castigava os frequentadores: “Os estados todos participavam e países também. A festa era boa, durava a noite inteira. Agora, era um frio danado, a gente tinha que tomar quentão”, lembra.  Atual vice-presidente da Casa do Candango, Margarida Kalil lembra da importância política, social e econômica que o evento tinha na capital. A última festa foi realizada em 2013, mas longe da representatividade que alcançou nas primeiras décadas. “Era um grande encontro do povo brasiliense, onde todos os estados se agregavam com os fins mais nobres possíveis”, define.  

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As mulheres que ajudaram na construção de Brasília

Foto: Arquivo Pessoal Quando saíram do aconchego de suas casas, Marilda Porto, aos 18 anos, e Elvira Barney, aos 22 anos, não sabiam o que enfrentariam na construção de uma cidade em meio ao cerrado. Poeira, mato, desconforto e solidão eram alguns dos desafios que cercavam as pioneiras de Brasília. Apesar das dificuldades, as recém-casadas e muitas outras mulheres não deixaram o desafio de ficar e ajudar na fundação da nova capital do Brasil, inaugurada em 1960. Marilda, 80 anos, desembarcou em Brasília em 1958. Nascida em Rio Verde, Goiás, ela afirma que não se importou com a “poeira barrenta” que estava por toda parte da cidade. “Eu tenho uma impressão totalmente diferente das pessoas que vem de um centro maior. Nasci e fui criada no interior, então eu não me incomodei porque já era acostumada. O Juscelino [Kubitschek] estava trazendo desenvolvimento para o interior do país e olha o que o Brasil virou a partir disso”, justifica. Marilda Porto veio para Brasília em 1958, aos 18 anos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília Ela foi casada durante 60 anos com Edson Porto, primeiro médico a fazer atendimento na nova capital da República. Ele faleceu em setembro do ano passado aos 86 anos devido a um câncer no pulmão. Junto com o pediatra, Marilda teve cinco filhos, 12 netos e dois bisnetos. “Nos conhecemos em uma festa em Goiânia. Aqui não tinha mulheres, só operários. Nos casamos após dez meses de namoro”, lembra. Como a casa que moravam era perto do hospital, a pioneira conta que tinha acesso a água e luz e que fazia questão de ajudar e dividir com quem não tinha acesso às necessidades básicas. Conhecida como primeira dama pelos operários, Marilda acompanhava Edson nos plantões. “Eu ia ficar sozinha? Lá tinham duas camas, entrava e saia enfermeira, mas eu não me importava e continuava dormindo”, recorda-se aos risos. [Numeralha titulo_grande=”1958″ texto=”É o ano que Marilda Porto mudou-se para o que seria a nova capital” esquerda_direita_centro=”esquerda”] Entre tantas histórias que marcaram a vida de Marilda, a pioneira não esconde a emoção ao falar da trágica morte de uma médica, que era querida por todos os moradores. “Fazíamos piqueniques em volta de um dos rios da cidade, pois o Lago Paranoá ainda não existia. Ela não sabia que estava grávida, teve uma tontura, bateu a cabeça na pedra e acabou sendo levada pela água”, lamenta. Por conta de tantos acontecimentos significativos, a pioneira acredita que amadureceu muito rápido. “Com 18 anos já tinha visto de tudo no hospital. Chegavam pessoas queimadas, com pernas que precisavam ser amputadas. Eu acho que foi bom para a minha vida. Eu não tenho medo de nada hoje em dia”, garante. Marilda acredita que estava predestinada a vir para a capital, pois no dia do aniversário dela, 18 de fevereiro, foi assinada a escritura de transferência da região de Brasília para a União. “Meu padrinho, que era senador na época, foi um dos que assinou o documento, enquanto eu não imaginava que isso estava acontecendo. Não tínhamos televisão, jornal”. Leia também: Patrimônio Cultural da Humanidade: os bastidores de um título Da antiga para a nova capital Diferentemente de Marilda, Elvira Barney, 80 anos, teve que criar coragem para contar a família e aos amigos que sairia do Rio de Janeiro para morar em Brasília. “Foi uma aventura, pois eu tinha apenas dez dias de casada. As pessoas achavam que eu era louca, mas eu tive uma surpresa enorme quando cheguei aqui: tinha até lago”, conta aos risos. Ela é casada com César Barney desde 1961, um dos arquitetos que ajudou na construção da nova capital do Brasil. Ele é colombiano e estava terminando o curso nos Estados Unidos quando foi convidado para participar do projeto de Juscelino Kubitschek. Os dois tiveram três filhos e três netos. Elvira Barney é casada com o colombiano César Barney, um dos arquitetos um dos arquitetos que ajudou na construção de Brasília. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília A decoradora lembra que mesmo após um ano da inauguração, Brasília tinha praticamente só terra. “Fomos um dos primeiros moradores do Lago Sul. Naquela época tinham quatro ou cinco casas de ministros”. Após conseguirem construir uma residência, o casal ofereceu um jantar para o embaixador da Colômbia. Na véspera do evento um tigre, cujo o nome era Gilberto, escapou do zoológico e se “acampou” nas redondezas da região. “Metade do [Palácio do] Itamaraty e embaixadores estavam lá. Tinham bombeiros na minha porta e guardas caçando Gilberto porque ao redor da minha casa não tinha sequer uma cerca. Graças a Deus foi tudo um sucesso. Até às 3h da manhã tinha gente dançando”, disse aliviada. Cerca de quatro anos depois, após começar a ter filhos, veio o desespero. “No Rio de Janeiro tinha tudo e aqui nada. Quando eu tinha que fazer compras tinha que ir até Goiânia. Não conhecia os pediatras daqui. Me deu vontade de voltar para o Rio de Janeiro, mas foi momentâneo”, garante.   Condições Segundo a coordenadora do Instituto de Pesquisa Aplicada da Mulher (Ipam), Tânia Fontenele, a grande maioria das mulheres vieram para Brasília acompanhar os maridos. “As condições eram precárias. A cidade estava sendo construída e não tinha urbanismo, então os acampamentos eram de madeira, muitos moradores não tinham acesso a água e luz”, explica. Marilda, Edson Porto e a primeira filha deles. / Foto: Arquivo pessoal A também cineasta lembra que as mulheres daquela época eram voltadas para as questões do lar e que algumas delas, especialmente as que eram casadas com trabalhadores da classe operária, sentiam na pele a solidão. Para Marilda Porto esse sentimento não existiu. “Formamos uma família com todos os funcionários que vieram de várias partes do país. No dia da inauguração de Brasília não fomos no Palácio [do Planalto] dançar. Não tínhamos condições de mandar fazer um vestido. Comemoramos no nosso ‘barraquinho’, cantando, tocando”, enaltece. [Olho texto=”No dia da inauguração de Brasília não fomos no Palácio (do Planalto) dançar. Não tínhamos condições de mandar fazer um vestido. Comemoramos no nosso barraquinho, cantando, tocando” assinatura=”Marilda Porto ” esquerda_direita_centro=”direita”] Elvira Barney concorda com Marilda. “Havia uma grande cordialidade e entrosamento. Uma ajudava a outra. Se tinha uma festa você não precisava convidar muita gente porque um chamava o outro e ninguém se incomodava. Todo mundo era sozinho e não tinha nada para fazer”. Esquecimento Pesquisadora das memórias femininas da construção de Brasília, Navarro destaca que o papel das mulheres foi menosprezado pela história ao longo do tempo. “Isso ocorre devido a construção social que vivemos até hoje. No final da década de 50 quase não era permitido mulheres ocuparem espaços públicos, trabalharem”, comenta. Ela cita a trajetória de Mercedes Parada, desenhista que veio do interior de Goiás acompanhar o marido, o engenheiro Joffre Parada. “Ela participou diretamente na elaboração dos mapas de Brasília, mas nos registros foi esquecida. É uma injustiça histórica”, constata. A coordenadora do Ipam ressalta que as pioneiras de Brasília estavam muito à frente de seu tempo e que foram essenciais no processo de construção da nova capital da República. “Foram desprendidas ao aceitaram o desafio de vir para uma cidade que ainda estava sendo construída. O apoio delas aos trabalhadores foi fundamental para que sobrevivessem em um local que não tinha conforto, lazer. Geralmente todos vinham de regiões pequenas das quais todos conheciam vizinhos e aqui tiveram que construir as relações com o tempo”.

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Bernardo Sayão – um herói do Cerrado

Apaixonado por estradas, desbravador por natureza, o engenheiro foi fundamental na construção da rodovia Belém-Brasília. Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação Foi há 60 anos. Quando nasceu o primeiro herói da construção de Brasília. E ele pagou caro por isso, morrendo cedo, aos 57 anos, de forma trágica, bem no meio da selva amazônica. E, por se tratar de Bernardo Sayão, foi uma morte épica. Esmagado por uma árvore gigantesca, há poucos dias dele e sua equipe de bravos homens concluírem a confluência das frentes de desbravamento norte e sul da rodovia Belém-Brasília, lá na fronteira entre o Pará e o Maranhão, no limite entre as regiões Norte e Nordeste. Parecia o fim do mundo, mas era o Brasil. O Brasil de Juscelino Kubitschek e aquele distante 15 de janeiro de 1959 entraria para a história da cidade, do país. “Ele foi tratado como o primeiro grande ícone de Brasília, a história perfeita do herói trágico”, reflete o jornalista Sérgio de Sá, neto de Bernardo Sayão, que acaba de começar um livro sobre essa figura emblemática do surgimento da cidade. Se tudo der certo, o projeto será lançado no aniversário de 60 anos da capital, em abril de 2020. “É uma vontade que tenho há muito tempo, não é uma biografia, prefiro chamar de perfil biográfico, meio livro-reportagem e, claro, vai entrar a parte afetiva”, antecipa. Para concluir a obra, além de muita pesquisa norteada por matérias jornalísticas e centenas de fotos, Sérgio de Sá já traçou no mapa brasileiro uma aventura pessoal. Vai percorrer a Belém-Brasília de cabo a rabo, refazendo os trechos que seu avô abriu até chegar à cidade maranhense de Açailândia, município próximo ao local do acidente que tirou a vida do pioneiro. Esse road movie sentimental carregará nas entrelinhas abordagem jornalística com pegada antropológica. “É uma viagem em ‘busca do avô perdido’”, conta. “Vou subir até aonde tem o marco sinalizando onde ele morreu, mas vou como jornalista, atrás de histórias, descobrir que estrada é essa hoje, atualizar a Belém-Brasília, sempre linkando a imagem dele ao longo da rodovia, porque depois da construção da capital, talvez a Belém-Brasília seja a obra mais importante dessa aventura de JK”, observa. Bandeirante moderno E foi mesmo. Tão importante que ela, a estrada, sozinha, explica, na essência, o porquê do presidente Juscelino Kubitschek insistir em trazer a nova capital para o coração do Brasil. Para ligar os estados, promover a integração nacional, enfim, levar o desenvolvimento para todos os rincões desse país continental. Com pavimentação concluída no governo Médici (1969 – 1974), esses objetivos foram alcançados. Tudo graças ao esforço, determinação e coragem de um homem: Bernardo Sayão. Com imagem bastante associada ao Brasil Central, muita gente até hoje acha que o gigante pioneiro era goiano. Nunca foi. Carioca do bairro Tijuca, remador do Botafogo de Futebol e Regatas, jogador de peteca dos bons no Posto 2 da praia de Copacabana, dono de uma rede de pesca no Posto 6, fincou raízes na terra de Bernardo Élis e Cora Coralina por opção. Chegou aqui nos anos 40, a pedido de outro presidente, Getúlio Vargas, com a missão, no embalo da “marcha para o Oeste”, de implantar em Ceres, Colônia Agrícola que, de certa forma, seria o embrião do surgimento da Belém-Brasília. [Olho texto=”Abrir uma estrada que cortasse o país inteiro de norte a sul era um sonho juvenil de Bernardo Sayão, ele era muito grato a JK pelo comando desse projeto” assinatura=”Ronaldo Costa Couto, jornalista e historiador” esquerda_direita_centro=”esquerda”] “Abrir uma estrada que cortasse o país inteiro de norte a sul era um sonho juvenil de Bernardo Sayão, ele era muito grato a JK pelo comando desse projeto”, comenta o jornalista e historiador Ronaldo Costa Couto, que está finalizando também um livro sobre esse grande desbravador brasileiro num projeto que consumiu quinze anos de pesquisa. “Eu tinha esse compromisso com o Bernardo Sayão, sempre me impressionei com sua figura, um personagem fascinante e surpreende da história de Brasília e do país”, destaca o escritor, que entrevistou mais de 100 pessoas. Bernardo Sayão tinha tanto prestígio em Goiás e seus trabalhos foram tão bem-sucedidos na região que, em 1954, chegou a vice-governador do Estado. Na verdade, governou os goianos por alguns meses, mas, genuíno homem de ação, achava aquela rotina de paletó, gravata, carimbo e papéis um tédio. Se havia uma coisa que o deixava desnorteado, angustiado, era o dia a dia de um escritório e sua teia de burocracia. O que não impediu que, em 1956, assumisse uma das diretorias da Novacap – a Administrativa -, que naquela época ficava no Rio de Janeiro. Antes de abraçar as obras em Brasília, Bernardo Sayão assumiu a direção administrativa da Novacap, que no começo de Brasília, era sediada no Rio de Janeiro. Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação Mas por pouco tempo porque JK, ciente de seu dinamismo nas frentes de trabalho, na liderança de homens nos canteiros de obras, o queria em Brasília. Em outro livro que escreveu sobre a epopeia que foi a construção da nova capital, o clássico, “Brasília Kubistchek de Oliveira”, um best seller com mais de 80 mil edições vendidas, Ronaldo Costa Couto conta, com riqueza de detalhes, a chegada de Bernardo Sayão ao cerrado brasiliense. “Que dia o senhor quer que eu esteja aqui?”, perguntou ele a presidente Juscelino que exagera: “Ontem”. No dia seguinte, às 6h da manhã, lá estava Sayão de mala e cuia e duas crianças a tiracolo estacionando em frente ao Catetinho, que começava a ser erguido. “Pronto, chefe, aqui estou para cumprir suas ordens”, se apresentou, montando barraca embaixo da primeira árvore à vista. Paixão Aqui estando, o pioneiro não decepcionou o presidente, os peões que o elegeram líder nato e carismático, enfim, a nação brasileira. Tinha paixão, obsessão por construir estradas. Quando chegou ao Planalto Central, os trechos que aqui haviam eram de terra, ponte só as de improvisos, um perigo! Asfaltou tudo porque achava que as coisas para Brasília como comida, materiais de construção, tinham que vir de perto e muito rápido. Trouxe muita gente de Ceres, Anápolis e Goiânia para a construção da cidade. “Era o homem que implantava as coisas, fazia acontecer. Antes de Brasília, pouca gente sabe, mas ele já tinha deixado sua marca no interior do Rio de Janeiro, no Mato Grosso, no Paraná e foi essencial aqui como um dos primeiros a chegar, no convencimento dos candangos, porque ninguém queria vir para cá”, comenta Ronaldo Costa Couto. “Muito difícil de Brasília ter acontecido sem Sayão”, sentencia. Uma das estradas “rasgadas” por Sayão Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação Os trabalhos de terraplanagem da rodovia Brasília-Goiânia começam com o gigante das estradas em 3 de novembro de 1956. Sob seu comando foram asfaltados ainda o trecho de 120 km entre Brasília-Anápolis e os 280 km que passam por Brasília-Cristalina-Paracatu. Também as saídas para São Paulo e Belo Horizonte, além de levantamento do traçado para rodovia do Nordeste rumo a Barreiras (BA). Os feitos de Bernardo Sayão como desbravador arrojado, tocador de obras e construtor de estradas correu os quatro cantos do Brasil. Mais do que isso, alcançou o mundo. Na prestigiada revista Life, o americano John dos Passos destacou seu estilo enérgico. Nas páginas das Seleções do Reader’s Digest, a jornalista e compatriota Virginia Prewett salientou o porte físico de Hércules do pioneiro. A escritora Rachel de Queiroz era uma admiradora confessa e, anos mais tarde, em 1967, no romance “Quarup”, o escritor Antônio Callado criaria um personagem inspirado em Sayão. “Ele era uma figura que exercia fascínio enorme sobre as pessoas, era como se fosse um imã, foi um dos principais desbravadores deste país, um pioneiro sem igual”, avalia Ronaldo Costa Couto. Para Jk – que nutria por Bernardo Sayão uma amizade fraterna, apesar de se conhecerem há pouco tempo -, o temperamento ativo, diligente desse bandeirante moderno com ares de Tarzan de uma selva de pedra que emergia do nada, sintetizava o ritmo da construção de Brasília, andava na cadência acelerada das obras. Rosto queimado de sol, suor escorrendo pela pele morena, passos acelerados sempre em movimento, em constante atividade, o pioneiro era a síntese do Brasil grande. Em Brasília, naqueles anos seminais, o rastro do trator na terra vermelha do cerrado significava rastros de Bernardo Sayão. “Reservava para si as tarefas mais árduas e perigosas e as executavas com seu inextinguível bom humor”, escreveu JK em suas memórias, “Por que construir Brasília”. “A beleza viril do físico privilegiado combinava com invejável formação moral. Era bom por natureza, bravo por instinto”, continuaria. Medo de onça e de índio Mas até os bravos heróis também tombam e quando isso acontece, eis que surge de seus restos, enfim, da figura que se foi um dia, a sombra imponente de um mártir, o símbolo maior de uma causa, um propósito. E, Bernardo Sayão se tornou o grande mito da interiorização da capital do Brasil. Um mito eternizado pela morte trágica no meio da selva amazônica. Reza a lenda que, no começo da Belém-Brasília, os homens estavam com medo de rasgar a estrada no meio da selva porque diziam que ali era o caminho das onças, que os índios iam atacar todo mundo. Desbravador de coragem inabalável, Bernardo Sayão conquistou a confiança dos trabalhadores, impingindo o sentido de dever acima de tudo. No dia em que o estrondo no meio da selva silenciou os trabalhos na região, causando sua morte fatal, cerca de três mil homens estavam embreados mata adentro na missão de concluir a estrada. Trecho próximo do trágico e fatal acidente. Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação Era uma massa fiel de operários que choraram em peso, claro, a perda do líder que ali agora se encontrava agonizando diante de parte deles com o crânio quebrado, fraturas expostas nas pernas e braços, sangue esvaindo aos cântaros. Sayão morreu com a cabeça no colo de um amigo, a bordo de um helicóptero, no leito da tão sonhada estrada prestes a ser finalizada. No dia seguinte ao acidente, dia 16, a notícia da morte do herói pegou todos de surpresa, se espalhou como rastilho país afora, comovendo toda uma nação. Diante da notícia, o presidente Juscelino se desespera, reza, chora. Quando o corpo chegou à cidade, a comoção era geral. O velório, na capela Dom Bosco, e a missa de corpo presente, no Santuário Nossa Senhora de Fátima, ali na 705/905, levou uma multidão de curiosos que queria prestar última homenagem ao pioneiro guerreiro. Como a família não permitiu que se abrisse o caixão, muitos duvidaram que Bernardo Sayão, de fato, havia morrido. Alguns chegaram a dizer que ele havia sido raptado pelos selvagens de uma tribo localizada às margens da Belém-Brasília. “Minha avó não permitiu que o caixão fosse aberto porque temia a dilaceração do corpo. Queria para si a imagem da virilidade”, conta, anos depois, o neto Sérgio de Sá. “Mas ele morreu mesmo, um tio meu teve que fazer o reconhecimento da vala em que ele foi enterrado por conta de uma enchente no cemitério e constatou lá os restos dele”, garante. Campo da Esperança Por uma dessas ironias que só o destino é capaz de pregar, Bernardo Sayão foi a primeira pessoa a ser enterrada no cemitério de Brasília, mais tarde batizado de Campo da Esperança. O mesmo que, menos de dois anos antes, ele havia riscado os seus limites. À beira do túmulo, bastante comovido, JK discursa ciente de que dá adeus não só a um líder carismático querido pelos peões, mas à personificação de um Brasil marcado pela força, aventura e bravura, simbolizada, naquele momento, pela construção de Brasília. “Quando Bernardo Sayão morreu, Brasília era um super canteiro de obra, mas naquele dia a cidade parou para chorar o grande ídolo dos candangos, que ficou órfã dessa grande figura”, destaca Ronaldo Costa Couto. Em 31 de janeiro de 1959, dezesseis dias após a morte de Sayão, as frentes norte e sul finalmente se encontram, dando fim aos 2.240 quilômetros da Belém-Brasília. Uma aventura marcada por perigos e tragédia que, passados 60 anos, ainda habita o inconsciente de milhares de brasileiros. Hoje chamada, merecidamente de Rodovia Bernardo-Sayão, a pista concretizou o sonho de JK de ligar os extremos do país. “Bernardo Sayão foi uma figura maior da história brasileira, era uma força da natureza que tinha grande paixão pelo Brasil”, finaliza Ronaldo Costa Couto.

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Lago Paranoá: a moldura líquida para a capital

Um dos principais cartões postais de Brasília nasceu antes mesmo da capital. Seis décadas antes, na verdade. Chamado de “moldura líquida da cidade” por Juscelino Kubitschek, a ideia de se ter um lago onde hoje existe o Lago Paranoá foi pensada bem antes da eleição do presidente que tirou Brasília do papel e da decisão definitiva de se transferir a capital para o Planalto Central. Foi o botânico francês Auguste François Marie Glaziou o primeiro a perceber o potencial hídrico que alimentava o rio Paranoá. Ele foi um dos integrantes da Comissão Cruls, que visitou a região entre 1892 e 1894. Em seu artigo “Notícia sobre Botânica Aplicada”, presente no relatório parcial da Comissão de Estudos da Nova Capital da União, publicado em 1896 no Rio de Janeiro, Glaziou descreve o relevo da região e aponta as facilidades que a depressão provocada pelo Rio Paranoá e os pequenos rios ao seu redor davam à construção de um lago artificial. “Ele observou o vale formado por um processo de milhões de anos: a erosão causada pelas águas dos rios que passavam ali e desaguavam no rio São Bartolomeu”, afirma Elias Manoel da Silva, historiador do Arquivo Público do DF. “Ele disse que, se represasse a água no local onde ficavam as cachoeiras do Paranoá, era fácil fazer um lago. Bastava fechar o Paranoá”, completa. Cachoeira do rio Paranoá encoberta pelo lago artificial. Fotos: Arquivo Público do DF Em seu relatório, Glaziou comenta que chegou “a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros. Impressionou-me muitíssimo a calma severa e majestosa desse vale. […] Entre dois grandes chapadões na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe imensa planície em parte sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa”. E diz: [Olho texto=”É fácil compreender que, fechando essa brecha, com uma obra de arte, forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos” assinatura=”Auguste François Marie Glaziou” esquerda_direita_centro=”centro”] A arquiteta Angelina Nardelli Quaglia acrescenta que o botânico francês também referenciava um futuro lago como elemento de “aformoseamento para a região, trazendo a admiração de todas as nações”. “O espelho d’água esteve presente desde o início como um importante elemento da topografia a ser inserido ao cotidiano da cidade”, afirma. Depois das duas comissões presididas por Luiz Cruls ainda no século 19, várias comissões foram criadas para estudar a mudança da capital até 1955, quando JK foi eleito e começou de fato a transferência. Todas elas se reportavam às conclusões da Missão Cruls até que, em 1955, um projeto urbanístico da nova capital – elaborado a pedido do marechal José Pessoa, presidente da Comissão de Localização da Nova Capital do Brasil, chamado Vera Cruz –, traz o desenho de um lago. “O lago era pequeno, não tinha as dimensões do de hoje. Era apenas a representação de que a capital teria um lago”, explica Elias Manoel. Certidão de nascimento A certidão de nascimento do Lago Paranoá, no entanto, é do dia 30 de setembro de 1956, o dia da publicação do edital do concurso do Plano Piloto. A criação de um lago era exigência que todos os concorrentes deveriam levar em conta. Assim, todos os 26 projetos apresentados tinham no limite leste a presença de um lago cujo nível das águas era a cota 1.000, ou seja, a superfície do lago ficaria a mil metros acima do nível do mar. Faziam parte da comissão que preparou o edital do concurso, os arquitetos Raul Penna Firme e Roberto Lacombe, os mesmos que tinham pela primeira vez criado o projeto Vera Cruz com a presença do lago artificial. “É bem provável que esses arquitetos conhecessem as sugestões apresentadas no relatório do botânico Glaziou”, diz o historiador do Arquivo Público. Construção da barragem começou em 1957 A presença do lago então é justificada como fator estético e de lazer. Sua construção foi idealizada para aumentar a umidade do ar, diminuir a temperatura local e estabelecer uma fonte de lazer aos brasilienses. A construção da barragem no rio Paranoá começou em 1957 e as obras ficaram a cargo da empresa americana Raymond Concrete Pile Company of the Americas, a mesma que havia vencido a concorrência para entregar as estruturas metálicas dos edifícios da Esplanada dos Ministérios e única empresa estrangeira que trabalhava na construção da capital. Construção da barragem Num contexto em que as obras se guiavam pelo “ritmo de Brasília”, onde, em qualquer dificuldade, criava-se uma solução de emergência, o estilo de trabalho da empresa americana provocava atrasos constantes nas obras de construção da barragem. Juscelino, insatisfeito com o ritmo das obras, rescindiu o contrato e transferiu a responsabilidade pela construção da barragem para a Novacap, que dividiu o trabalho entre as construtoras Camargo Corrêa, Rabello e Engenharia Civil e Portuária. “A firma só sabia trabalhar segundo os métodos e os cronogramas norte-americanos”, dizia o presidente. Para ele, era inconcebível a inauguração de Brasília sem o lago. “Como inaugurar Brasília sem o lago tão amplamente anunciado e que, além do mais, seria a moldura líquida da cidade?”, questionava. Operários que trabalharam na construção da barragem relatam que as comportas foram fechadas sem a represa estar pronta. Inicialmente, obras ficaram a cargo da empresa americana Raymond Concrete Pile Company of the Americas, única empresa estrangeira que trabalhava na construção da capital Vila inundada Apesar dos contratempos, a barragem foi fechada em 12 de setembro de 1959, dia do aniversário de JK. Segundo o historiador Jarbas Silva Marques, a água subia cerca de dois centímetros por dia e, na inauguração de Brasília, o lago estava completamente formado. No local havia um acampamento, a Vila Amaury, onde se abrigavam aproximadamente 16 mil operários da construção. Muitos não acreditavam que o local seria alagado, mas tiveram que sair às pressas quando a água chegou, mais rápido do que imaginavam os especialistas. A Vila Amaury naufragou e hoje suas ruínas podem ser vistas no fundo do lago. O livro “1001 coisas que aconteceram em Brasília e você não sabia”, escrito pelo jornalista Hélio Queiroz, reúne mais de 700 relatos de fatos que aconteceram antes, durante e depois da construção de Brasília. Nele, pioneiros relatam que ”as águas do lago foram subindo e os moradores da Vila Amaury se mudando”. Até fins de 1959, mais de 100 famílias haviam se transferido. As transferências prosseguiram até o começo de 1960, quando as águas do lago cobriram toda a vila. “Encheu, viu!” O argumento de que o lago não iria encher porque as terras do Planalto Central eram porosas foi muito usado pelos opositores a Juscelino e contrários à transferência da capital e à construção de Brasília. Os boatos tinham dois autores principais: o presidente do Clube de Engenharia, Maurício Joppert da Silva, e o escritor Gustavo Corção. “A água do lago poderá ser absorvida pelo terreno, deixando-o vazio, total ou parcialmente”, escreveu Corção em um longo artigo no Jornal do Brasil em julho de 1959. Quando a barragem foi inaugurada e o lago começou a encher, JK mandou um lacônico telegrama a Corção dizendo “Encheu, viu!” Barragem foi fechada em 12 de setembro de 1959 e, na inauguração de Brasília, o lago estava completamente formado

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Atahualpa Schmitz, o dono do asfalto

Atahualpa coordenou as obras do aeroporto de Brasília, nos primeiros tempos da nova capital / Fotos: Arquivo pessoal/Atahualpa Schmitz   Um dos primeiros sujeitos a pisar no chão vermelho de Brasília foi o engenheiro Atahualpa Schmitz Prego. Atualmente com 93 anos e vivendo em um casarão no Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro, sua terra natal, ele conversou por telefone com a reportagem da Agência Brasília. Conta que chegou aqui “no susto”, em outubro de 1956, depois de saber que a empresa na qual trabalhava, a mítica Metropolitana, havia sido contratada para “uns serviços” num lugar inóspito e distante do litoral. Enfim, longe de tudo. Parecia até sinopse do romance Coração das Trevas, de Joseph Conrad. Mas não tinha nada a ver com ficção. “De cara, engenheiros experientes da firma recusaram a proposta; aceitei, depois de muita insistência do chefe”, lembra Atahualpa. “Cheguei a Brasília 20 dias depois da primeira viagem de Juscelino [Kubitschek] à região. Era um cerradão danado. Fui com a condição de levar mulher e filhos, que eram pequenos. Ela [a esposa] era muito prática e corajosa, me ajudou aguentar a dureza do começo”. Engenheiro especialista em malha asfáltica da Companhia Metropolitana de Construção – perita em obras de terraplanagem e pavimentação, com sede no Rio de Janeiro –, ele trouxe na bagagem 31 anos de vida e a experiência de mais de 300 mil metros de estradas pavimentadas pelo país. A primeira missão abraçada já foi épica: construir a pista do aeroporto. Acabou fazendo tudo, inclusive a estação provisória de passageiros, toda de tábuas. “Construímos a pista, o pátio, o estacionamento, o terminal de abastecimento, toda parte norte do aeroporto, que ficou com 3.300 metros por 46 metros, uma média expressiva, mais o prédio da estação”, enumera. Sob seu comando, lembra, labutavam aproximadamente de 60 operários. “Era um bocado de gente que trabalhava em máquinas e nas obras. A pista, que tinha 67 cm de espessura, até hoje está boa”. [Olho texto=”Cheguei a Brasília 20 dias depois da primeira viagem de Juscelino à região. Era um cerradão danado” assinatura=”Atahualpa Schmitz Prego, engenheiro ” esquerda_direita_centro=”direita”] Essas e outras dezenas de histórias acabam de ser reunidas num livro com mais de três mil páginas, intitulado Entrelinhas da Construção – Brasília. A obra, que será lançada em cinco volumes, estará disponível na internet, via loja virtual, e descreve, com a riqueza de detalhes e as delícias das memórias de um verdadeiro desbravador, as aventuras de mais de uma década vividas por aqui.  “Até o momento, já temos as duas primeiras edições prontas”, antecipa o pioneiro. “Gosto muito de Brasília, eu a vi crescendo”, comenta, saudoso. Salvando Leonel Brizola e JK Momentos tragicômicos, heroicos e marcantes dessas sagas candangas, Atahualpa coleciona aos montes. Certa vez, andando de jipe pela cabeceira da pista do aeroporto, viu um avião fazendo pouso de emergência, raspando o chão, entre labaredas de fogo. Logo desembarca um assustado Leonel Brizola (à época, governador do Rio Grande do Sul), prontamente levado por ele a um hospital. Em outra ocasião, para receber o avião de Juscelino Kubitschek, o engenheiro ajudou a iluminar a pista do aeroporto com improvisadas buchas de balão, que foram acesas com estopas lambuzadas de graxa e sebo de carneiro. “Ainda levei uma espinafrada dele, porque o aeroporto não estava pronto”, diverte-se. Mas a construção da pista do aeroporto e de sua primeira sede para passageiros seria só a ponta do iceberg da contribuição que esse pioneiro de primeira ordem deu à cidade. Dos primeiros acampamentos da empresa Metropolitana que montou, na antiga Cidade Livre, nasceu o Núcleo Bandeirante. Também ajudou a escavar o cascalho para a construção do Catetinho, o palácio de tábua, primeira morada de JK em Brasília. Quando riscaram no chão do Cerrado o marco zero de onde brotaria a cidade, lá estava ele. Mas nada se compara à base do primeiro asfalto que cobriu as vias urbanas desenhadas por Lucio Costa para o Plano Piloto. Para esse projeto, Atahualpa desenvolveu rigorosos estudos do terreno, sendo o primeiro a implantar por aqui a técnica de preparo do solo e revestimento. Tudo foi realizado em um laboratório montado na Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap)  –, da qual ele chegou a ser presidente,  por um curto período, em 1962. “Revirei essa terra toda, formei centenas de fiscais de pista especializados em geotécnica”, relembra. “Fiz muita coisa na zona sul da cidade – as tesourinhas, os pontilhões que passam por cima delas. Não gostava, era muito chato e cansativo, mas o Jango [João Goulart, então presidente] me pediu para segurar as pontas até ele indicar alguém politicamente.” Atahualpa também esteve à frente dos trabalhos de pavimentação do Lago Norte, de algumas estradas-parques e de trechos das rodovias BR 060 e 070. [Olho texto=”Revirei essa terra toda, formei centenas de fiscais de pista especializados em geotécnica” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”direita”] Sobrinho de Atahualpa Schmitz, , o jornalista, sociólogo, cineasta e professor de cinema Sérgio Moriconi acaba de gravar depoimentos do tio para utilizar em um documentário. O projeto, ainda em fase bem embrionária, assim como os livros publicados pelo engenheiro pioneiro, vai ajudar a eternizar os feitos de um homem que teve sua vida e alma misturadas ao cascalho batido e ao piche negro que besuntou os milhares de quilômetros do asfalto da nossa cidade. “É uma figura incrível, importante para a história de Brasília, e merece ter sua rica trajetória e relação com a cidade resgatadas”, defende Moriconi. Atahualpa (terceiro a partir da esquerda) / Fotos: Arquivo pessoal/Atahualpa Schmitz

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Joaquim Cardozo, o poeta dos cálculos

Em meados de 2017 a polêmica estava instalada. Afinal, a ponte que liga o Setor de Clubes Sul à Península dos Ministros e Quadra 11 do Lago Sul deveria continuar se chamando Costa e Silva ou mudar para Honestino Guimarães? Foi quando o jornalista e colunista do Correio Braziliense Severino Francisco colocou mais lenha na fogueira. Porque não nomear a estrutura projetada por Oscar Niemeyer em 1967 de Joaquim Cardozo?  A campanha ganharia adeptos de peso. Entre eles, o cineasta Vladimir Carvalho. Mas quem era, enfim, Joaquim Cardozo? “Sem ele os voos rasantes de imaginação riscados por Oscar Niemeyer permaneceriam eternamente no papel. Com audácia e rigor, Cardozo contribuiu decisivamente para erguer prédios e palácios de concreto que parecem mal tocar no chão”, escreveu o jornalista, numa crônica de julho daquele ano. “O encontro de Joaquim Cardozo com Oscar Niemeyer foi um pacto espiritual mediado pela matemática, um consórcio de dois gênios, fechou o tempo”, poetiza o veterano Vladimir Carvalho, em entrevista ao portal da Agência Brasília. E é verdade. Engenheiro calculista pernambucano pioneiro de Brasília, Cardozo foi decisivo para que os rabiscos líricos de Oscar Niemeyer ganhassem forma no pesado e duro concreto armado tão presente nas edificações da cidade. Os dois se conheceram nos anos 40, no extinto Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico e Nacional (SPHAN), hoje Iphan. Especialista em cálculos de estrutura, Cardozo chamou atenção do jovem arquiteto pela inteligência e sensibilidade. Nasceria ali uma amizade fraterna para toda uma vida. O primeiro trabalho que fizeram juntos foi o Complexo da Pampulha, em Belo Horizonte. Para muitos especialistas, Brasília começaria ali. Basta conferir as formas onduladas do projeto para perceber que a engenharia poética de Joaquim Cardozo se fazia presente. Materializar ideias Como pioneiro da nova capital, o engenheiro deixaria um legado inestimável para os traços arquitetônicos de Niemeyer. Porque só ele, diante de alfarrábios quilométricos ou um quadro negro com equações enormes que fariam corar Albert Einstein, calculava e extraia resultados que pudesse materializar as ideias do amigo. E tudo na mão, com ajuda apenas de uma calculadora de engenheiro. Certa vez, Oscar Niemeyer mandou alguns desses projetos para engenheiros com modernos computadores nos Estados Unidos e Japão. Todos sustentaram, categoricamente, que as obras previstas em seus desenhos não ficariam de pé. “Nas mãos do Joaquim Cardozo, as toneladas de concreto e ferro que exigiam os projetos do Oscar Niemeyer se tornavam aladas, leves…”, constata Severino Francisco, também em depoimento ao portal do GDF. “O Oscar fazia suas ‘pirâmides invertidas’ e o calculista que se virasse para pôr aquilo em pé por meio de métricas e escalas matemáticas. Esse era o Joaquim Cardozo”, conta, rindo, Vladimir Carvalho. Curvas metafísicas A participação de Joaquim Cardozo na arquitetura de Oscar Niemeyer é perceptível em detalhes de monumentos marcantes espalhados pela capital. Tal qual uma obra de arte a céu aberto, pode ser contemplada nas colunas sensuais dos palácios da Alvorada e do Planalto, nas curvas metafísicas da Catedral Metropolitana e Igrejinha, na organização uniforme dos arcos do Itamaraty, nas cúpulas perfeitas do Congresso Nacional. Catedral Metropolitana de Brasília: colunas e curvas Aliás, a abóboda invertida da Câmara dos Deputados foi uma novela à parte, um exemplo notável da genialidade do engenheiro calculista. Revestido de três camadas de concreto armado, anéis de compressão, lajes, tirantes e pilares, tudo arranjado dentro de estrutura complexa, o projeto ousado de Niemeyer exigiu uma tangente específica, precisa, para que se concretizar, na prática, do jeito que ali está. Joaquim Cardozo se debruçou dias e noites sobre cálculos quase infinitos, varando madrugadas quando, num belo alvorecer… Eureca! Empolgado, não titubeou. O Sol nem bem havia riscado o horizonte e lá estava o engenheiro acordando o arquiteto para falar sobre a novidade. Poeta que calculava Mas, antes de se perder pelos labirintos e meandros das ciências exatas, Joaquim Cardoso se apaixonou, perdidamente, pelo mundo das artes. Era um poeta que calculava. Ou melhor, um engenheiro amante das letras, íntimo das palavras, autor de textos primorosos tanto na área da poesia, quanto na dramaturgia. Para aqueles que se espantavam com tal incongruência ele tinha a resposta na ponta da língua. Joaquim Cardoso: engenheiro amante das letras, íntimo das palavras “Não visualizo qualquer incompatibilidade entre poesia e a arquitetura. As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias. Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia”, desconversava. Os primeiros versos que escreveu datam do final dos anos 20. Para se ter uma ideia do talento do engenheiro na área, era admirado pelos conterrâneos Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto. O mineiro Carlos Drummond de Andrade também era um fã confesso. Cultura regional Só peças teatrais deixou seis, grande parte delas resgatando aspectos da cultura regional nordestina  – em Recife, há hoje um teatro com seu nome. Contudo, tímido e avesso à badalação, deixou boa parte desse material escondido na solidão escura das gavetas de sua casa ou na intimidade da memória prodigiosa que tinha. O primeiro livro de poesia só seria publicado aos 50 anos, depois de muita insistência dos amigos. “O Joaquim era um autêntico homem da renascença, o nosso Da Vinci, de uma inteligência monumental, poliglota, falava oito idiomas, um gênio, não à toa que o Niemeyer dizia que ele era o ‘brasileiro mais culto que existia’”, destaca o paraibano Vladimir Carvalho, que se apaixonou pela sua obra nos anos 40, ainda menino, lendo jornais onde eram publicadas poesias de Cardozo. “O cara traduzia poesia do sânscrito, seus poemas eram bem fluídos e traziam evocações sentimentais, existenciais e espirituais que influenciaram o João Cabral a escrever ‘Morte e Vida Severina’”, endossa o jornalista e professor Severino Francisco. Tragédia Mas como nem tudo na vida são flores, uma tragédia profissional marcaria para sempre a vida de Joaquim Cardozo. Por sina, coincidência ou osmose, envolvendo outros dois nomes dos tempos de pioneirismo em Brasília: Israel Pinheiro e o amigo Oscar Niemeyer. E, curiosamente, fechando um ciclo que começou em Belo Horizonte, cidade que selaria sua ligação com a nossa capital. Era fevereiro de 1971, governo do mineiro Israel, quando o desabamento do Parque da Gameleira na capital mineira colocaria em dúvida a credibilidade da engenharia civil brasileira. A construção, que contava com a participação do arquiteto e do engenheiro civil, teve os alicerces ruídos e a estrutura de 10 mil toneladas, desabou, matando 69 trabalhadores e ferindo outros 100 operários. Mesmo detectado pela perícia como erro de execução da empreiteira e não de cálculo, Joaquim Cardozo teve seu nome envolvido com a Justiça. Bastante abalado com o episódio, mesmo depois de absolvido do acidente, o engenheiro encerraria suas atividades como calculista, morrendo pobre e deprimido. “Grande humanista que foi Oscar Niemeyer o amparou até os últimos dias”, lembra Vladimir Carvalho. “O Oscar tinha dessas coisas, foi um homem muito generoso e solidário com os amigos”, emenda. Coadjuvante? Sempre colocado em segundo plano ou relegado a mero papel de coadjuvante na construção de Brasília, a importância de Joaquim Cardozo na origem da cidade tem que ser mais exaltada e reconhecida, defende Severino Francisco. Para ele, a arquitetura de Oscar Niemeyer só teve relevância e reconhecimento internacional, graças à ousadia e coragem de Joaquim Cardozo, que peitava as “loucuras” do arquiteto. Estátua de Joaquim Cardozo, na ponte Maurício de Nassau, no centro do Recife: homem de sorriso tímido “É sintomático que poucas pessoas se lembrem do Joaquim Cardozo; muitas, aliás, nem sabem o quanto ele foi importante para a história de Brasília e fundamental nas construções. Não tem estátua, não é nome de praça, ponte, nada”, lamenta Francisco.

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Patrimônio Cultural da Humanidade: os bastidores de um título

Foi uma surpresa. Para especialistas, um marco. Até então, nunca uma cidade tão jovem havia sido candidata a um dos títulos mais emblemáticos reverenciando projetos arquitetônicos e urbanísticos. Nem tão moderna. Pois em 1987, com seus parcos 27 anos, Brasília se inscreveu ao pleito de Patrimônio Cultural da Humanidade, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e levou. Chamou atenção pela singularidade do projeto que unia, em seus traços e contornos, simplicidade e ousadia. Divulgação Até então, a epígrafe imponente  só era destinada a monumentos, grupos de edifícios ou sítios que tinham um excepcional e universal valor histórico, estético, arqueológico, científico, etnológico e antropológico. Ou seja, algo evidentemente muito antigo. Coisas de séculos e séculos passados. E coloca passado nisso. Quer ver? Entre as preciosidades da humanidade que foram agraciadas com tamanho privilégio, estão as pirâmides do Egito, a imponente Muralha da China, a Acrópole de Atenas (Grécia) e o Palácio de Versalhes (França) com seu suntuoso parque. Enfim, a história com “H” maiúsculo. “Foi algo incrível, excêntrico e até inexplicável. Depois do início da construção, em abril de 1957, e da inauguração, em 21 de abril de 1960, com certeza foi a data mais importante. Brasília Patrimônio Cultural da Humanidade foi um divisor de águas”, frisa o jornalista Silvestre Gorgulho.  Ex-secretário de Cultura de DF nos anos 2007-2010 e então secretário de Comunicação de José Aparecido – o governador que teve a iniciativa de encampar a proposta do título nos anos 1980 -, Gorgulho acompanhou bem de perto todo o processo e conhece como poucos os bastidores dessa conquista. “Não foi fácil. A Unesco é extremamente conservadora ainda hoje. O representante dos Estados Unidos era contra este título para Brasília. Era uma decisão inédita”, recorda. A ideia de buscar a preservação e o tombamento nasceu quase com o surgimento da cidade. Em junho de 1960, com dois meses da capital federal inaugurada, talvez assim por um passe de mediunidade ou mágica, JK já começou a atuar nesse sentindo. Num bilhete ao seu conterrâneo Rodrigo de Melo Franco de Andrade, então presidente do Sphan (o antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, hoje Iphan), ele pediu medidas em relação à preservação do Plano Piloto. Visionário que um dia sonhou com a construção da cidade, JK já previa e temia a força da especulação imobiliária. Daí o zelo da iniciativa. “Juscelino e José Aparecido deixaram um legado histórico em relação a Brasília, mesmo sofrendo incompreensões, forte oposição e até intolerâncias descabidas: um construiu a nova capital e o outro conseguiu fazer de uma cidade de apenas 27 anos Patrimônio Cultural da Humanidade”, exalta Gorgulho. Jeitinho brasileiro Lucio Costa Só em 1981, com a criação de um grupo de trabalho sob a batuta do então secretário Nacional da Cultura, Aluísio Magalhães, o tema da conservação de Brasília como patrimônio viria à tona novamente de forma oficial. Coordenado pela arquiteta Briane Panitz Bicca, o GT Brasília, então formado por representantes dos ministérios da Cultura e Educação, juntamente com membros da Universidade de Brasília (UnB), abordaria, pela primeira vez, “de forma culturalmente sistematizada e politicamente institucionalizada, a questão da memória da cidade”, levando em consideração o estudo patrimonial de toda a área do DF. Dois anos depois, em 1983, esse mesmo grupo propôs uma série de medidas sobre o tema como a elaboração, no prazo de um ano, de um Plano de Preservação do Patrimônio Arquitetônico e Paisagístico com perímetros definidos. A área incluía o Plano Piloto, Brazlândia e Planaltina, além da criação de uma Comissão Consultiva do Patrimônio Arquitetônico e Paisagístico do DF. Foi baseado nesses estudos publicados num relatório-síntese em 1985, que o governador José Aparecido, mediante exigência da Unesco de que, para conseguir o título, a cidade precisava se amparar numa lei específica de abrangência nacional para proteger seu valor histórico, baixou um decreto em outubro de 1987, regulamentando a preservação da concepção urbanística da cidade. Assim, a Lei nº 10. 829, regulamentada sob medida para tal propósito, estabelecia “uma sistemática diferenciada, por meio do controle das quatro escalas que seriam apanágio do Plano Piloto” – monumental (a do poder), gregária (dos setores de serviços e diversão), residencial (das superquadras) e bucólica (das áreas verdes). Isso, na prática, configura a famosa imagem do avião numa área que começa a leste pela orla do lago Paranoá, indo a oeste pela Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia), passando pelo sul através do córrego Vicente Pires até o córrego Bananal. Ou seja, tudo que diz respeito apenas ao projeto urbanístico, à escala urbanística criada por Lucio Costa – e não os prédios e edifícios -, era reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade. As obras arquitetônicas de Niemeyer receberiam tombamento individuais anos depois. Ou seja, tudo que dizia respeito apenas ao projeto urbanístico, à escala urbanística criada por Lucio Costa – e não os prédios e edifícios -, era reconhecido como Patrimônio Cultural da Humanidade. As obras arquitetônicas de Niemeyer receberiam tombamento individuais anos depois. Arquivo pessoal/Silvestre Gorgulho Legado O tombamento de Brasília pelo Iphan – então denominado Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural (IBPC) -, viria em março de 1990, coroando todo esse processo de reconhecimento da cidade como Patrimônio Cultural da Humanidade. Para a arquiteta e urbanista Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, isso só aconteceu, graças à habilidade de gestor do governador José Aparecido, o homem que se empenhou de corpo e alma para que Brasília conquistasse o título concedido pela Unesco. “O tombamento pelo Iphan, a meu ver, só aconteceu porque o governador (José Aparecido) teve a mineira sabedoria de propor primeiro à Unesco que Brasília fosse considerada Patrimônio da Humanidade. E a Unesco respondeu que ela só protegia bens que fossem protegidos pelo próprio país. Aí o Iphan tombou!”, avalia Maria Elisa. Entre os legados conquistados por essa honraria internacional, na opinião da herdeira daquele que esboçou traços do gesto primário “de quem assinala um lugar ou dele toma posse”, Maria Elisa Costa, destaca, primeiro, o resgate da figura do pai. Depois, a “descoberta” da existência de um Brasil interior. “Isso aconteceu no tempo do governo José Aparecido, que trouxe Lucio de volta a Brasília. Com esse reconhecimento, também se ‘descobriu’ o ‘Brasil’ longe do litoral, se teve acesso ao seu interior”, destaca a arquiteta e urbanista, que defende o ensino da história de Brasília nas escolas. “O reconhecimento internacional é óbvio, nunca aconteceu nada sequer parecido em outro lugar. O mais importante é o reconhecimento ‘doméstico’. A história de Brasília tem que ser contada no ensino básico”, defende. Em dezembro de 1987, quando soube que a Unesco anunciou oficialmente a decisão de conceder o título de Patrimônio Cultural da Humanidade à cidade, o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro, com a verve lírica que lhe era tão peculiar, elogiou assim, por meio de um bilhete, o feito tão almejado pelo amigo e conterrâneo mineiro José Aparecido. “Você cravou hoje uma lança na Lua!”. Nunca Brasília esteve tão nas alturas, tão perto das estrelas… * Bilhete de JK a Rodrigo do Melo Franco “Rodrigo, a única defesa para Brasília é a preservação do Plano Piloto. Pensei que o tombamento do mesmo pode constituir elemento seguro, superior à lei que está no Congresso e sobre cuja aprovação tenho dúvidas. Peço-lhe a fineza de estudar esta possibilidade ainda que focando um pouco a interpretação do Patrimônio. Considero indispensável uma barreira às arremetidas demolidoras que já se anunciam vigorosas. Grato pela atenção. Abraço, Juscelino. Brasília 15.6.1960.”

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Marianne Peretti, a artista que deu forma a monumentos de Brasília

Vitrais da artista plástica Marianne Peretti na Catedral Metropolitana de Brasília. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília Única mulher na equipe de Oscar Niemeyer na construção da nova capital, a artista Marianne Peretti deixou sua marca nos exuberantes 2.240 metros quadrados de vitrais da Catedral. São 16, de 30 metros de altura, nas cores azul, verde, branco e marrom. No Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente do Brasil, suas obras estão localizadas na sala de visitas – onde há um painel feito em camadas de vidro e de metal – e na capela do Jaburu, também agraciada com vitrais de Marianne. Os traços de Peretti se espalham, ainda, pelo Congresso Nacional. No Salão Branco não há como não perceber o painel Alumbramento, doado em 1978 ao Senado Federal. No Salão Verde é exibida a obra Araguaia. As cores e formas de seus vitrais estão também no Salão Nobre, onde pode ser apreciado o vitral Phasifae. No 10º andar do Anexo IV da Câmara dos Deputados, suas mãos foram as responsáveis pelos vitrais da capela. Também na Casa Legislativa, outra obra de destaque: um painel com sobreposição de camadas de vidro, de 1977. A fachada do Superior Tribunal de Justiça ficou ainda mais bela com um painel gigantesco de Marianne Peretti. No Memorial JK, o encantamento de suas figuras pode ser visto em um vitral sobre o túmulo do ex-presidente Juscelino Kubitschek. No Panteão da Pátria Tancredo Neves, a figura de um pássaro ganhou a leveza de suas mãos. [Olho texto=”No Memorial JK, o encantamento de suas figuras pode ser visto em um vitral sobre o túmulo do ex-presidente Juscelino Kubitschek. No Panteão da Pátria Tancredo Neves, a figura de um pássaro ganhou a leveza de suas mãos.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=””] Famosa por revolucionar a arte dos vitrais com perfeccionismo, Marianne Peretti também contribui com a arte brasiliense com esculturas de bronze no foyer da Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Foi pelas mãos da artista que surgiram outros grandes feitos, como a grande escultura de bronze do Teatro Nacional de Brasília. E não somente Brasília foi agraciada com suas criações. O Museu do Carnaval, no Rio de Janeiro, tem a mão da artistas, que também fez esculturas e vitrais em Recife, Belém e Paris, capital da França. Admiração O professor de arte e artista plástico Newton Schenfler reconhece a importância de Marianne. Para ele, não há como ser professor de arte e artista plástico, morar em Brasília, e não admirar e ser tocado pelas obras de tantos artistas que compõem a paisagem estética de nossa capital. Para contar como ela iniciou os trabalhos com a arte, Schenfler cita uma declaração da própria Marianne Peretti para o blog Recife Moderno. “Eu não me lembro bem, realmente não lembro. Talvez uma coisa que tenha me ajudado é que, uma vez, um pintor veio em minha casa fazer um retrato da minha mãe. Eu era muito pequena, devia ter uns oito anos, e olhando ele desenhar minha mãe para um quadro pintado a óleo, logo me interessei. Não fiz belas artes, fiz artes decorativas”, confessou. E completa: “Minha mãe pensava que eu ia todo dia ao liceu, mas, na verdade, eu ia desenhar num lugar chamado La Grande-Chaumière. Ficava o dia inteiro lá. Depois de um momento, naturalmente, ela percebeu e achou que eu fosse repetir o ano…(risos). Uns amigos diziam, ‘deixa ela desenhar, fazer como ela quer’. Eles me salvaram”, disse ao blog. Vitrais de Marianne Peretti decoram o Panteão da Pátria Tancredo Neves. A figura de um pássaro ganhou a leveza de suas mãos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília A filha da modelo francesa Antoinette Louise Clotilde Ruffier e do historiador pernambucano João de Medeiros Peretti, Marie Anne Antoinette Hélène Peretti acabaria expulsa do Lycée Molière e do Lycée Victor Duruy. O motivo: Marianne fugia das aulas para pintar. “O caminho natural, então, foi matricular-se na École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs. Depois, na Académie de La Grande Chaumière, no bairro de Montparnasse, onde foi aluna de Édouard Goerg e de François Desnoyer”, conta Newton Schenfler. Os trabalhos em arte vitral, define Schenfler, começaram em Olinda (PE). O primeiro foi uma encomenda feita por uma arquiteta amiga, Janete Costa, para a casa de uns espanhóis residentes no Sítio Histórico da cidade. Viagens A vinda de Peretti para o Brasil, pontua o professor de arte, ocorreu porque em uma das várias viagens de navio entre o Rio de Janeiro e a Europa, Marianne conheceu um inglês, depois se casou e se mudou para São Paulo. Schenfler lembra do começo dos trabalhos da artista com Oscar Niemeyer em uma citação que a própria Marianne fez em entrevista ao site G1. “Eu simplesmente bati na porta dele (Niemeyer) e disse que gostaria de trabalhar com ele. Depois de três meses, voltei ao Rio e o encontrei de novo. Ele deve ter gostado muito de mim, porque já me deu um monte de trabalho, todos de Brasília”, contou Marianne na entrevista ao site. Importância As obras de Marianne Peretti ganharam reconhecimento de grandes nomes. O professor Newton Schenfler especifica que Veronique David, do Centro Andre Chastel, referência mundial em vitrais, considera Marianne Peretti como a mais importante vitralista da contemporaneidade. “O trabalho da artista pode ser definido pela equação grandeza + leveza + transparências, com o desenho influenciado por um espírito modernista francês, que marcou sua formação, assim como de toda uma geração de artistas”, define Schenfler. [Olho texto=”As obras de Marianne Peretti ganharam reconhecimento de grandes nomes. O professor Newton Schenfler especifica que Veronique David, do Centro Andre Chastel, referência mundial em vitrais, considera Marianne Peretti como a mais importante vitralista da contemporaneidade.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=””] Alfredo Ceschiatti Na Catedral de Brasília, outras obras chamam a atenção: os Anjos (1970) e os Evangelistas (1968). As esculturas são de Alfredo Ceschiatti, que tem trabalhos também no Palácio dos Arcos (As Duas Irmãs – 1966).  Como consta na Enciclopédia Itaú Cultural, Ceschiatti desenvolve suas esculturas por meio de um traçado sensível, como aponta a crítica de arte Sheila Leirner, proporcionando equilíbrio e leveza a obras como os Anjos da Catedral de Brasília, ou o Contorcionista (1952). O artista, que se interessou muito pelo barroco mineiro, resgata alguns elementos dessa tradição em vários de seus trabalhos, aliando-os a uma maior simplificação formal.

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Dois eixos e uma cidade única

O cruzamento dos eixos Monumental e Rodoviário é o princípio da organização de Brasília Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília Dois eixos cruzando-se, formando o sinal da cruz. Assim nasceu Brasília na cabeça e nas mãos de Lucio Costa. Inspirado na cidade-verde do arquiteto franco-suíço Le Corbusier, o urbanista trouxe para a capital conceitos inovadores como a horizontalidade, a setorização e a funcionalidade. Características que deram qualidade de vida aos moradores e fizeram de Brasília uma cidade única, triplamente reconhecida enquanto patrimônio cultural: protegida pelo Governo do Distrito Federal, tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e reconhecida como Patrimônio da Humanidade pela Unesco. O cruzamento dos dois eixos, o Monumental e o Rodoviário, é o princípio da organização da cidade. Na primeira proposta, eles eram retos, mas o horizontal acabou arqueado para facilitar o escoamento das águas, resultando, assim, na conhecida forma de avião. Ao longo do eixo vertical, Lucio Costa ordenou os setores de administração governamental. “Os centros cívico e administrativo, o setor cultural, o centro de diversões, o centro esportivo, o setor administrativo municipal, os quartéis, as zonas destinadas à armazenagem, ao abastecimento e às pequenas indústrias locais, e, por fim, a estação ferroviária, foram-se naturalmente ordenando e dispondo ao longo do eixo transversal”, explica o próprio Lucio Costa no poético Relatório do Plano Piloto de Brasília. “Lateralmente à intersecção dos dois eixos localizaram-se o setor bancário e comercial, o setor dos escritórios de empresas e profissões liberais e, ainda, os amplos setores do varejo comercial”, acrescenta o texto. Faixa verde em volta dos blocos cria uma barreira para o barulho e garante sombra na superquadra Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília Na extremidade leste do Eixo Monumental, está a Praça dos Três Poderes, contrariando o posicionamento mais central das praças em outras cidades. Na convergência dos dois eixos está a Rodoviária, “uma grande plataforma liberta do tráfego que não se destine ao estacionamento”, explica o Relatório. “Lucio Costa traz para o centro o cotidiano da cidade. Ele põe de um lado os ministérios e o Congresso Nacional, cuja melhor vista é da plataforma da Rodoviária. Do outro lado, ele coloca a Torre de TV, os edifícios que completam a escala monumental e na ponta coloca a Rodoferroviária. O sol nascendo atrás do Congresso e se pondo no Parque Nacional”, afirma Cláudia Garcia, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB). No Eixo Rodoviário, ele distribuiu uniformemente o conjunto residencial de Brasília: 16 quadras do lado norte e 16 quadras do lado sul. E aplicou princípios da técnica rodoviária à técnica urbanística, “inclusive a eliminação de cruzamentos conferindo-se ao eixo arqueado a função circulatória tronco, com pistas centrais de velocidade e pistas laterais para o tráfego local”, relatou Lucio Costa. O urbanista também criou as tesourinhas para os carros circularem pela cidade no sentido leste/oeste, também sem cruzamentos para garantir a fluidez do trânsito. Superquadras Especialistas apontam que a grande contribuição de Lucio Costa ao urbanismo mundial está no projeto das superquadras, que criou uma nova forma de se viver em apartamento. “Quanto ao problema residencial, ocorreu a solução de criar-se uma sequência contínua de grandes quadras dispostas de ambos os lados da faixa rodoviária e emolduradas por uma larga cinta densamente arborizada”, descreve o Relatório do Plano Piloto de Brasília. “Ele criou um renque de árvores em volta das superquadras preocupado em garantir uma qualidade ambiental e acústica. A faixa verde tem uma dupla função: garantir a melhoria da acústica porque a árvore cresceria e criaria uma barreira para o barulho e garantir sombra em torno do quadrado da superquadra onde as pessoas circulam”, diz a professora Cláudia Garcia. Para o superintendente do Iphan-DF, Carlos Madson Reis, é na superquadra que a cidade esquece seu papel de capital do país e símbolo mundial da arquitetura moderna e revela seu lado citadino. “Lucio Costa, ao romper com a estrutura do quarteirão convencional, abrindo-o e transformando-o em um amplo bosque entremeado por blocos residenciais multifamiliares, de até seis pavimentos em pilotis livres, liberando o chão para uso público indistinto, concebeu uma nova maneira de morar em área urbana”, diz. “Falar em superquadra é falar de Brasília. É aqui, neste ambiente intimista e bucólico, que aflora no brasiliense o sentido de pertencimento a um lugar e a uma comunidade”, completa. Quadra modelo Lucio Costa disse que os blocos residenciais poderiam dispor-se de maneira variada nas super-quadras (assim mesmo, com hífen, como foram chamadas por ele em 1957), mas teriam que obedecer a alguns princípios: gabarito máximo uniforme de seis pavimentos (apesar de o bloco D da 308 Sul ter quatro andares), pilotis e separação do tráfego de veículos do trânsito de pedestres. Bloco D da 308 Sul é o único do Plano Piloto com quatro andares Foto: Vinícius de Melo / Agência Brasília “A mãe saía na janela e chamava a criança no parquinho para almoçar sem ter que descer”, relata João Luiz Valim Batelli, 65 anos, que presenciou essa cena inúmeras vezes na década de 1960. Nascido em São Paulo e morador da capital desde os 5 anos, ele cresceu na SQS 308, considerada a quadra modelo porque seguiu à risca o projeto de Lucio Costa de como deveriam ser todas as quadras do Plano Piloto. “Meus pais vieram para Brasília em 1959, com a transferência de meu pai. Minha mãe deu aula na Metropolitana e de lá veio para a Escola Classe 308 em 1960”, conta. Batelli, que acabou formando-se arquiteto, fez o primário na Escola Classe 308 e, no contra turno das aulas, frequentava a Escola Parque 308 Sul. “Era um estudo complementar, na proposta do Anísio Teixeira. Eu passava a manhã na escola classe e o outro período lá. Tinha aulas de artes, música… Era fantástico. A gente ia paro auditório, às vezes era só uma palestra, mas colocavam música clássica… Aprendi a gostar de música clássica assim. Tenho o hábito de frequentar o teatro até hoje, aprendi a gostar na escola”, recorda-se. [Olho texto=”A proposta de Brasília mudou a imagem de ‘morar em apartamento’, e isto porque morar em apartamento na superquadra significa dispor de chão livre e gramados generosos contíguos à “casa”, numa escala que um lote individual normal não tem possibilidade de oferecer” assinatura=” Lucio Costa, Brasília Revisitada, 1987″ esquerda_direita_centro=”centro”] João Luiz Valim Batelli, 65 anos, mora em Brasília desde os 5 anos e cresceu na SQS 308, a quadra modelo Foto: Vinícius de Melo / Agência Brasília Unidade de Vizinhança O garoto viveu de perto outro conceito inovador implementado por Lucio Costa em Brasília: a Unidade de Vizinhança, formada pelo conjunto de quatro superquadras que deveria dispor, numa distância acessível a pé, todas as facilidades necessárias à vida cotidiana. O plano consistia em conferir serviços básicos a cada quatro superquadras para atender os blocos residenciais com comércio, lazer, instituições educacionais, religiosas, desportivas e culturais. “A ideia era que, antes de fazer a opção de pegar o carro, o morador refletisse se queria mesmo tirá-lo da garagem, já que teria o comércio aqui à mão, como a padaria e a farmácia, o cinema, o clube, a igreja. Tudo perto de casa”, afirma João Luiz Valim Batelli. A ideia também era promover a sociabilidade e as relações de vizinhança, onde os moradores se conhecem, compartilham dos mesmos espaços e necessidades. Entretanto, apenas uma Unidade de Vizinhança ficou completa, com todos os equipamentos previstos no projeto original – o conjunto formado pelas Superquadras 107, 307, 108 e 308 Sul, construídas nos primeiros momentos de Brasília. As demais estão incompletas e não contam com os equipamentos comunitários previstos, a não ser o comércio local, sendo frequentes também as igrejas. Cinemas e Clubes de vizinhança, por exemplo, só existem na citada Unidade da Asa Sul. “Aprendi a nadar no Unidade de Vizinhança, ia para o clube durante a semana nos intervalos da escola. O cinema que frequentávamos era o Cine Brasília, assistíamos missa na Igrejinha”, conta. “Quando eu vim para Brasília eu era muito novo e convivia sem questionar muito. Depois de velho é que percebi o privilégio de ter vivido tudo isso, de ter crescido dentro do projeto de Lucio Costa”, afirma. O uso comunitário seria a tônica dominante da convivência urbana. Esse conceito de uso coletivo do espaço vai além das áreas externas das edificações. Passa também pelo espaço dos próprios blocos residenciais, que foram erguidos sobre pilotis, permitindo a livre circulação de pessoas em qualquer direção. “Com os pilotis, Lucio Costa liberou o uso do solo. Foi uma desapropriação por parte de uma única pessoa daquele espaço. O espaço da superquadra é de ninguém específico e, ao mesmo tempo, é de todo mundo. Por isso que é proibido o fechamento dos pilotis. Ele pensou que essa área pública seria de todos. É uma cidade que tem uma visão humanista e social muito forte”, diz a professora da UnB, Cláudia Garcia. No memorial do projeto do plano piloto, Lucio Costa batizou a capital como Brasília em homenagem a José Bonifácio que já tinha proposto o nome em 1823

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Brasília, uma história de amor de Ernesto Silva

O pioneiro sempre foi um apaixonado pela ideia de construir a nova capital federal / Foto: Divulgação Quando colocou os pés no solo vermelho do Cerrado pela primeira vez, Ernesto Silva já antevia a descoberta. Em fevereiro de 1955, ele sentiu – e relatou, em publicações – que o espaço mais alto no centro do país era ideal para a construção da nova capital. Médico, militar e grande entusiasta da fundação da cidade,  Ernesto é um importante personagem da história de Brasília. O homem franzino, que ostentava certa barriga protuberante, dirigiu a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e, até seus últimos dias de vida, foi um combativo defensor da cidade. Carioca, Ernesto passou quase dois terços da vida no DF. Morou em um dos primeiros prédios construídos na Asa Sul, sob as árvores que viu crescer, e ali ficou até fevereiro de 2010, quando, aos 95 anos, faleceu. Ao longo da trajetória, o pioneiro, que se intitulava militante da esperança, foi fiscal da história que ajudou a escrever. “Era impressionante”, lembra Sônia Souto Silva, 81, sua terceira companheira, ao lado de quem ele passou os últimos 15 anos de vida. “Se tivesse alguém que gostasse mais de alguma coisa na vida, era o Ernesto com esta cidade.” Sônia Souto Silva, a terceira e última companheira do médico: “Se tivesse alguém que gostasse mais de alguma coisa na vida, era o Ernesto com esta cidade.”/ Foto: Renato Araújo/Agência Brasília Nas ruas, ele velava os feitos. Certa vez, conta a viúva, o pioneiro desceu do prédio para brigar com policiais que haviam estacionado sobre a calçada. “Vocês sabem como foi difícil construir essa cidade para virem quebrar tudo?”, questionou o médico, enfrentando as autoridades. Ernesto exigia cuidado. “Me emociono de saber da capacidade, vitalidade, dedicação e amor dele por Brasília”, revela Sônia.   Construindo história Familiares, contemporâneos e historiadores são unânimes em dizer que Brasília era a grande paixão da vida do médico, ideia que ele não se cansava de confirmar. Em entrevista ao Arquivo Público em 2007, ele disse: “Nós construímos a capital inteira de dentro do Cerrado. Sem coisa nenhuma, sem computador, sem fax, sem uma porção de coisas. É por isso que o povo e as autoridades daqui devem reconhecer a dificuldade, o sacrifício de milhares de pessoas. Então, você precisa respeitar essa cidade, preservar essa cidade, porque senão nós não temos história”. A viúva conta que tamanho entusiasmo custou a Ernesto os primeiros casamentos. O primeiro teria terminado porque a esposa não queria se mudar do Rio de Janeiro para a capital. Por sua vez, a segunda companheira nutria um desejo de voltar às terras cariocas, o que teria prejudicado a relação. A terceira diz que nunca pensou em mudar. “Não correria esse risco”, brinca. Ao lado da ex-professora, ele viveu por 15 anos, até partir, por complicações de uma pneumonia,  após seis meses internado. E deixou registrado um pedido: que jamais fosse enterrado fora dos limites do quadradinho. [Olho texto=”Nós construímos a capital inteira de dentro do Cerrado. Sem coisa nenhuma, sem computador, sem fax, sem uma porção de coisas. É por isso que o povo e as autoridades daqui devem reconhecer a dificuldade, o sacrifício de milhares de pessoas. Então, você precisa respeitar essa cidade, preservar essa cidade, porque senão nós não temos história.” assinatura=”Ernesto Silva” esquerda_direita_centro=”direita”] O historiador Elias Manoel, gerente de Difusão do Arquivo Público do Distrito Federal, reforça a teoria de que a relação com Brasília tenha influenciado os dois primeiros casamentos de Ernesto. “Ele nunca disse explicitamente, mas o envolvimento dele era tão absurdamente grande que se pode relacionar [ao fato de os casamentos terem fracassado]”, avalia. “A dedicação exclusiva que deu para a criação de Brasília teve seus danos colaterais para sua vida pessoal.” Ritmo de samba Conhecidos de Ernesto dizem que ele era sério, mas também sabia ser brincalhão. Bem-humorado, dançava de mãos erguidas. Gostava de samba e de música clássica. Torcia ferozmente pelo Fluminense, clube carioca do qual chegou a ser sócio. Tinha disposição e saúde invejáveis. Não tomava remédios e nunca fez exercícios. “Ele dizia que só tinha alergia à burrice”, conta Sônia. Em entrevista ao Arquivo Público, ele revelou a fórmula para viver mais: “Coma pouco, trabalhe, tenha autoestima e compaixão”. O médico mineiro Célio Menicucci, de 87 anos, conheceu Ernesto em 1958. Os dois se tornaram amigos em pouco tempo. Testemunha da história do pioneiro, ele conta que a casa de Ernesto era ponto de encontro dos camaradas. “Sempre tinha cantoria. Ele gostava de Noel Rosa e eu aproveitava para cantar. Ernesto foi muito divertido e alegre, mas também um baixinho que adorava uma guerra”, rememora. O jornalista Jarbas Marques teve seu primeiro contato com o pioneiro quando veio cobrir a construção da nova capital do Brasil, em 1959. “Em 30 anos, fizemos juntos 300 palestras”, conta. “Ele ligava pra mim de manhã cedo e perguntava sobre a agenda. Botei ele pra cantar samba nos 50 anos do Catetinho com a primeira cantora de Brasília, Glória Maria.” Jarbas lembra outra característica do pioneiro: “Tinha tara por bacalhau.” Orgulhoso de fazer parte da história da cidade, Ernesto Silva fundou a Associação dos Candangos Pioneiros, na qual teve participação ativa até o fim de seus dias. Funcionários da entidade contam que sua passagem nunca era despercebida e que ele costumava distribuir abraços na chegada. “Pioneiro do Antes” Carioca de Vila Isabel, Ernesto Silva nasceu em 17 de setembro de 1914 – no horóscopo chinês, o ano do tigre, animal que ama a ação. Com sete irmãos, tinha o sonho de ser médico, mas a família não conseguia custear o curso. Em 1933, formou-se em ciências e letras. Três anos depois, tornou-se oficial do Exército, chegou ao posto de coronel e serviu no Ministério da Guerra, onde se aproximou de marechal José Pessoa, outro protagonista da história da capital. Em 1936, formou-se em veterinária pelo Exército e concluiu o curso de medicina dez anos depois, com especialização em pediatria. [Olho texto=”Não fosse por ele, Brasília não teria sido inaugurada três anos e dez meses depois do início das obras.” assinatura=”Elias Manoel, historiador” esquerda_direita_centro=”esquerda”] Ele é chamado de “Pioneiro do Antes” porque sua história com Brasília é anterior à aprovação oficial ao projeto da nova capital. Já o historiador Elias Manoel o considera o “Adão de Brasília”, e explica: “Chegou quando o paraíso ainda não existia”. Ernesto, conta, foi protagonista da concepção e construção da capital: elaborou o edital do concurso de projetos vencido por Lucio Costa, viabilizou a demarcação do território e desapropriação e deixou tudo pronto para que o projeto saísse do papel. “Não fosse por ele, Brasília não teria sido inaugurada três anos e dez meses depois do início das obras”, analisa o historiador. O historiador Elias Silva considera Ernesto o “Adão de Brasília” / Foto: Lucio Bernardo Jr/Agência Brasília Presença marcante No currículo, Ernesto teve ainda registrados os cargos de secretário da Comissão de Localização da Nova Capital do Brasil (1953-1955) e de presidente da Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal (1956). Também foi o primeiro diretor da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), onde ficou responsável pelo Departamento de Saúde e Educação. Era fluente em inglês, espanhol e francês e ainda “arranhava” o alemão. Foi responsável pelo planejamento e implantação do Sistema Único de Saúde (SUS) de Brasília e organizou a construção do primeiro hospital distrital (atual Instituto Hospital de Base). Além disso, conseguiu que Lucio Costa alterasse o projeto original da cidade para incluir o modelo de escolas parque, proposto pelo educador Anísio Teixeira para organizar o ensino básico no Brasil. Quatro meses após a cremação de seu corpo, Ernesto Silva teve o acervo doado pela viúva, Sônia, ao Arquivo Público. Em 2010, amigos pioneiros imortalizaram a imagem do pioneiro com a instalação de um busto de bronze no lugar onde Juscelino Kubitscheck tomou um café no Planalto Central pela primeira vez – atualmente, o Country Club. Ernesto, entre as professoras da Escola Parque 303 Sul, a primeira a ser criada nesse molde idealizado por Anísio Teixeira / Foto: Divulgação  

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O comandante da construção de Brasília

Pioneiro, primeiro presidente da Novacap e primeiro prefeito de Brasília, Israel Pinheiro inspeciona as obras do Palácio da Alvorada. Foto: Arquivo Público Brasília ainda era um descampado de terra e mato no coração do Planalto Central, quando um grupo de japoneses chegou à região, no final de 1956, com a pretensão de desenvolver no lugar, granjas e pomares. Conhecidos pela habilidade no manejo da terra e especialistas em assuntos agrários, os orientais olharam tudo e ficaram preocupados com a aspereza e baixa fertilidade do solo. Um jornalista que acompanhava a turma levou a questão a Israel Pinheiro – o primeiro presidente da Novacap e, também, o primeiro prefeito de Brasília – que fulminou: – Uai! Se fosse boa, pra que japonês?! Pouco tempo depois, em agosto de 1957, o primeiro núcleo de imigrantes japoneses se instalaria no DF. O episódio, exemplar, dá a medida certa da personalidade de um homem prático e enérgico que foi determinante na realização do sonho de JK de construir a nova capital do país. A ponto de todos aqueles que conhecem de perto essa grande epopeia do Brasil moderno serem unânimes em dizer: sem Israel Pinheiro, Brasília não existiria. “Ele brigou com Lucio Costa, com Oscar Niemeyer, com Bernardo Sayão, com tudo e todos, para cumprir a promessa de inaugurar Brasília em 21 de abril de 1960”, lembra a jornalista Conceição Freitas. Autora do livro “Bravos Candangos” e grande entusiasta da história de nossa cidade, ela destaca o estilo severo e íntegro do pioneiro. “Foi o feitor, o comandante, o manda-chuva, o executivo. Era duro, até onde se sabe honesto, não gostava de jornalista e menos ainda dos muitos pedidos de benevolências”, conta. Honesto era mesmo. Certa vez, um empresário da construção civil, bastante empolgado por ter ganhado concorrência de uma obra na cidade, tentou lhe agradar com um “presentinho”, ao que foi severamente repreendido. “O senhor me sai daqui e leve esse embrulho para casa senão vai perder a concorrência”, esbravejou. Pioneiro madrugador Mineiro de Caeté, nascido no final do século 19, Israel Pinheiro era o braço direito de JK, “cabra” de confiança do presidente para assuntos de obras e política. Formado em engenharia pela Escola de Minas de Ouro Preto, com especialização em siderurgia, acalentava, junto com o chefe, o desejo de transferir a capital do país para o interior. Aliás, quando ambos eram deputados federais por Minas Gerais, nos anos 40 e 50, queriam e brigaram para vê-la cravada no Triângulo Mineiro. A ideia não vingou. “Meu filho, que sorte nós tivemos, eu ter perdido aquela luta na Constituinte, que aqui é muito melhor do que o Triângulo Mineiro”, confidenciaria, algum tempo depois, ao filho, assim como o pai, também Israel Pinheiro. Por sina, competência ou espírito voluntário, antes e depois da construção da nova capital, Israel Pinheiro habituou-se, na vida pública, a ser pioneiro em tudo. No início dos anos 40, por exemplo, designado por Getúlio Vargas a constituir a Companhia Vale do Rio Doce, seria o primeiro presidente da empresa. Em Brasília, foi o número um na construção da cidade e dos primeiros que aqui chegaram, fazendo questão de pilotar, para cima e para baixo, uma Rural Willys que trazia estampada em destaque, no para-brisa, papel colado com o algarismo 1. Natural que fosse, dada às circunstâncias, o primeiro presidente da Novacap e, também, o primeiro prefeito de Brasília. “Dr. Israel foi um dos primeiros a chegar a Brasília, se hospedando num dos quartos do Catetinho com a (mulher) D. Coracy. Depois eles foram para a Granja do Ipê. Era muito religioso e caseiro”, recorda o cearense Adirson Vasconcelos, que aqui chegou em maio de 1957, com a missão de cobrir o início das obras da capital, simbolizada pela Missa Campal, então realizada na Praça do Cruzeiro. Veio e ficou. “Não era um homem fácil de lidar, de pouca conversa, quem nos salvava era o Dr. Chagas, seu chefe de gabinete, um sujeito muito diplomático”, conta. Incansável Madrugador incansável, todos os dias, das 6h da manhã, às 20h da noite, era visto correndo os canteiros de obras, dando ordens, checando, delegando serviço aos milhares de trabalhadores que, em novembro de 1956, formavam um pequeno batalhão de 232 homens, chegando a cerca de 3 mil operários, em 1957, com mais de 200 máquinas correndo em ritmo frenético. Era temido e respeitado pela “peaõzada”. Se existia uma coisa que Israel Pinheiro odiava era burocracia. “Ele não parava. A coisa mais rara de se ver era ele no escritório da Novacap, que na época, ficava na Candangolândia”, volta no tempo, o jornalista pioneiro Adirson Vasconcelos. Uma imagem clássica dos primeiros dias de vida de Brasília, registradas pelo francês Jean Manzon, que corre o mundo, é a de Israel Pinheiro e Juscelino Kubistchek perambulando juntos por entre os primeiros prédios da Esplanada. Era uma prova, mais do que concreta, de que Brasília estava acontecendo, o sonho se tornava realidade. Devoto de Dom Bosco, queria porque queria que o religioso, protagonista de uma das lendas mais famosas em torno da criação da cidade, fosse o padroeiro de Brasília. Mas acontece que Juscelino Kubistchek, outro religioso empedernido, tinha planos para Nossa Senhora Aparecida. De qualquer forma, ergueu um santuário ao seu protetor, onde, volta e meia, aparecia para lhe dar broncas. “Quem me contou isso foi o seu motorista. Um dia eles estavam na Ermida Dom Bosco e o escutou ralhando duramente com o santo porque ele não tinha ajudado com o asfalto ou a entrega de determinada obra. Coisas de Dr. Israel”, diverte-se Adirson Vasconcelos. Pioneiro subestimado Mas há quem disse e diga que a história foi injusta com Israel Pinheiro, relegando o grande comandante da construção de Brasília a mero papel de coadjuvante entre os principais pioneiros dessa cidade modernista e inspiradora. Oscar Niemeyer mesmo, “que vestiu as áreas e escalas traçadas por Lucio Costa com sua arquitetura”, foi um dos que reclamaram o reconhecimento devido ao amigo. “Às vezes eu acho que se fala pouco sobre o Israel Pinheiro. Ele foi importantíssimo. Sem ele, Brasília não seria feita. Era um sujeito empreendedor, ativo, que se dedicou à Brasília, inteiramente, honesto. Foi fantástico”, disse o arquiteto numa entrevista à TV Senado. O polêmico dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues também atesta a importância de Israel Pinheiro. “Desde Brasília, foi talvez o homem público mais caluniado deste país. E o dramático é que ele era, a um só tempo, célebre e desconhecido”, constatou numa crônica publicada no jornal O Globo, um dia depois da morte de Israel Pinheiro, em julho de 1973. Reconhecido ou não, lembrado ou esquecido, uma coisa Brasília e seus moradores, pioneiros ou contemporâneos, jamais poderão e conseguirão fazer. Apagar da poeira vermelha do cerrado os rastros deixados pelo homem que era sinônimo de trabalho e tanto fez pela cidade.

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Esboços para a capital desde 1927

A Brasília de Lucio Costa, o projeto vencedor | Fotos: reprodução livro Projetos para Brasília: 1927 – 1957 O plano urbanístico feito por Lucio Costa e pelos outros arquitetos que concorreram ao concurso do Plano Piloto de Brasília na década de 1950 não se constituiu nos primeiros desenhos feitos para a futura capital que seria construída no interior do país. Muito antes de Juscelino Kubitschek ou do famoso comício em Jataí (GO), quando o candidato à Presidência da República se comprometeu a construir a nova capital caso eleito, engenheiros, historicistas, agentes imobiliários e até deputados vislumbravam que o futuro do país seria no Planalto Central e esboçavam desenhos para uma cidade ideal que seria a capital federal do país. “A partir do momento em que a Comissão Exploradora do Planalto Central vem pra cá em 1894, começam as especulações de como seria a capital”, explica a arquiteta Angelina Nardelli Quaglia, que estuda a história de Brasília há 14 anos. Foram 32 propostas urbanísticas feitas em 30 anos, de 1927 a 1957. Atualmente, 25 delas estão registradas no livro Projetos para Brasília: 1927 – 1957, escrito por Jeferson Tavares em 2014. No livro, Jeferson Tavares analisa os projetos, identifica os autores, os principais colaboradores e suas possíveis referências e matrizes urbanísticas. “É possível identificar em todos os projetos para a nova capital o reflexo dos anseios de uma geração. Os planos para Brasília construíram-se por meio das mais inusitadas referências e com a finalidade de conceber um projeto ideal que se moldasse à especificidade de uma cidade administrativa”, relata. Os projetos são divididos em dois grupos: os elaborados nas décadas de 1920 e 1940 (cinco projetos) e os do Concurso do Plano Piloto (criados em 1956 e 1957). As primeiras propostas urbanísticas para Brasília vinculam-se aos interesses imobiliários despertados na região onde viria a ser erguida a nova capital. As últimas propostas foram feitas por profissionais e já carregam aspectos urbanos de uma cidade. Planópolis – 1927 Nas comemorações do Centenário da Independência, em 1922, o presidente Epitácio Pessoa autorizou a colocação da Pedra Fundamental da Nova Capital como atitude simbólica de sua inauguração. Apesar das comemorações não terem resultado em soluções práticas para a transferência, houve valorização das terras da região, principalmente aquelas próximas a Planaltina, cidade que já existia. O projeto é de 1927 e não tem autor identificado. Trata-se de parte de um registro de imóveis de lotes em Planaltina. O loteamento chamava-se Planópolis e foi feito por interessados nos possíveis lucros com a venda das terras, sem nenhuma ligação com o interesse público. A Cidade Histórica da América – 1929 A segunda proposta é de 1929 e foi elaborada pelo brasilianista Theodoro Figueira de Almeida como parte das comemorações do centenário do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Foi publicada no ano seguinte no jornal A Ordem, do Rio de Janeiro. Com o título Brasília, a cidade histórica da América, o projeto lembra o casco de uma tartaruga. A Brasília de 1929 tem uma trama urbana quadriculada, com grandes avenidas que terminam em grandes praças, e toda a cidade é contornada por grandes alamedas e estradas. Em formato circular, previa uma cidade que começava com uma praça (chamada de Praça da República), de onde partem as principais malhas ortogonais e diagonais. A cidade termina em uma grande avenida perimetral. O desenho incorpora a forma tradicional de cidade fechada, com grandes eixos monumentais e uma malha diagonal sobrepondo-se à malha reticulada. “Lembra Belo Horizonte, que é do final do século 19, quando predominava esse desenho fechado influenciado por Washington e os desenhos clássicos de Versalhes, São Petesburgo, Carlsburg, feitos do período absolutista”, afirma o arquiteto e professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB) José Carlos Córdova Coutinho. Carmen Portinho – 1936 Em 1936, a engenheira Carmen Portinho apresentou um projeto para a nova capital à Universidade do Distrito Federal para obtenção do título de urbanista. Avançado ao pensamento nacional de planejamento urbano da década de 1930, esse material sintetiza as principais teorias do período, adequando-as às condições brasileiras. Define um modelo de cidade moderna, ao confluir o racionalismo técnico às adaptações nacionais. O desenho de Carmen lembra um transatlântico e teria de ser construído em um território maior que um avião — ela planejou uma capital para 2 milhões de habitantes. Os edifícios localizavam-se bem próximos às nascentes dos rios existentes, afluentes do Paranoá, estabelecendo – entre todos os projetos – a relação de maior proximidade com o potencial hidrográfico da região. O transatlântico projetado pela engenheira era setorizado de acordo com usos e densidades específicas. Zonas residenciais, centro de negócios, centro cívico, centro cultural, parques, zona de transporte, setor de hotéis e embaixadas e zona industrial. “É um projeto mais elaborado, de uma época em que havia um grande debate sobre o urbanismo com influência do Le Corbusier. Já havia uma teoria do urbanismo que influenciava muito essa relação com o lado de fora da cidade e buscando uma informalidade relativa com outros critérios de organização”, afirma o professor Coutinho. Jales Machado – 1948 O projeto de 1948, do deputado federal Jales Machado de Siqueira, não é exatamente um esboço de cidade. É uma proposta de malha rodoviária ligando todo o país à capital federal, quando ela fosse construída. Mineiro radicado em Goiás, deputado federal pela UDN, topógrafo, fazendeiro, construtor de usinas hidrelétricas, Jales Machado esboçou um extenso plano viário, com vias perimetrais e radiais, e propunha meios de conseguir recursos para as obras rodoviárias e de construção da cidade a partir da combinação de capital público e privado. Ele usou a proposta em um pronunciamento a favor da transferência da capital federal para o Planalto Central. Na época, discutia-se no Brasil a necessidade do planejamento territorial como forma de promover e controlar o crescimento das regiões. Com o entrelaçamento viário, ele mostrava que a cidade não ficaria isolada do restante do Brasil, como temiam os que se opunham à ideia. Vera Cruz – 1955 Elaborado a pedido do marechal José Pessoa, presidente da Comissão de Localização da Nova Capital do Brasil, menos de um ano antes da publicação do edital que lançou o concurso para a escolha do Plano Piloto de Brasília. Foi feito por três dos mais respeitáveis engenheiros brasileiros da época, Raul Penna Firme, Roberto Lacombe e José de Oliveira Reis, em um “Estudo Preliminar para a cidade de Vera Cruz, futura capital do Brasil”. O projeto comprovou a viabilidade de implantação de uma cidade no Planalto Central e é a primeira iniciativa concreta de planejamento da cidade promovida pelo governo federal. Ao mesmo tempo em que encerra as fases de proposições particularizadas, inicia o processo oficial da concepção de Brasília. Para arquitetos e urbanistas, o projeto lembra Brasília: já tem o cruzamento de duas vias e áreas reservadas para o centro governamental, centro cívico e parques. Mas as quadras seguem planejadas em espécies de quadradinhos. “É uma malha romana, uma quadrícula, que é a forma de projetar uma cidade em quarteirões convencionais, como faziam os romanos, os espanhóis e portugueses”, analisa a arquiteta Angelina Nardelli Quaglia. Concurso do Plano Piloto Juscelino Kubitschek toma posse em 1956 com a promessa de construir a capital. O presidente, que já havia trabalhado com Oscar Niemeyer em Belo Horizonte, queria que o arquiteto fizesse o projeto da capital, que deveria ser moderno. Mas, com a alegação de que não era urbanista, Niemeyer sugeriu a realização do concurso, cujo edital foi lançado em 30 de setembro de 1956. O edital dava aos participantes o mapa do Planalto Central com previsão da existência do lago Paranoá e a localização da pista do aeroporto, do Palácio da Alvorada e do Brasília Palace. No total, 62 concorrentes se inscreveram, mas apenas 26 equipes entregaram o projeto.  A maioria dos projetos foi feita em grupo ou por arquitetos ligados a construtoras. Lucio Costa, do Projeto 22, se escreveu sozinho, e arquitetos contam que ele, com a ajuda da filha Maria Elisa Costa, entregou a proposta em cima da hora. Ele é anunciado vencedor do concurso em 16 de março de 1957. O Memorial do projeto de Lucio Costa está dividido em 23 pontos e apresenta ilustrações em croquis, além de um mapa completo com o plano da cidade. O júri fez pequenas críticas a Lucio Costa, como a demasiada quantidade de terra entre o centro governamental e o lago, o fato de a cidade ficar muito próxima ao aeroporto e a não especificação do tipo de estradas regionais, especialmente com relação a possíveis cidades-satélites. Mas ele recebeu elogios por ser claro, direto e fundamentalmente simples, por ter o espírito do século 20: ser novo, livre e aberto, disciplinado, sem ser rígido e por ser facilmente compreendido. “O projeto de Lucio Costa ganhou porque era o que melhor solucionava as necessidades do governo. Ele era moderno, inusitado, trazia a monumentalidade, dividia muito bem a cidade e, além disso, o memorial é belíssimo. O texto dele justifica, sem muita frescura, todas as coisas que ele quer para a cidade”, diz Angelina Nardelli Quaglia. “O dele era o melhor projeto, o que melhor conciliava os aspectos funcionais, os aspectos cívicos da capital do país, com os estéticos. Havia outros projetos muito bons, mas o do Lucio é excelente” elogia Coutinho. [Olho texto=”Não pretendia competir e, na verdade, não concorro — apenas me desvencilho de uma solução possível, que não foi procurada, mas surgiu, por assim dizer, já pronta” assinatura=”Lucio Costa” esquerda_direita_centro=”centro”]  

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Uma cidade sonhada por dois séculos

Pedra Fundamental da nova capital colocada próximo a Planaltina em 7 de setembro de 1922 – um marco para a concretização da interiorização da capital Foto: Vinícius de Melo / Agência Brasília Brasília completa 59 anos, mas, pela história, poderia ter facilmente 268 anos. Sonhada por mais de dois séculos, a criação de uma nova capital no interior do país é defendida desde o período colonial. No início,o objetivo era proteger a colônia de invasões que poderiam vir do litoral. Com o passar dos anos, a tese passou a ser o desenvolvimento do interior do país. Muitas idas e vindas, vontades políticas distintas, mudanças de governo até a construção da capital se  transformar em metassíntese do Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e sair do papel. “A transferência da capital para o interior do país não ocorreu bruscamente, tampouco gozou de unanimidade. Foi um lento processo em que poucos acreditaram e, desses, uma porcentagem ainda menor o defendeu publicamente”, afirma Jeferson Tavares, autor do livro Projetos para Brasília: 1927 – 1957, que conta a história da transferência da capital e dos projetos feitos para Brasília. “Não tardaram as vozes contra essas ações, denominando-as de loucas e insanas”, completa. É atribuída ao Marques de Pombal a ideia mais antiga que se conhece de transferir a capital do Brasil para o interior. Em 1751, ele contratou um cartógrafo italiano que elaborou a carta geográfica de Goiás e ressaltou o valor estratégico do Planalto Central. Anos depois, em 1789, os inconfidentes mineiros queriam transferir a capital para São João Del Rey, em Minas Gerais, com a alegação de vantagem estratégica (segurança) e demográfica (povoamento do interior). Com a proclamação da Independência e a Assembleia Constituinte, José Bonifácio foi mais uma voz a defender a mudança. Ele chegou a sugerir o nome Petrópolis (cidade de Pedro) ou Brasília para a nova capital, que seria erguida na comarca de Paracatu do Príncipe, Minas Gerais. A Constituição de 1824, porém, não incorporou a tese da interiorização da capital. Foi apenas com a Constituição de 1891 que surgiu o primeiro marco legal para a interiorização: em seu artigo 3º, a lei reservou à União uma área com 14.400 quilômetros quadrados no Planalto Central, que seria oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal. “Sempre se falava em ir para o interior, por causa da vulnerabilidade do litoral. Mas não havia nenhum estatuto legal até então”, conta o historiador do Arquivo Público do DF, Elias Manoel da Silva. Comissão Cruls Floriano Peixoto, o primeiro presidente da República, criou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil em 1892. Presidida por Luiz Cruls e formada por 22 expedicionários, eles passaram sete meses no Planalto Central e delimitaram o quadrilátero de 14.400 km² conforme determinava a Constituição. Dois anos depois, Luiz Cruls publica o relatório da expedição e, graças ao sucesso da missão, o presidente envia uma segunda comissão ao Planalto Central, que estudou a área demarcada e especificou o melhor lugar para a construção da cidade: entre os córregos Gama e Torto, onde hoje está Brasília. Comissão Cruls, formada por 22 expedicionários, passou sete meses no Planalto Central e delimitou o quadrilátero de 14.400 km² para o Distrito Federal Foto: Arquivo Público do DF “Estava tudo pronto para começar a construir a capital, mas o governo de Floriano Peixoto chegou ao fim e seu sucessor, Prudente de Morais, paulista, não queria a mudança da capital, como seus conterrâneos”, lembra o historiador. “Propuseram a reforma do Rio de Janeiro, Prudente de Moraes cortou as verbas da comissão de estudos da nova capital e a ideia morreu por aí”, explica Elias Manoel. Mais cem anos se passaram até que, no Centenário da Independência, em 1922, deputados mudancistas voltaram a falar da transferência da capital. Eles defendiam que as ideias da Constituição fossem resgatadas e fizeram um projeto de lei para que uma pedra fundamental fosse colocada dentro do quadrilátero reservado ao futuro Distrito Federal. No dia 7 de setembro de 1922, ao meio dia, a pedra fundamental da nova capital é assentada próximo a Planaltina – um marco para a concretização das aspirações para a interiorização da capital. A Constituição de 1934 volta a prever a transferência para o ponto central do Brasil, mas apenas em 1946, com a quarta Constituição Republicana, a lei volta a representar ação prática para a mudança: o presidente Eurico Dutra nomeia um novo grupo técnico para realizar estudos de localização. Liderada por Djalma Polli Coelho, a comissão indica o mesmo território apontado por Luiz Cruls. O relatório da comissão Djalma Polli é enviado ao Congresso Nacional em 1948, mas só é aprovado em 1953. Um projeto de lei autoriza o governo a definir o sítio da nova capital e Getúlio Vargas cria uma Comissão de Planejamento da Mudança da Capital Federal. Um ano depois, com assessoria de empresas de foto análise e foto interpretação, a delegação indica os cinco melhores sítios para ser construída a nova capital e o governo enfim escolhe o Sítio Castanho como local exato para a construção da nova capital. JK Neste momento, a história da transferência cruza-se com a de Juscelino Kubitschek, então candidato à Presidência da República. Em 4 de abril de 1955, em um comício na cidade de Jataí (GO), JK é questionado se cumpriria a Constituição e faria a transferência da capital caso fosse eleito. “Quero confessar que até aquele instante não havia fixado, com a devida atenção, o problema da mudança. Mas tive que responder de pronto à pergunta”, escreveu Juscelino mais tardeCom a eleição de JK, a construção da capital começa a se tornar realidade. Em setembro de 1956, é sancionada a lei que criou a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e deu o nome de Brasília à capital. As obras começaram em outubro daquele ano e, depois de três anos e meio, Brasília é inaugurada em uma festa que durou quase dois dias. As obras de Brasília começaram em outubro de 1956 e ficaram prontas depois de três anos e meio Foto: Arquivo Público do DF “São dois séculos de história, mas faltou vontade política em outros momentos e um cara ousado como foi JK”, afirma Elias Manoel. “Mas Juscelino só pôde construir a capital em um único governo porque, quando assume a presidência, o Distrito Federal já está delimitado, o local escolhido e desapropriado. Todos os trabalhos da comissão foram passados para a Novacap”, opina o historiador. Sonho de Dom Bosco [Olho texto=”Entre os graus 15 e 20 havia uma enseada bastante longa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. Disse, então, uma voz repetidamente: – Quando se vierem a escavar as minas escondidas no meio destes montes, aparecerá aqui a terra prometida, de onde jorrará leite e mel. Será uma riqueza inconcebível” assinatura=”Dom Bosco” esquerda_direita_centro=”centro”] Os livros de história contam que a fundação de Brasília teria sido até mesmo profetizada por um santo. Em 1883, Dom Bosco, santo italiano fundador da Congregação dos Salesianos, teria sonhado que fazia uma viagem à América do Sul e viu um local especial ao chegar à região entre os paralelos 15° e 20°, onde, nas palavras de um anjo que o acompanhava em sua visão, apareceria “a terra prometida” e que seria “uma riqueza inconcebível”. A visão acabou sendo interpretada como uma premonição do local em que deveria ser construída a nova capital do Brasil. Mas Dom Bosco nunca viajou à América do Sul e historiadores afirmam tratar-se de uma manobra política criada por parlamentares mudancistas goianos para assegurar a construção da Capital Federal no Planalto Central brasileiro. O episódio é até apelidado de “Operação Dom Bosco” pelo jornalista e historiador Jarbas Silva Marques. “O sonho existiu, mas foi usado na década de 50 pelos goianos para justificar a construção de Brasília. Eles foram muito espertos, ressignificaram o sonho para dizer que até Deus queria Brasília. Havia uma forte oposição contra a mudança da capital, mas o povo brasileiro é muito religioso”, afirma o historiador Elias Manoel da Silva. Para a arquiteta Angelina Nardelli Quaglia, que estuda a história de Brasília há 14 anos, o sonho de Dom Bosco acabou se transformando em uma “simpática lenda”. “Alguns estudiosos atuais dizem que foi uma manipulação do sonho para fazer as pessoas acreditarem que aqui era um lugar prometido. Na época havia a necessidade de se criar essa comoção nacional, foi uma forma de convencer as pessoas”, acredita.  

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