Carnaval em Brasília: de bailes em clubes a blocos de rua
O Carnaval de Brasília começou antes mesmo da inauguração da cidade,em 1960 | Foto: Divulgação / Aruc Se hoje um milhão de brasilienses e turistas invadem as ruas de Brasília para brincar o Carnaval, é porque um grupo de pioneiros deu o pontapé para iniciar a festa do Momo, quando a cidade mal tinha comemorado seu primeiro ano de vida. Os primeiros moradores da capital contam que a folia existia desde antes da inauguração, em 21 de abril de 1960. Era um desejo de Israel Pinheiro, administrador da capital federal, fazer, no meio do Cerrado, o primeiro Carnaval da nova cidade. A princípio, os festeiros se reuniam na Travessa Dom Bosco, na Cidade Livre – hoje Núcleo Bandeirante –, com apenas alguns solitários fantasiados pelas ruas. Foi oficialmente em 1961 que a festança começou. Naquele ano, a alegria tomou conta dos salões de bailes dos clubes do Núcleo Bandeirante e do Plano Piloto. Em outubro, foi fundada a primeira escola de samba, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro. A inciativa veio de um grupo de moradores cariocas reunidos em um dos primeiros núcleos urbanos da cidade, ainda chamado de Bairro do Gavião – hoje Cruzeiro. A estreia foi em 1962, ocupando a W3 Sul, ponto de encontro da sociedade brasiliense na época. Além da Unidos do Cruzeiro, desfilaram outras três escolas: Alvorada em Ritmo – que venceu as três primeiras disputas –, Brasil Moreno e Unidos de Sobradinho. Primeiros desfiles de escolas de samba em Brasília | Foto: Divulgação / Aruc Durante muitos anos, a apresentação das agremiações foi o ponto alto do Carnaval brasiliense e também serviu de base para o fomento do samba na cidade e a disseminação do ritmo também em blocos de rua, como o Pacotão. Vencedora absoluta Das quatro escolas que se apresentaram em 1962, apenas a Unidos do Cruzeiro ainda existe e completa 59 anos em 21 de outubro deste ano. Depois dos três carnavais vencidos pela Alvorada em Ritmo – 1962, 1963 e 1964 -, a escola do Cruzeiro começou a vencer em 1965 e conquistou, logo de cara, o pentacampeonato. Nos primeiros anos, a Associação Recreativa Cultural Unidos do Cruzeiro desfilava com o nome de Unidos do Cruzeiro. Foi assim até que um jornalista do Correio Braziliense, à época autor de muitas reportagens sobre a associação, reclamou que o nome era muito grande, difícil de ser usado em títulos. Ele sugeriu que a escola adotasse a sigla Aruc, que pegou. Desfile dos anos 1970: Aruc conquistou 31 dos 48 desfiles oficiais dos quais participou | Foto: Divulgação / Aruc A Aruc conquistou uma hegemonia como pouco se viu nos carnavais do Brasil. Ganhou 31 dos 48 desfiles oficiais dos quais participou. A escola trazia para a avenida 1,2 mil componentes com fantasias luxuosas, no padrão carioca da Sapucaí. As escolas de samba do DF desfilaram até 2014, quando a festa teve como vencedora a Acadêmicos da Asa Norte, escola fundada em 1969 e a segunda maior detentora de títulos – sete, ao todo. Palcos da folia Entre 1963 e 1966, a festa tomou conta da Rodoviária do Plano Piloto | Foto: Arquivo Público do DF Depois da W3 Sul, o palco da diversão foi transferido para a plataforma superior da Rodoviária de Brasília, onde ficou até 1966. A partir daí, até o começo da década de 1980, as escolas de samba se apresentavam na região central do Plano Piloto. Em 1982, o desfile foi levado para a Avenida Comercial de Taguatinga, mas logo voltou ao Plano Piloto, nos anos seguintes. As farras carnavalescas memoráveis da cidade lotavam mesmo era o Eixão Sul, entre as décadas de 1980 e 1990, chegando a reunir 50 mil pessoas na noite de desfiles do Grupo Especial, formado por seis escolas. “Foram grandes carnavais, mas aí começou a ter reclamação de moradores, começaram as obras do metrô e tivemos que sair de lá”, conta Moacyr de Oliveira Filho, o Moa, 67 anos, e presidente da Aruc pelo quinto mandato (não consecutivo). Para ele, o melhor lugar de Brasília para desfilar era a Passarela da Alegria, atrás da Torre de TV e que, também conhecido como Caldeirão da Folia, foi o cenário onde as agremiações se apresentaram entre 1997 e 2004. “Era o lugar perfeito, a pista já estava pronta, não tem moradores perto, é um local centralizado, perto da Rodoviária, com estacionamento fácil, não causava grandes transtornos para ser fechado quando as arquibancadas eram montadas”, enumera. “Era um local que incomodava muito pouco a vida da cidade”. Ceilambódromo Em 2005, o Carnaval ganhou um espaço especialmente feito para os desfiles – o Ceilambódromo | Foto: Divulgação / Aruc Segundo Moa, o sucesso do Carnaval no fim da década de 1980 e nos anos 1990 se deve a uma programação cultural extensa e diversificada. Nas chamadas “batalhas de confete”, dois meses antes da farra, um evento pré-carnavalesco agitava as regiões administrativas. “Ia um conjunto de samba, o reinado do Momo e uma escola de samba”, retoma. “Um fim de semana era em Taguatinga, no outro em Ceilândia, no Guará… Cada fim de semana tinha em uma cidade. Isso ajudava a atrair o público.” O presidente da Aruc, Moa, participou de grande parte da história do Carnaval de Brasília | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Ele também lembra que havia dois eventos junto ao desfile das escolas que atraíam grande público: um baile infantil na tarde de domingo no “sambódromo” e todas noites tinha um baile popular quando acabavam as apresentações das agremiações. Em 2005, um novo capítulo marcou a história do Carnaval de Brasília. Por sete anos seguidos, o desfile foi realizado em Ceilândia, onde uma estrutura era montada exclusivamente para a folia, o Ceilambódromo – local em que hoje funciona uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A noite do desfile do grupo especial chegava a reunir 40 mil pessoas, mas, apesar do público, os dirigentes das escolas reclamavam da falta de estrutura e da distância. De Ceilândia, a festa voltou para o estacionamento do ginásio Nilson Nelson, onde permaneceu por mais dois anos até ser suspensa de vez. Há cinco anos as escolas de samba não desfilam em Brasília. Carnaval de rua Desfile do Pacotão em 1979: milhares de pessoas embaladas pela marchinha do Aiatolá| Foto: Divulgação / Pacotão A história do Carnaval de rua de Brasília começou no ano em que a cidade completava sua maioridade (18 anos). Numa época em que o desfile das escolas de samba imperava, em 1978, o bloco Pacotão surgiu timidamente no meio da avenida e, aos poucos, aglutinou multidões. Conhecido por satirizar a situação política do país, o bloco de rua mais tradicional da cidade tem marchinhas com letras ácidas contra políticos e cruza a W3 Sul pela contramão, como forma de protesto. A origem do nome “pacotão” faz referência ao conjunto de medidas anunciadas pelo então presidente da República Ernesto Geisel em 1977, conhecido como “Pacote de Abril”. O tal pacote não foi para a frente e, entre os jornalistas, virou motivo de piada. Da brincadeira, veio a sugestão de criar um bloco. “A ideia era fazer um bloco dos sujos, igual nos carnavais de antigamente, em que as pessoas botavam uma fantasia e iam para a rua. No primeiro desfile, em 1978, parecia um bando de malucos no meio da rua”, conta Moa, um dos fundadores do Pacotão. Naquele primeiro desfile, parte da bateria da Aruc saiu com o bloco e garantiu a diversão dos foliões. “Eu já frequentava a Aruc e pedi apoio ao presidente da escola, que adorou a ideia”, conta o jornalista. “Tanto que o primeiro cartaz de divulgação do bloco dizia: ‘o Pacotão e a Unidos do Cruzeiro convocam o povo para adentrar a avenida’”. Marcha do Aiatolá [Olho texto=”Geisel, você nos atolou, o Figueiredo também vai atolar. Aiatolá, aiatolá, venha nos salvar, que esse governo já ficou gagá.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] Auge do Pacotão, o desfile de 1984 foi o das Diretas Já | Foto: Divulgação / Pacotão O bando de “malucos” totalizou cerca de 100 pessoas em 1978. Um ano depois, o bloco explodiu e atraiu milhares. Naquele ano, foi escrita a marchinha conhecida até hoje como hino do Pacotão, a Marcha do Aiatolá. Em 1979, o general João Figueiredo sucedia a Ernesto Geisel no controle ditatorial do país. Enquanto isso, no Irã, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderava a revolução que, em 11 de fevereiro, derrubou o monarca Mohammad Reza Pahlavi e instaurou a república islâmica. A marchinha caiu no gosto da cidade e milhares de pessoas desfilaram naquele ano. “Quando criamos o bloco, nunca imaginamos que o Pacotão iria se transformar no que se transformou”, conta Moa. Diretas já Mas o auge do Pacotão foi em 1984, ano das Diretas Já, quando uma multidão estimada entre 30 e 40 mil pessoas se entregou ao samba. A marchinha era Cai na real, general, e a maioria dos carnavalescos fez o percurso vestido de amarelo e verde carregando mensagens que pediam a retomada das eleições diretas para presidente. Esse desfile deixou o Pacotão nacionalmente famoso. O Fantástico, da Rede Globo, passou a mostrar o desfile todos os domingos durante alguns anos, simbolizando o Carnaval de Brasília. Ele existe até hoje, mas seus fundadores ficaram mais velhos, se afastaram das funções e não desfilam mais. [Olho texto=”Não adianta mais enrolar, é agora, tá na hora, vamos lá. Ninguém me segura, sai da minha frente. Eu, este ano, vou votar pra presidente. Chega de conversa mole, ninguém engole o tal Colégio Eleitoral. Cai na real, general.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=””] Clubes Clubes de Brasília eram palco de muita folia nas décadas de 1980 e 1990 | Foto: Divulgação/ Iate Clube Os bailes nos clubes também são um capítulo da história do Carnaval brasiliense que merece destaque. Desde os anos 1960, os mais animados vestiam as fantasias, pintavam os rostos e lotavam os salões. Bailes memoráveis eram concorridíssimos até os anos 2000. Em 1961, os carnavais eram celebrados em clubes do Plano Piloto, como no pioneiro Brasília Palace Hotel, e também em boates do Núcleo Bandeirante. Em 1962, foi criado no Hotel Nacional o Baile da Cidade, que contou com a presença da atriz norte-americana Rita Hayworth e do então primeiro-ministro Tancredo Neves. Houve também o baile popular, no Teatro Nacional, ainda em construção. No ano seguinte, o Baile da Cidade, novamente, lotou o Hotel Nacional, e quem apareceu por lá foi o astro hollywoodiano Kirk Douglas. Decoração do baile popular no Teatro Nacional ainda em construção | Foto: Arquivo Público do DF Nos anos 1980, as noites eram embaladas por marchinhas e bandas de sopro. Os bailes dessa época já eram sucesso e reuniam cerca de 5 mil pessoas. Mas o auge mesmo foi nos anos 1990, quando, em festas embaladas por bandas de axé, os brasilienses começaram a ouvir músicas baianas, como as de Luiz Caldas, tocadas, entre outras, pela banda Squema Seis. Também passaram a fazer sucesso as inúmeras festas do estilo micareta espalhadas pela cidade. Havia um revezamento dos dias dos bailes. Os do Iate Clube eram realizados domingo e terça-feira, enquanto no sábado e na segunda a folia tinha como palco o Clube do Congresso. “Os bailes dos anos 1990 reuniam de sete a oito mil pessoas nos dois dias de Carnaval”, lembra Nelson Gonçalves, diretor social do Iate Clube de Brasília. “Nada se compara aos carnavais daquela época”. Em 1996, o Carnaval do Iate foi inesquecível. Cinco bailes aconteceram durante os quatro dias divertimento: dois com a banda Squema Seis, dois com o Batom na Cueca e, no quinto, a folia embalada por um esquema mais tradicional: as marchinhas. “Eles eram no ginásio de esportes onde cabia mais gente”, conta Nelson. Bailes de Carnaval da década de 1990 no Iate Clube chegavam a reunir 8 mil pessoas | Foto: Divulgação / Iate Clube No Iate, o público era mais velho, na faixa entre 30 e 40 anos, e os bailes, mais refinados. Os mais jovens iam para o Minas Tênis Clube e para a Associação Atlética Banco do Brasil (AABB). Marilda Nepomuceno aos cinco anos: fã de Carnaval desde pequena | Foto: Acervo pessoal Moradora da Asa Norte, Marilda Nepomuceno, 57 anos, é apaixonada por Carnaval desde criança. Nos anos 1970, segundo ela, a diversão acontecia nas matinês do Brasília Palace e, posteriormente, a folia era nos clubes. “A gente percorria todos os bailes, o Minas, a AABB, o Iate”, lembra. “Todo mundo ia”. Hoje, a diversão de Marilda e seus amigos é nos blocos de rua, que se tornaram a cara do Carnaval de Brasília.
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Orédio Alves de Rezende, pioneiro das autopeças no DF
Induspina, a primeira loja para peças de automóveis no DF | Foto: Arquivo pessoal Parecia um domingo de sol como outro qualquer, quando o empresário Orédio Alves de Rezende decidiu levar a família para um piquenique ali nos arredores do Aeroporto Internacional de Brasília. Era final dos anos 1960 e o lugar era ermo, como quase toda a cidade na época. “A estrada que ia para o aeroporto passava pela Velhacap, hoje, Candangolândia”, lembra o pioneiro. De repente, um susto. Estaciona atrás de seu DKW-Vemaguet cinza um carro preto. “Era o presidente Juscelino Kubitschek, que ia para o aeroporto pegar um avião. Só ele e o motorista. Desceu do carro, deu um beijinho nas crianças, pegou um pedaço de qualquer coisa para comer e foi embora”, recorda. “Nessa história pouca gente acredita”, ri. Goiano de Pires do Rio, Orédio Alves, hoje com 83 anos, é daqueles desbravadores que chegaram a Brasília quando a cidade era um enorme canteiro de obras. Ou seja, bem antes da inauguração da nova capital, em 21 de abril de 1960. Havia poeira espalhada por toda a cidade – um verdadeiro manto vermelho estendido no horizonte. A vinda foi em 1957, para a Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, com a missão de instalar na Segunda Avenida, nº 970, a filial da Induspina Autopeças, primeira unidade da empresa fora de Goiás e a primeira loja do ramo no Distrito Federal. Pioneira no ramo de peças de veículos, a Induspina abriu a primeira loja no Núcleo Bandeirante | Foto: Arquivo pessoal O terreno foi cedido, pessoalmente, por Bernardo Sayão, engenheiro da equipe do arquiteto Oscar Niemeyer e do urbanista Lucio Costa – responsáveis pela idealização e construção de Brasília. “As pessoas achavam que eu estava doido ao vir para cá sozinho. Quando cheguei, camarada, aqui era tudo isolado, não tinha ninguém conhecido, só barulho de máquina dia e noite”, conta. “Eu vim para Brasília por causa do Bernardo Sayão, ele era sogro de um dos Pina, família que dominava Goiás na época, e da qual meu patrão fazia parte. Um dia, ouvi uma conversa deles assim: ‘se vocês, que são goianos, não se interessam por lá [Brasília], quem vai se interessar? Vocês têm que abrir uma loja lá’”. Sugestão dada, seu Orédio assentiu e seguiu as dicas. Filme O Legado de um Pioneiro, disponível apenas no Youtube, conta a história do pioneiro Orédio Alves de Rezende | Foto: Reprodução Homenageado em novembro deste ano com o título de Cidadão Honorário de Brasília, concedido pela Câmara Legislativa do DF, o empresário teve sua trajetória transformada em filme. Com duração de 60 minutos, O Legado de um Pioneiro – disponível apenas no Youtube -, é mais do que o resgate de uma vida, é a evidência dos princípios de um homem cujo maior prazer sempre foi trabalhar. “A primeira ideia era escrever um livro, mas o filme se tornou um projeto mais viável”, conta o produtor e roteirista Flávio Resende, filho de Orédio. “É a história de um homem que dedicou a vida ao trabalho, os seus valores. Sua trajetória é uma inspiração para as novas gerações”, avalia. Referência no mercado A Induspina tem até hoje uma loja na W3 Sul | Foto: Lúcio Bernardo Jr / Agência Brasília Graças ao esforço do pioneiro, a Induspina Autopeças, uma das raras empresas nascidas antes da inauguração da cidade – ainda em atividade – , se tornaria, em pouco tempo, uma referência no segmento. Sobretudo porque disputava a concorrência no mercado local com uma única empresa, a Peças Moreira. Com o sucesso do negócio, veio a expansão. O lugar escolhido para a nova sede seria a 514 na W3 Sul. Naquele ano de 1960, mesmo com a inauguração da cidade, poucos lojistas se arriscavam a ter um empreendimento na rua comercial mais popular do DF – W3. Existiam apenas a Bibabô, loja de departamentos, o restaurante Roma e a Pioneira da Borracha, essas duas ainda em funcionamento. O empresário Orédio: “Gosto muito de Brasília, vi essa cidade crescer” | Foto: Lúcio Bernardo Jr / Agência Brasília “Todas as empreiteiras que trabalharam na construção de Brasília eram cadastradas na Induspina. O que eu tinha de peça, vendia, porque não tinha onde comprar, e as máquinas e caminhões trabalhavam dia e noite. Com isso, a empresa foi ficando muito popular, muito benquista”, explica. “Eu nunca deixei de atender uma pessoa que batesse na minha porta. Podia ser qualquer hora da noite ou da madrugada”, lembra, orgulhoso. Assim, trabalhando de sol a sol, um belo dia de 1964, Orédio aceitou abrir sociedade e expandiu os negócios, totalizando, até o final dos anos 1980, cinco filiais: Núcleo Bandeirante, Asa Sul, Taguatinga Centro, SIA e Asa Norte, congregando 80 funcionários. Hoje, há apenas uma loja, na W3 Sul, com 11 empregados. “Tudo o que sei eu aprendi com o seu Orédio”, se emociona Ronaldo Leite, que trabalha há mais de 20 anos na empresa. A carteirinha de pioneiro de Brasília | Foto: reprodução “Gosto muito de Brasília, vi essa cidade crescer”, afirma o empresário, que faz questão de exibir a carteirinha da Associação dos Candangos Pioneiros de Brasília. Afastado da empresa por motivo de saúde, ele dedica seu tempo, há mais de 20 anos, à fazenda Santa Rosa, a 78 km de Brasília. “Eu sou filho de fazendeiro, trabalhei na roça”, conta. Orédio lembra ainda que, no fim dos anos 1970, quase início da década seguinte, foi considerado o maior produtor de gado Gir (raça originária do Norte da Índia) da região. “Participei de tudo quanto é exposição, tenho a parede forrada de taças que ganhei com o meu gado”, revela.
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A arte de transformar as flores secas do Planalto Central
Assim como os inconfundíveis traços do arquiteto Oscar Niemeyer desenhados nos concretos de várias edificações de Brasília, as flores secas do Cerrado são uma das marcas inconfundíveis do Distrito Federal. Trata-se da natureza local em seu estado bruto e puro. A essência da beleza rústica. Nas mãos de artesãos habilidosos, elas se transformam em belos arranjos montados que, há quase 50 anos, encantam moradores da cidade e turistas de todo país bem ali, em frente à Catedral Metropolitana de Brasília. Ao todo, são dez bancas que comercializam mais de 50 tipos de espécies de cores vibrantes e díspares. Elas podem ser encontradas no cerrado das cidades de Santa Maria, São Sebastião, Cristalina e Padre Bernardo. Também na vegetação seca de Alto Paraíso (GO). Em menor escala, entre uma repartição e outra do Plano Piloto, a poucos metros da algazarra das crianças nos pilotis ou na agitação urbana das entrequadras. São elas: pingo de ouro, sempre viva, papoulinha, amarelão, capim do cerrado, ourinho, folhas-moedas, capim-rabo-de-raposa, pireque-branco, muitas plumagens e pétalas, além, claro, de sementes e frutos de diversas árvores. Ah, sim, e tem a emblemática papipalon ou papipalan, a preferida de Lucio Costa [urbanista] e Oscar Niemeyer que, dizem os entendidos, o inspirou a projetar a Torre Digital. “Onde ela dá, parece um tapete branco”, explica Pedro dos Santos Fernandes, o mais antigo dos floristas da Catedral. Pedro Fernandes começou o ofício aos 7 anos | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Quando ele começou a vender os artefatos naturais do cerrado, tinha de sete para oito anos. Isso era início dos anos 70, pouco antes da inauguração da Catedral, em maio de 1970. Aprendeu o ofício com o pai, Dionísio, paraibano que chegou à nova capital no final dos anos 60 para encarar a construção civil. Não deu pé. Primeiro porque os canteiros de obras já estavam lotados de operários e, depois, porque achou o trabalho nos canteiros de obras pesado demais. “Como ele gostava de mexer com flores lá não foi difícil de se adaptar aqui”, conta Pedro Fernandes, hoje beirando os 60 anos. “Só que aqui ele encontrou uma variedade rica e única”, constata. Alquimia verde No livro, “O Menino do Dedo Verde” (1957), do francês Maurice Druon, Tistu é um guri com dom especial para lidar com flores. Numa espécie de Rei Midas da natureza, tudo que ele toca se transforma em arranjos de beleza única, jardins ornamentais. Impressionante a mágica que os “floristas” da Catedral Metropolitana fazem com as folhas, sementes, hastes, plumagens e flores que colhem pelo cerrado. É um tipo de artesanato genuíno e autêntico, 100% não industrializado que faz parte da história da nossa cidade. Assim como os prédios de Niemeyer e o estilo urbanístico de Lucio Costa, um de nossos cartões postais. Verdadeiros alquimistas do verde, eles vão criando composições artesanais das mais criativas formas, combinações perfeitas que encantam turistas, influenciam designers, lojas de decorações, compartilhando um pedacinho de Brasília com o resto do país. “Você tem que colher uma flor de qualidade, de primeira. Se pegar no tempo certo ela dura até 10 anos. Agora se pegar fora do tempo não dura um mês”, ensina o experiente Pedro. “Eu amo mexer com as flores do cerrado, peguei amor pela profissão”, confessa. Duas técnicas são usadas para produzir as flores secas | Foto: Joel Rodrigues / Agência Brasília Dois tipos de técnicas fazem sucessos na barraca dos artesãos de flores há décadas. As duas exigem dedicação e paciência num processo que vai da colheita ao armazenamento, passando pela desidratação, fervura em soda cáustica, clareamento com cloro, transformando-as em folhas esqueletizadas. Banhadas com material da cor de ouro, elas brilham ao sol. Já as flores pintadas na anilina, com tinta especifica para couro, palha e flores, demoram mais a ficar pronta – cerca de seis horas. Ambas fazem os turistas suspirarem de encanto e surpresa. “Eu nunca tinha visto esse tipo de trabalho antes. Lá em Belo Horizonte temos um mercado central que vende muito artesanato. Mas nada parecido”, comenta a designer de moda mineira Raquel Bacellar. “A cultura nordestina é muito rica nesse tipo de trabalho manual, até conhecemos algumas dessas flores, mas eu nunca tinha visto algo tão original e belo feito com elas”, comenta o empresário pernambucano Valdir Villar. O experiente Pedro conta que os brasilienses compram bastantes, mas os turistas de fora são imbatíveis. “Ao contrário do que parece elas são fáceis de carregar e não estragam fáceis”, tranquiliza. E ao que tudo indica muitos turistas ainda vão se deslumbrar com a beleza bucólica das flores secas do cerrado. Isso porque se trata de uma tradição que passa de pai para filho, como aconteceu com seu Pedro, perpetuada na família. “Eu aprendi esse ofício com o meu tio, se eu não mexesse com flores, nem sei o que seria”, lembra o cearense Guajará Ferreira de Paula, desde os 18 anos no ramo. “Os filhos ajudam tanto na venda, como na colheita. Vou com o grupo para o mato”, revela Pedro.
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Nascidas com Brasília: tão perto, tão longe
Ivoone Araújo Eduardo, 88 anos, chegou em Brasília aos 28 anos, com o marido João Eduardo Neto e a filha Leila, na época com apenas 6 anos. O marido era funcionário do Ministério da Fazenda, fora transferido do Rio de Janeiro para a nova capital e se mudou com a promessa de morar na 709 Sul, na Asa Sul. Mas as casas na quadra estavam ocupadas e eles acabaram instalados em uma nova cidade que estava sendo criada nas proximidades do Plano Piloto, projetada pela equipe de Lucio Costa: o Cruzeiro. A enfermeira aposentada recorda detalhes daquele 30 de março de 1959. “Aqui era tudo Cerrado. Só tinha mato, poeira, gavião, veadinho, cobra, tudo que era bicho. Dez casas estavam sendo construídas, não tinha uma estrada”, conta. “Eu vim tão arrumada, com uma saia de veludo, sapato de verniz, toda bonitinha. Quando cheguei aqui e botei o pé na terra, a poeira subiu, a lágrima desceu”, conta. A família de Ivoone Araújo Eduardo, 88 anos, foi a primeira a viver no Cruzeiro | Foto: Lúcio Bernardo Jr./Agência Brasília A família foi a primeira a viver no Cruzeiro. A matriarca escolheu a casa que queria, a terceira da quadra, e mora nela até hoje. Ivoone não esconde o incômodo que a falta de infraestrutura da cidade provocava nos primeiros moradores. “Um mês depois que a gente chegou é que fizeram a pista”, diz. “Eu não queria ficar em um lugar sem luz e sem água. Aí combinaram de mandar o carro-pipa trazer água duas vezes por semana e a (construtora) Camargo Corrêa tinha um acampamento aqui perto e fornecia luz para a gente até 22h”, relata. Aos finais de semana, funcionários do Grupo de Trabalho de Brasília (GTB), órgão responsável por alojar os novos moradores da capital, disponibilizavam um ônibus para levá-los à Cidade Livre para fazer as compras da semana. Comprava-se em grande quantidade para estocar. Só mais tarde a prática da feira semanal passou a ser comum. A Feira Permanente do Cruzeiro hoje funciona onde era o acampamento da Camargo Corrêa. Dona Ivoone tinha as chaves das casas e ficou incumbida de mostrá-las aos funcionários do governo federal que eram transferidos, a maior parte deles vindos do Rio de Janeiro, mas, também, de outros estados do Sudeste e até do Nordeste. “Me deram licença do hospital para fazer esse serviço. Eu fiquei mostrando as casas. Lembro que quando chegou o segundo morador ele ficou louquinho, queria ir embora no mesmo dia”, conta a mulher que, no Rio de Janeiro, trabalhava no Hospital dos Servidores do Estado e, em Brasília, ajudou a fundar o Hospital das Forças Armadas (HFA). “Eu entendi ele, quis fazer a mesma coisa. Muita gente não tinha nada, mas eu deixei minha casa no Rio e vim para Brasília”, ressalta. No começo, o grande motivador para a permanência de Ivoone era financeiro: o marido ganhava três vezes mais. “Ele recebia o salário e uma dobradinha. O salário era pago e, ao longo do mês, o ordenado saía mais duas vezes”, conta. Com o tempo, a família criou raízes no quadradinho. Os filhos cresceram, se casaram, vieram os netos e bisnetos… “A gente foi acostumando, melhorando a situação. Demorou quase um ano para eu me habituar, mas hoje eu não queria morar no Rio”, fala. Cemitério e Bairro do Gavião O Cruzeiro crescia rápido. O governo construiu mais casas. Água e luz, no entanto, só vieram dois anos depois dos primeiros moradores. Na época, a cidade ainda não tinha sido batizada de Cruzeiro. O nome oficial era Setor de Residências Econômicas Sul (SRE-S), mas, ainda não acostumados com as siglas, nenhum dos moradores do local decorava o nome certo. Registro de inauguração de mercado no Cruzeiro em 1966 | Foto: Arquivo Público do DF Surgiu, então, o apelido de “cemitério” por causa da situação ainda precária, com vegetação alta por perto e animais transitando nas ruas. “De longe via-se apenas as casinhas brancas no meio da poeira vermelha”, afirma o historiador Rafael Fernandes de Souza, que cresceu no Cruzeiro e escreveu o livro Cruzeiro, retratos de sua história: 1959 a 2009. O local também era chamado de Bairro do Gavião, por causa da grande quantidade desse tipo de animal solto na rua. Em 1960, um grupo de moradores, insatisfeitos com o nome do local onde moravam, procurou o jornal Correio Braziliense, cuja equipe resolveu batizar a cidade com o nome de Cruzeiro porque ela ficava próxima ao cruzeiro onde fora celebrada a Primeira Missa de Brasília, em 3 de maio de 1957. Sete anos depois, começou a construção dos prédios, o que deu nova configuração à cidade. O projeto original era inspirado na proposta de apartamentos populares de Lucio Costa, mas acabou desvirtuado. A ideia era um gabarito de 3 andares, a exemplo das quadras 400 da Asa Sul. “Provavelmente, devido à especulação imobiliária conseguiu-se um andar a mais e o setor ficou descaracterizado”, diz o historiador Rafael Fernandes de Souza. A nova parte da cidade ganhou o nome de Setor de Habitações Coletivas Econômicas Sul (SHCE-S), mas, ainda resistentes às letras, os moradores pegaram carona na mudança monetária e o setor foi apelidado tal qual a nova moeda à época: Cruzeiro Novo. Obras de infraestrutura do Cruzeiro Novo | Foto: Arquivo Público do DF O outro lado da moeda A menos de 10km do centro da nova capital, os pioneiros da região administrativa mais próxima do Plano Piloto também reclamavam da distância entre o Cruzeiro e a Asa Sul, parte da cidade que já existia. Se eles achavam longe, imagina quem decidiu ir morar no Lago Sul? Numa época, vale salientar, em que nenhuma das pontes estava construída e era preciso dar a volta pelo aeroporto para chegar ao bairro nobre, que só se transformou oficialmente em cidade em 1994. “Na época, grande parte do comércio da Avenida W3 Sul ia até a 508 Sul. Era preciso dar a volta e ir até lá para comprar qualquer coisa, até um cigarro”, lembra o empresário pioneiro Gilberto Salomão, aos 88 anos. Gilberto Salomão, o primeiro a investir no Lago Sul | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília A ocupação no Lago começou quando a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) decidiu construir casas no bairro para servir de residência dos seus diretores. As 15 primeiras, nos conjuntos 5, 6 e 7 da QL 1 (hoje QL 8), ficaram prontas em junho de 1958. Elas não foram construídas em lotes vizinhos, mas salteados, para estimular o interesse de outros a construir e também morar no Lago Sul. Em 1959, foram construídas, nas quadras internas do Trecho 0, atual QI 3, 20 casas para os oficiais da Aeronáutica, devido ao fato de a área ficar próxima da Base Aérea. Foto: Arquivo Público do DF [Olho texto=”Você sabia? Os primeiros moradores do Lago Sul foram Ney Dutra Ururahy, que era chefe de gabinete de Israel Pinheiro, e Joaquim Alfredo Tavares, chefe do Departamento de Terras e Agricultura da Novacap. Eles ocuparam as casas dias depois delas ficarem prontas, em junho de 1958″ assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] As casas não tinham luz nem água, usavam lampiões de querosene e a água chegava na carroceria de caminhões ou camionetes. “Mais tarde, quando começaram a erguer a igrejinha (de madeira) de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, o pároco comprou um grupo gerador que cedia energia aos vizinhos durante algumas horas”, conta Lourenço Fernando Tamanini, no livro Brasília, Memória da Construção: A surpreendente história do Lago Sul e outras histórias exemplares. Tamanini morou no Lago Sul. No livro, ele conta que a casa, na QI 5, comprada em 1972, era “não só é a mais antiga do bairro, mas possivelmente a mais antiga do Distrito Federal”. Segundo ele, ela foi edificada no começo de 1957 e abrigou engenheiros da Companhia Construtora Brasileira de Estradas (CCBE), empresa paulista de terraplenagem que se deslocara para o Planalto Central para participar dos trabalhos de construção da nova capital. “Não era uma casa isolada, fazia parte do acampamento da empresa, que agrupava algumas outras edificações, alojamentos, oficinas, almoxarifado e até uma piscina”, diz o livro. Lago Sul, nem de graça Mas a história do Lago Sul se confunde à de Gilberto Salomão, o primeiro empresário a investir naquelas terras no fim do mundo. O empresário, que chegou com Brasília ainda em construção, em setembro de 1958, comprava lotes na Avenida W3 Sul, construía e vendia as modestas casas. Mas quando os lotes foram escasseando e encarecendo, ele achou ter encontrado nos terrenos do Lago Sul a solução: eram maiores e custavam menos, muito menos. Vista do Lago Sul quando o Centro Comercial Gilberto Salomão ainda estava em construção. Foto: Arquivo “Construí logo sete casas que ficaram prontas em 1962. Mas não apareceu comprador. Eu facilitei o pagamento e nada”, conta. O tempo foi passando e, desapontado, Gilberto decidiu alugar as casas, mas também não apareceram interessados, mesmo depois de o anúncio ter sido repetido semana após semana. “Resolvi então oferecer as casas a parentes e amigos para morarem de graça. Desta forma eu não precisaria me preocupar com a manutenção e com impostos. Ninguém aceitou, nem meu irmão”, recorda-se. Lojas do Centro Comercial Gilberto Salomão. Foto: Arquivo Público do DF Ninguém queria morar em um lugar longe, cheio de mato e com difícil acesso. As casas continuaram fechadas, solitárias e sem vizinhos até 1965, quando o médico pioneiro José Farani, que construiu o primeiro hospital particular de Brasília, o Santa Lúcia, chegou. Gilberto começou a se perguntar o motivo pelo qual seu empreendimento não tinha dado certo e, em conjunto com diretores da Novacap, chegou a uma resposta: faltava comércio no bairro. Foi assim que ele comprou um terreno e começou a construção do centro comercial que leva seu nome. Quando o Gilberto Salomão começou a ser construído, em 1965, existiam no Lago Sul pouco mais de 50 casas, incluindo as 15 erguidas pela Novacap, as 20 da Aeronáutica e as sete construídas pelo empresário pioneiro. Subiu para 497 após a inauguração do conjunto de lojas, em 1968. ”Foi um bom avanço, mas ainda insignificante em relação aos 5.958 lotes previstos no projeto de urbanização”, afirma o pioneiro Tamanini. As pontes só chegaram ao Lago Sul seis anos depois. A primeira deveria ter sido a Costa e Silva, um projeto de Oscar Niemeyer feito em 1967. As obras, iniciadas em 1973, ficaram anos paralisadas e a ponte só foi inaugurada em fevereiro de 1976. Inauguração da primeira ponte no Lago Sul. Foto: Arquivo Público do DF A primeira a ser de fato utilizada foi a Ponte das Garças, conhecida como Ponte do Gilberto, cuja construção durou poucos meses. Feita em um trecho estreito e pouco profundo do lago Paranoá, as obras começaram em junho de 1973 e a inauguração ocorreu em janeiro de 1974.
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Nascidas com Brasília: senhoras e senhores, com vocês… as satélites
“Naquela época, milhares de imigrantes, muitos com suas famílias, se dirigiam ao Planalto Central em busca de empregos. A construção de acampamentos de madeira não podia mais atender à demanda”. A frase de Ernesto Silva, pioneiro que foi diretor da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) na época da construção de Brasília, está no livro História de Brasília e explica o surgimento das primeiras cidades-satélites. O ano é 1958. A capital sequer tinha sido inaugurada e novos imigrantes desembarcavam aqui todos os dias. No livro Brasília Kubitschek de Oliveira, o escritor, jornalista, historiador e ex-governador do Distrito Federal Ronaldo Costa Couto relata que, em 1º de novembro de 1956, havia 232 operários em Brasília. Em fevereiro de 1957, a cidade já é um vasto canteiro de obras, com cerca de três mil candangos e mais de 200 máquinas em atividade incessante. Os números crescem em ritmo vertiginoso. Recenseamento do IBGE mostra 12,7 mil residentes em julho de 1957, número que passa para 28,8 mil habitantes em 1958, quando foi criada Taguatinga. No início de 1959, mais 30 mil pessoas chegaram e a população total era superior a 60 mil habitantes na inauguração de Brasília. Primeiros estabelecimentos comerciais de Taguatinga na Avenida Central em 1961. Foto: Getúlio Romão Taguatinga foi a primeira cidade-satélite criada pela Novacap com o objetivo de proporcionar aos candangos que ajudaram a construir a capital a aquisição de um terreno para a construção da casa própria. “Taguatinga não foi uma invasão, não foi uma imprevidência”, ressalta Ernesto Silva. Inicialmente chamada de Vila Sarah Kubitschek, Taguatinga surgiu devido ao crescimento populacional da Cidade Livre, que não conseguia mais suportar a massa de imigrantes que chegavam à capital – sem ter onde morar, os recém-chegados passaram a se alojar em acampamentos ao longo da Avenida W3 e nas imediações do Núcleo Bandeirante. Taguatinga: planejada, mas adiantada Taguatinga foi planejada por Lucio Costa, mas deveria nascer apenas dez anos depois da inauguração de Brasília. Em junho de 1958, o traçado da cidade estava apenas em estudos, mas a pressão popular fez com que a Novacap acelerasse o assentamento das famílias na cidade-satélite. Foto tirada nas proximidades da C3, no centro de Taguatinga, em 1964. Foto: Getúlio Romão “Era um sábado. Cinco de junho de 1958. Juscelino estava em Brasília e fora convidado a jantar no restaurante JK, na Cidade Livre. Ao cair da tarde, soubemos que grande massa popular, que estimamos em duas mil pessoas, empunhando cartazes com dizeres como ‘Queremos ficar onde estamos’, se portava à frente do restaurante”, conta Ernesto Silva. Israel Pinheiro, então presidente da Novacap, pediu que sua equipe fosse ao local e, na ocasião, eles acalmaram os manifestantes falando sobre a criação da cidade-satélite a 25 quilômetros do Plano Piloto. “Cumprindo o prometido, às sete horas da manhã do dia seguinte comparecemos à Vila Sarah Kubitschek e parlamentamos com os representantes da comunidade. Mostramo-lhes a planta de Taguatinga e fizemos ver a eles a vantagem de já se instalarem nos seus próprios lotes onde, mais tarde, poderiam construir a casa definitiva”, relata o então diretor na Novacap, acrescentando que a empresa pública prometeu transferir a população, dar transporte, construir os barracões, providenciar assistência médica e a construção de escolas. Foto: Arquivo Público do DF [Olho texto=”Você Sabia? A Avenida Samdu foi batizada por causa do Serviço de Atendimento Médico de Urgência que havia no local” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] No primeiro dia destinado à transferência dos moradores no local, apenas uma família foi transferida. Em dez dias, cerca de quatro mil pessoas foram alojadas em Taguatinga, que começou a crescer com a chegada do mínimo de infraestrutura: hospitais, escola, a rede de abastecimento de água (ainda que provisória), fossas sépticas, transporte diário para os trabalhadores, feito em caminhões da Novacap. Cidade-dormitório Seis meses após a instalação dos primeiros habitantes, Taguatinga já era uma realidade, com escolas, hospitais, casa para professoras e estabelecimentos comerciais em funcionamento. A cidade foi planejada para ser uma cidade-dormitório para apenas 25 mil pessoas e os primeiros moradores ocuparam a área onde hoje estão localizadas a QSD e a QSC do Setor Sul. “Tudo mudou depois que mudou a capital. A imprevidência e a demagogia geraram a Vila Dimas e Vila Matias, os terrenos foram distribuídos a apaniguados, praças públicas foram loteadas e os lotes foram vendidos a amigos da situação”, relata Ernesto Silva, lembrando que, em 1959, Taguatinga tinha uma população de 3.677 moradores. Imagem aérea do balão da Avenida Central de Taguatinga em março de 1964. Foto: Getúlio Romão “Durante muitos anos a cidade era chamada de cidade-dormitório. As pessoas trabalhavam no Plano e dormiam aqui. Mas os taguatinguenses não gostavam nem um pouco desse título, custamos a tirar esse nome”, diz o pioneiro Getúlio Romão, 74 anos, que chegou à cidade em dezembro de 1960, com o pai, José Romão Filho, aos 15 anos. “Ele foi convencido por amigos e veio fundar uma empresa de ônibus aqui. Naquela época, todo mundo queria vir para Brasília ficar rico”, conta o profissional que se tornou uma espécie de fotógrafo oficial da cidade e tem dezenas de milhares de fotografias de Taguatinga tiradas nesses 61 anos. “Tudo de importante que aconteceu aqui foi registrado por mim. Eu fotografei tudo que cresceu, inaugurou, foi fabricado aqui”, afirma. O pai de Getúlio não ficou rico como planejava. Um ano depois da chegada a Brasília, as vias de ligação entre as cidades foram asfaltadas e o transporte público da capital passou por licitação. A Viação Nossa Senhora Aparecida Ltda. ficou de fora da licitação e faliu, um ano depois de ser montada. “Daí meu pai montou um cine foto, que era o que ele sabia fazer. Vim de uma família de fotógrafos”, relata. Daquela época, Getúlio, que trabalhou de cobrador na empresa do pai, guarda uma recordação sobre o transporte da capital. “Os ônibus do meu pai faziam a linha Plano Piloto-Sobradinho. Como a estrada era de terra, na época de chuvas, era preciso colocar correntes nas rodas dos ônibus para eles subirem aquela estrada do Colorado”, afirma. Getúlio Romão se tornou uma espécie de fotógrafo oficial da cidade e tem dezenas de milhares de fotografias de Taguatinga tiradas nesses 61 anos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília Sobradinho, a segundinha Sobradinho foi a segunda cidade-satélite criada para ser a moradia definitiva de trabalhadores da construção de Brasília. A cidade foi fundada em 13 de maio de 1960 para abrigar a população que vivia nos acampamentos de empreiteiras localizadas na Vila Amaury, no Bananal e nas invasões próximas à Vila Planalto, inundadas pelas águas do Lago Paranoá. E, também, os funcionários do Banco do Brasil que vieram transferidos para a nova capital. A partir de março de 1960, cerca de 30 famílias, diariamente, eram transferidas para a cidade. No final do ano, o local contava com mais de 8 mil famílias. A ocupação das residências ocorreu de maneira ordenada, mas o plano original da cidade sofreu algumas modificações no decorrer de sua implantação com o reparcelamento de algumas quadras. [Olho texto=”O que desejamos, porém, é que a Taguatinga, a Sobradinho, ao Gama, ao Guará, à Ceilândia e a outras cidades-satélites seja proporcionado o mesmo tratamento que ao Plano Piloto, pois, ali moram seres humanos semelhantes aos que habitam os apartamentos e os palácios de Brasília: os bravos trabalhadores que foram os grandes artífices da obra monumental” assinatura=”Ernesto Silva” esquerda_direita_centro=”centro”] O comerciante Aristides de Almeida Barreto, 91 anos, foi levado para Sobradinho em 1961, dois anos depois de chegar em Brasília, em maio de 1959. Até então, ele morava em uma invasão nos arredores da Avenida W3 Sul. “Fui obrigado a sair de lá. O caminhão encostou para carregar nossa bagagem. Falaram que a gente tinha que ir para Taguatinga, Núcleo Bandeirante, Gama, Planaltina ou Sobradinho. Escolhi Sobradinho, minha mulher ‘arrupiou”, queria ir para Taguatinga”, conta. “Eu tinha vindo aqui passear uma vez e gostei”, justifica. Rua em Sobradinho em 1964. Foto: Arquivo Público do DF Antes da inauguração da capital, ele trabalhava como carpinteiro em uma construtora, mas, nas horas vagas e nos feriados, era camelô. “Desde a Bahia eu gostava de comprar e vender coisas. Montava minha banquinha onde tinha gente, principalmente na W3 e no aeroporto”, conta. Aristides saiu de Araci, município no interior da Bahia, aos 31 anos para tentar a vida na nova capital. “Juntou uma turma e veio, eu nem sabia o que era Brasília. Eu vim sem minha mulher, tinha medo de ser preso, ela não tinha nem 17 anos completos”, relembra. “Mas depois de 90 dias fui buscá-la de pau-de-arara”, completa, referindo-se à mulher, Maria Miranda Barreto, 76 anos. Aristides de Almeida Barreto, 91 anos, e sua mulher Maria Miranda Barreto, 76 anos, em frente ao Bazar Barreto, aberto em 1962. Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília Na cidade-satélite, Aristides trabalhou de pedreiro e carpinteiro até abrir, em 1962, o Bazar Barreto, que funciona até hoje. “Quando recebia uma mercadoria, ia do início ao fim da Avenida W3, de loja em loja perguntando o preço. Aí vinha aqui e botava o meu. Se eu tivesse vendendo caro o pessoal não comprava. Aí eu botava igual ou mais barato um pouquinho. Por isso que eu ganhei dinheiro, graças a Deus”, diz. A mulher, que lavava roupas para os operários na invasão, passou a ajudá-lo na loja. “Era aquele tanto de homem, e eles não sabiam pregar nem um botão”, conta Maria, que era cobiçada na época. “Eram quatro irmãs e ela era a mais bonita. Todo mundo queria namorar ela”, diz Aristides Barreto. Gama, a terceira satélite As terras que hoje constituem a região administrativa do Gama, a terceira cidade-satélite criada, pertenciam à Fazenda Ipê, Fazenda do Alagado, Fazenda da Suzana, Fazenda Ponte Alta e Fazenda Gama, que acabaram desapropriadas para a construção de Brasília. Em 1959, o Censo Experimental de Brasília, feito pelo IBGE, mostrou que cerca de mil pessoas residiam nessa área. Obras no Gama em 1964. Foto: Arquivo Público do DF A cidade foi instituída por lei em 13 de abril de 1960 e inaugurada em 12 de outubro do mesmo ano. Os primeiros moradores foram famílias de trabalhadores oriundas da construção da Barragem do Paranoá e, também, da Vila Amaury, Vila IAPI e Vila Planalto. Posteriormente, a cidade recebeu habitantes do Setor de Indústria de Taguatinga. A ocupação iniciou-se pelo Setor Leste, quadra 21, onde se localizou o núcleo pioneiro, e depois prosseguiu nas quadras 15, 18 e 22. Em 1970, a cidade já tinha cerca de 72 mil habitantes. O Gama veio a ser instalado a 8 km da primeira edificação construída na área da nova capital: o Catetinho, a primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek, cuja obra foi concluída em 10 dias. E chegam Guará e Ceilândia… O Guará foi criado em 1969 para abrigar servidores públicos que ainda eram transferidos do Rio de Janeiro, quase uma década depois na inauguração da capital e, em 1971 surgiu Ceilândia, a cidade mais populosa do DF, atualmente. Em 1969, com apenas nove anos de fundação, Brasília já tinha quase 80 mil pessoas que moravam em barracos em diferentes localidades invadidas. Foi criada, então, a Campanha de Erradicação das Invasões (CEI), o primeiro projeto de erradicação de favelas realizado no Distrito Federal pelo governador Hélio Prates e essa população foi levada para a região ao norte de Taguatinga, nas antigas terras da Fazenda Guariroba. Ceilândia, a cidade mais populosa do Distrito Federal, surgiu em 1971 com o primeiro projeto de erradicação de favelas realizado no DF. Foto: Museu da Memória Viva de Ceilândia A Novacap fez a demarcação dos lotes em 97 dias, com início em outubro de 1970. Em 27 de março de 1971, um sábado, o então governador Hélio Prates lançava a pedra fundamental da nova cidade, no local onde está a famosa caixa d’água, um dos ícones ceilandenses. Naquele dia também teve início o processo de assentamento das 20 primeiras famílias da invasão do IAPI. Pedra fundamental de Ceilândia ficava no local onde está a famosa caixa d’água. Foto: Museu da Memória Viva de Ceilândia Em nove meses, a transferência das famílias estava concluída e as ruas abertas. Nos primeiros anos, a população carecia de água, de iluminação pública, de transporte coletivo e lutava contra a poeira, a lama e as enxurradas. Como todo início de trajetória. VOCÊ SABIA? Ceiândia foi batizada inspirada na sigla CEI e na palavra de origem norte-americana “landia”, que significa cidade (o sufixo inglês estava na moda na época). A primeira vez que um ônibus fez a linha Ceilândia-Plano Piloto foi em 28 de março de 1971, um dia após a chegada da primeira família. Era um coletivo da TCB e a passagem custou 60 centavos. Em 2 de abril de 1971, nasceu, de parto normal, o primeiro ceilandense, Clébio Danton Melo Pontes, filho de Maria Eliete de Melo Pontes e Manuel da Ponte. Clébio se chamaria Ceilândio, mas, graças à interferência de assistentes sociais, o pai do menino mudou de ideia. E mais um pouco de história… Na próxima quinta-feira (7/11), o terceiro e último capítulo da série Nascidas com Brasília conta a história da criação do Cruzeiro e do Lago Sul. A primeira cidade, erguida praticamente dentro do Plano Piloto. Já o Lago Sul, bem mais distante, quase não saiu do papel e só se consolidou após a construção das pontes, que o aproximaram de Brasília. Confira.
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Nascidas com Brasília: as ocupações pioneiras
Quando Brasília começou a ser construída, em outubro de 1956, o Planalto Central já era ocupado por dois núcleos urbanos que davam ares interioranos à região onde seria erguida a capital modernista do país. O mais antigo deles, Planaltina, já era uma cidade um século antes de a nova capital começar a ser desenhada. Fundada em 1933, a outra, Brazlândia, era um povoado da área rural do município goiano de Luziânia e tinha menos de mil moradores em 21 de abril de 1960. Com o início das obras, no entanto, as pessoas começaram a povoar o quadrilátero destinado ao futuro Distrito Federal. Primeiro, foram os engenheiros da Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) que chegaram quando Brasília ainda era um descampado de terra e mato para planejar os primeiros passos da construção. Depois, vieram os milhares de trabalhadores, comerciantes e empresários atraídos pelas oportunidades trazidas pela criação de uma cidade do zero, no meio do nada. Por último, chegaram os funcionários públicos transferidos do Rio de Janeiro. O Núcleo Bandeirante tinha existência limitada ao período da construção. Os lotes deveriam ser devolvidos à Novacap no final de 1959. Foto: Arquivo Público do DF Naquela época, todos pensavam que os candangos iriam embora depois da inauguração da capital. A Cidade Livre, onde hoje é o Núcleo Bandeirante, por exemplo, o principal acampamento dos trabalhadores, tinha existência limitada ao período da construção. Os lotes foram cedidos em sistema de comodato, isto é, a escritura não era definitiva e os terrenos deveriam ser devolvidos à Novacap no final de 1959. Brasília, com o projeto primoroso de Lucio Costa e reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, fora planejada para abrigar 500 mil pessoas, basicamente todas elas funcionários públicos e suas famílias. Mas a força e persistência dos candangos, que se recusaram a ir embora com a inauguração da capital, fez surgir mais cidades que o previsto pelo urbanista. A partir desta quinta-feira (24), a Agência Brasília publica uma série de três matérias que contam a história das primeiras cidades surgidas ao mesmo tempo que Brasília ou logo após a sua inauguração – hoje chamadas de Regiões Administrativas (RAs), mas originalmente batizadas de cidades-satélites. Essa série faz parte de uma série maior que homenageia Brasília às vésperas dos seus 60 anos. As reportagens são publicadas todas as quintas-feiras desde o dia 21 de abril deste ano. A primeira reportagem fala dos acampamentos que acabaram ficando e se tornaram cidades. Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Paranoá, Vila Planalto e Vila Telebrasília. As duas últimas não se transformaram em uma Região Administrativa, mas ajudaram a formar a RA I, o Plano Piloto. Os primeiros acampamentos A Candangolândia abrigava a sede da Novacap até 1959, quando a companhia foi transferida para o Plano Piloto e o local passou a ser conhecido como Velhacap. Foto: Arquivo Público do DF Existe entre os pioneiros uma velha discussão sobre onde nasceu Brasília. O que muita gente não sabe é que, com o início das obras da capital, surgiram, ao mesmo tempo, dois núcleos urbanos com a mesma importância histórica: Núcleo Bandeirante e Candangolândia. Como parte das obras de infraestrutura necessárias à construção de Brasília, foram abertas pela Novacap, em dezembro de 1956, as principais avenidas do Núcleo Bandeirante, chamado de Cidade Livre, previsto para funcionar como centro comercial e recreativo para as pessoas ligadas diretamente à construção de Brasília, pois as cidades de Planaltina, Luziânia e Brazlândia não ofereciam condições e infraestrutura suficientes para sustentação das obras da nova capital. Já a Candangolândia surgiu do primeiro acampamento oficial promovido pela Novacap para administrar as obras de Brasília, em 1956. A cidade abrigava a sede da Companhia, residências das equipes técnicas e administrativas, posto de saúde, hospital, posto policial, dois restaurantes e uma escola para os filhos dos funcionários. Foto: Arquivo Público do DF [Olho texto=”VOCÊ SABIA? Para incentivar a vinda de comerciantes para o Planalto Central, o Núcleo Bandeirante era livre do pagamento de impostos. Daí a origem do nome Cidade Livre.” assinatura=”” esquerda_direita_centro=”centro”] Em 1959, no entanto, a Novacap foi transferida para o Plano Piloto e a Candangolândia passou a ser conhecida como Velhacap. O local, dotado de boa infraestrutura para a época e com variados equipamentos públicos, se tornou uma alternativa de moradia para trabalhadores de todo o país que chegavam para trabalhar na construção de Brasília. Com o fluxo cada vez maior de pessoas que chegavam para a construção de Brasília os acampamentos, que dariam lugar à Candangolândia, se transformaram em uma pequena vila. Logo a população começou a demandar os elementos da vida cotidiana de uma pequena cidade. Cidade desmontada O Núcleo Bandeirante também abrigava o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (ou Hospital do IAPI) e o atual Museu Vivo da Memória Candanga. Traçado com apenas três ruas, o loteamento da Cidade Livre estava destinado a ter uso exclusivamente comercial e, por esse motivo, não eram fornecidos alvarás para residências. Em 1957, já existiam, em construções de madeira, armazéns, casas de tecidos, restaurantes, barbearias, tinturarias, marcenarias, açougues, farmácias, escolas (duas), cinema, bares, pensões e hotéis. Também foram erguidos locais para cultos religiosos, como uma igreja batista, um ponto para cultos kardecistas e uma igreja católica. Com a aproximação da inauguração de Brasília e o medo da desmontagem da Cidade Livre, surgiu um movimento de moradores que reivindicava a fixação da cidade, contrariamente ao estipulado pela Novacap. O Movimento Pró-Fixação e Urbanização do Núcleo Bandeirante chegou a ser apoiado por Jânio Quadros em sua campanha presidencial, mas ele posicionou-se contra a fixação depois das eleições. Foi preciso muita luta. De um lado, o governo tentou transferir os moradores para as cidades-satélites do Gama e Taguatinga, já inauguradas, e ameaçou demolir as edificações. Do outro, integrantes do movimento articulavam vagas para abrigar crianças em creches, buscavam apoio de parlamentares e faziam comícios em favor da permanência. A fixação do acampamento e sua transformação em cidade veio com a aprovação e sanção da Lei nº 4.020, em 20/06/61. A partir de então, os moradores passaram a lutar pela implementação da infraestrutura necessária a uma cidade, que foi sendo feita ao longo da década de 1960, momento em que as edificações de madeira foram sendo substituídas, aos poucos, por edificações de alvenaria. A barragem do Paranoá Outra cidade que teve origem a partir de acampamentos de candangos foi o Paranoá. Inicialmente, em 1957, a região era ocupada por trabalhadores dos canteiros de obras montados para a construção da barragem do lago Paranoá. Após a inauguração de Brasília, em 1960, os habitantes permaneceram no local devido à necessidade de conclusão das obras da usina hidrelétrica. Nessa época, o acampamento de operários chamado de Vila Paranoá já era composto por 800 moradias que abrigavam cerca de 3 mil moradores. Ataíde Pereira das Neves e a Igreja São Geraldo: “Todas as crianças eram batizadas aqui”. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília “Era muita gente, sete companhias que faziam a barragem e todos os operários moravam nesse acampamento”, conta o pernambucano Ataíde Pereira das Neves, 79 anos, que veio para Brasília em 1957, aos 18 anos, para passear. “Um conhecido nosso tinha vindo para cá, foi buscar a esposa e nos contou coisas maravilhosas sobre Brasília. Eu quis conhecer a cidade que estava sendo construída no meio do nada”, diz. Ataíde veio para passar um mês e ficou dez anos sem voltar para a terra natal. “Achei tanto emprego que acabei ficando. Meu pai era um homem de posses e sempre me questionava, em telegramas, se eu não ia voltar. Mas eu quis tentar. Naquela época pegavam as pessoas que queriam trabalhar pelo braço”, diz. “Trabalhei de cozinheiro para os americanos (da empresa Raymond Concrete Pile Company of the Americas), fui marteleteiro dentro da barragem (operava um equipamento que perfurava o solo e as rochas) e fui tratorista. Até para o Juscelino Kubitschek cozinhei, lá no Catetinho”, enumera o pioneiro. Paranoá na década de 1970. Foto: Acervo pessoal O antigo acampamento da Vila Paranoá foi transferido para onde fica hoje a cidade e o local original tornou-se área de preservação ambiental, o Parque Urbano e Vivencial do Paranoá. Ao andar pelo local, seu Ataíde aponta: “Aqui ficava a delegacia, ali era a escola e minha casa ficava na esquina”. Naquela época, os operários se divertiam em festas que aconteciam na casa de Raimunda Lima Santos, 88 anos, que também chegou em Brasília em 1957. Ela tinha 25 anos e veio acompanhar o marido, que se empregou nas obras da barragem. “Viemos do Piauí em um pau-de-arara. Aqui não tinha nada quando cheguei”, lembra. “Só tinha homem no acampamento. As únicas mulheres eram eu, minha mãe e minha irmã”, conta. Da época da construção da capital, os dois pioneiros guardam boas lembranças. Dona Raimunda recorda-se da dificuldade em fazer compras antes da inauguração da barragem. “Não passava ônibus e nem havia comércio. Tínhamos que ir todo fim de semana para o Núcleo Bandeirante fazer compras para passar a semana”, lembra. Raimunda Lima Santos, 88 anos, chegou a Brasília em 1957, aos 25 anos. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília No local onde era o acampamento, ficaram de pé algumas estruturas, como a caixa d’água e a Igreja São Geraldo, construída em 1957 — a segunda igreja mais antiga do DF, tombada pelo pela Diretoria de Patrimônio Histórico e Artístico do Distrito Federal (Depha) em 1993. “Todas as crianças eram batizadas aqui. Era muito trabalho, mas, também, muita alegria. A vida aqui era muito boa”, diz Ataíde. No coração da capital A Vila Planalto decorre da instalação dos acampamentos de várias construtoras que ali se estabeleceram desde 1956 para executar as obras da nova capital. Serviam para abrigar tanto os técnicos envolvidos com as atividades de administração da Novacap quanto funcionários de obra das empreiteiras. Funcionários de diferentes construtoras se instalaram no local durante a execução de diferentes obras, como o Palácio da Alvorada, o Brasília Palace Hotel, além da construção do Eixo Monumental e da Praça dos Três Poderes. Demolição de barracos na Vila Planalto em 1968. Foto: Arquivo Público do DF Em 1958, um grande conjunto de 22 acampamentos se formava ao redor do conjunto das obras prioritárias para a cidade. Como os demais acampamentos de obras, a Vila Planalto estava destinada a ser removida logo ao final dos trabalhos, com a desmontagem das edificações de madeira. Porém, devido à sua localização privilegiada e existência de boa infraestrutura no local, bem como por não haver, à época, nenhuma política habitacional capaz de oferecer melhores opções de moradia para a população, os moradores da Vila Planalto ali permaneceram, criando um núcleo habitacional pioneiro em pleno coração da Capital da República. À beira do lago A Vila Telebrasília surgiu em 1956 como acampamento de funcionários da construtora Camargo Corrêa e se localiza à beira do lago Paranoá, no final da Asa Sul. Semelhante a outros remanescentes de acampamentos pioneiros, já não há exemplos de edificações de madeira originais da época da construção. A lei que regularizou a área e garantiu a permanência dos moradores no local, de 1991, no entanto, exigiu respeito aos padrões existentes de ocupação original com a manutenção da volumetria de edificações baixas e presença de vegetação. Assim, buscou-se a preservação da rua como espaço de lazer e convívio cotidiano, semelhante ao contexto de pequenas cidades tradicionais. A Vila Telebrasília constitui-se, atualmente, como um local de habitação popular dentro do Conjunto Urbanístico de Brasília. E mais um pouco de história… Na próxima quinta-feira (31), o segundo capítulo da série Nascidas com Brasília conta a história da criação das primeiras cidades-satélites. A capital ainda não havia sido inaugurada, mas novos imigrantes desembarcavam no Planalto Central todos os dias. A construção de acampamentos de madeira não atendia à demanda e a Novacap decidiu criar cidades. Taguatinga foi a primeira delas. Confira.
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Uma infância livre na alvorada da capital
A turma da 312 também frequentou ícones da infância brasiliense, como o Parque Ana Lídia, inaugurado em 1971 | Foto: Arquivo Pessoal Amigos da 312 Norte/Facebook Eles cresceram com Brasília. Chegaram à capital em 1966 com a transferência dos pais, funcionários públicos. Tinham 4, 5, 6 anos. Foram morar na mesma quadra, a 312 Norte, e conviveram diariamente até a adolescência, em meados dos anos 80. Faziam tudo juntos. Iam à mesma escola, que ficava dentro da quadra, corriam entre os blocos brincando de pique-pega, jogavam bola, faziam trilhas e exploravam o Cerrado praticamente virgem perto de casa. Guardam, assim, lembranças de uma infância livre e muito divertida. “A gente só ia em casa para almoçar e jantar. Quando não estávamos na escola, estávamos brincando embaixo do bloco”, resume o bancário Ernesto Morais, o Nesto, hoje com 55 anos. Crianças só iam em casa para almoçar e jantar e passavam o dia embaixo do bloco Os vizinhos da primeira superquadra da Asa Norte a ser inaugurada completa, com todos os blocos (são 11 no total) e equipamentos públicos, tornaram-se amigos e colecionam memórias de momentos vividos lado a lado ao longo de uma vida. Um grupo de cerca de 50 pessoas com, em média, 55 anos, é amigo até hoje. Eles se encontram toda sexta-feira à noite em um bar na comercial da 312. Eles cresceram, casaram-se, tiveram filhos e alguns ainda moram ali. “Éramos muito colados”, diz o assistente administrativo Ismael Teles, 58 anos, que participava das brincadeiras, mas tinha que obedecer a regras. “Meu pai era mais severo. Eu tinha hora para brincar, mas também tinha que estudar”, lembra. A 312 Norte foi a primeira superquadra da Asa Norte a ser inaugurada completa, com todos os blocos e equipamentos públicos, em 1966 Apesar de alguns blocos já terem sido construídos, àquela época, em outras quadras da Asa Norte, a 312 foi a primeira a ficar completa na parte norte da capital. Inaugurada em junho de 1966, ela foi ocupada basicamente por funcionários públicos transferidos principalmente do Ceará e do Rio de Janeiro. Em uma época na qual a região era muito mais uma extensão de terra vermelha do que um bairro residencial, a quadra foi, por muito tempo, o local mais populoso de Brasília. Seus 864 apartamentos eram ocupados por famílias numerosas. Na casa de Carlos Cézar Soares Batista – o Cecéu, hoje com 58 anos – por exemplo, eram seis: dois adultos (os pais) e quatro crianças. Ele tinha 5 anos quando chegou em Brasília em 1966, ano em que os pais vieram transferidos do Ceará. Eles trabalhavam no Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS) em Fortaleza. Em Brasília tiveram o quinto filho, Danilo, nascido em 1981. “Era muito menino. Às vezes eram oito, dez filhos e os primos praticamente moravam junto. Era tanta gente, que fazíamos campeonato de futebol por bloco. Montávamos os times por andar”, conta Cecéu, que morava no bloco D. Nesto morava no bloco I e Ismael no bloco K. Cecéu aos 8 anos, no meio de duas amigas da quadra Parque de diversões Os amigos brincavam na própria quadra, com brinquedos baratos e até improvisados. Diferentemente destes tempos atuais de tablets, smartphones, games e outras modernidades eletrônicas, eles soltavam pipa, jogavam bolinha de gude e futebol e brincavam de vários piques – pega, esconde, ladrão. O material de construção também virava brinquedo: tábuas e ripas de madeira ora eram usadas em carrinhos de rolimã, ora viravam tacos de bete, uma versão simplificada do beisebol, quando o grupo é dividido em dois times: um começa com os tacos (rebatedores) e o outro com a bola (lançadores). O time de bete, uma das brincadeiras preferidas da turma Tudo virava brincadeira para as crianças. A água da enxurrada formada quando chovia era represada por eles com areia e outros materiais usados em obras. A quadra foi entregue com asfalto, mas a área dos estacionamentos era livre e usada pela turma como campo de futebol ou de queimada. “Nossa vida era dentro da quadra, que era nosso parque de diversões”, conta Cecéu. “Hoje a gente vem à quadra e nem vê criança”, lamenta. Os irmãos Roberto e Robson Lopes, na década de 1970, brincando embaixo do bloco Às vezes eles saíam da quadra e se aventuravam pelo Cerrado. Passavam horas dentro do mato para chegar à Água Mineral, a pé. Ou iam ao Lago Paranoá, onde aproveitavam para pescar e se refrescar no calor da seca do Planalto Central. “Aqui em volta era tudo mato, não tinha nada. Tinha uma mina onde é a 311 Norte, a coisa mais bonita, a gente brincava na água”, recorda-se o radialista Roberto Lopes, 56 anos, que tinha o irmão Robson, seis anos mais novo, como grande companheiro de aventura. “Ele tem o cabelo branco desde aquela época”, brincam os amigos. Os irmãos cresceram e se casaram, mas continuam morando no mesmo bloco D da SQN 312, cada um em um apartamento com sua família. Mirinzada A turma da 312 também frequentou ícones da infância brasiliense, como o Parque Ana Lídia, inaugurado quando eles tinham cerca de 10 anos, e a Piscina de Ondas, que abriu as portas sete anos depois. O Parque da Cidade, no entanto, ficava longe demais do final da Asa Norte. “Tudo era muito longe. Não era como hoje que todo mundo tem carro. Brincar mesmo era aqui na quadra ou perto dela”, conta Cecéu. Os irmãos Roberto e Robson Lopes moram até hoje no bloco D da 312 Norte. Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília A turma cresceu e surgiu a segunda geração de amigos da 312 Norte. Em 1982, um morador da quadra, que era funcionário da Secretaria de Esportes e Lazer, muito querido pelas crianças, organizou a Mirinzada, um evento esportivo que movimentou a meninada. Nem quadra de esportes existia e as competições aconteceram no asfalto mesmo, nos estacionamentos entre os blocos. Eduardo Teles, 50 anos, é o irmão caçula de Ismael. Ele tinha 12 ou 13 anos e participou do time de vôlei, mas os “atletas” da quadra montaram também times de atletismo, futebol e basquete. Os mais velhos foram técnicos dos times das crianças. Ismael treinou o time apelidado de “Muralha Vermelha”. Eduardo Teles (primeiro agachado à esquerda) jogou no time de vôlei na Mirinzada, em 1982 Eduardo não sabe dizer se apenas os moradores da 312 participaram da Mirinzada ou se o evento foi aberto a outras quadras. Ele só se lembra de que cada equipe vestia uma camiseta de cor diferente – a dele era azul marinho, mas também havia camisetas vermelhas, amarelas e pretas. Recorda também de que as competições reuniam centenas de crianças. “Não me lembro direito, era muito novo. Mas foi um evento que reuniu os moradores de todos os blocos. A 312 era como uma comunidade, todo mundo se conhecia. Não tinha nada em volta”, diz. Adolescentes Por ter, entre os moradores, um grande número de estudantes e professores da Universidade de Brasília (UnB), a 312 Norte logo se tornou um importante ponto cultural da cidade. Foi lá que surgiu, nos anos 1980, o Panelão da Arte (“Para acabar com as panelinhas!”), com a apresentação regular de vários artistas ao ar livre na quadra. Naquela época, a turma, que ainda andava junta, chegou à adolescência. Consequentemente, as brincadeiras embaixo do bloco deram lugar às festinhas, que aconteciam nas salas dos apartamentos; às matinês ao som das bandas brasilienses Aborto Elétrico e Plebe Rude; e aos bailes de carnaval no Minas Tênis Clube, a poucos quilômetros dali. Baianinhas prontas para a matinê da AABB, em 1975 Os clubes do Bolinha e da Luluzinha se misturaram e produziram até alguns casamentos a partir dos namoricos da turma. Cecéu era o galã, enquanto todos os meninos queriam namorar as três irmãs dele. Ele não nega a fama de namorador, mas justifica. “Eu fazia sucesso porque tinha uma mobilete”, diz o hoje servidor público, casado há 32 anos com Cláudia Volpi, 53 anos, que ele conheceu no trabalho. Redes sociais As redes sociais permitem o convívio dos amigos de infância na vida adulta depois dos casamentos e filhos. Eles mantêm um grupo no Facebook que tem 478 membros – umas cinco gerações de moradores da quadra. Lá postam fotos antigas, além de registros das ocasiões em que se encontram e matam um pouco da saudade do passado. Anualmente, grande parte deles se encontra no aniversário da quadra, que fez 53 anos em junho. Na data, moradores e ex-moradores se organizam e armam uma grande festa no gramado que divide a quadra com a vizinha 311. É uma reunião de milhares de pessoas. Alguns já não moram em Brasília. Fabíola Parente Ramalho, 56 anos, aproveita as redes sociais para manter contato com os amigos que ficaram na capital. Ela viveu durante três décadas na quadra, mas desde 1997 mora fora, em Volta Redonda (RJ). “Pela internet conseguimos estar sempre presentes na vida uns dos outros”, diz. “Aquela época foi tudo de bom. Tivemos uma infância muito feliz e saudável. Eu era muito moleca, estava o tempo todo embaixo do bloco, brincando com os meninos no pilotis”, acrescenta. Amigos até hoje: eles mantêm um grupo no Facebook com 478 membros de cinco gerações de moradores da quadra | Foto: Joel Rodrigues/Agência Brasília
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Cine Brasília: a história da cidade contada na telona
Localizado numa entrequadra da Asa Sul, o Cine Brasília é, atualmente, o único cinema de rua da capital federal. Foto: Arquivo Público do DF. Foto: Arquivo Público O Cine Brasília nasceu junto com a cidade. A primeira sessão foi realizada um dia depois da inauguração da nova capital, em 22 de abril de 1960 (saiba mais sobre a história do cinema no vídeo abaixo). O espaço faz parte do projeto arquitetônico modernista desenhado por Oscar Niemeyer. Mais do que isso. Está incorporado no inconsciente dos brasilienses e de representantes da classe cinematográfica brasileira do país como símbolo cultural local. Uma máxima que até já virou clichê, de tão proferida, é a de que “o Cine Brasília é o templo do cinema brasileiro”. Não há quem discorde. “O Cine Brasília é um marco do cinema da cidade. Tinha a função, no começo, de entreter os servidores que vieram para trabalhar na capital”, conta Vanderlei da Silva, coordenador do audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF. A estreia foi marcada pelas gargalhadas do público que conferiu as comédias Anáguas a Bordo (1959), com os galãs Cary Grant e Tony Curtis, e o pastelão A Canoa Furou (1959), protagonizado pelo astro do gênero Jerry Lewis. Com o tempo, o Cine Brasília, o último cinema de rua do DF, ganhou missões mais nobres. Entre elas, a de valorizar a exibição de produções nacionais, especialmente filmes regionais. “Aqui é a casa deles”, garante o gerente Rodrigo Rodrigues Torres, também responsável pela programação dos filmes. “E, principalmente, dos trabalhos financiados pela Secretaria de Cultura via Fundo de Apoio à Cultura”, reforça. [Olho texto=”O Cine Brasília é um dos meus recantos preferidos da cidade. Tem um espaço físico privilegiado, além de ser um cartão-postal” assinatura=”Berê Bahia, pesquisadora e cineclubista” esquerda_direita_centro=”direita”] Esta semana, por exemplo, ainda dá tempo dos brasilienses e turistas de passagem pela capital conferirem a mais recente sensação do cinema nacional, o drama de fantasia pernambucano Bacurau, da dupla Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. Em outras ocasiões são reexibidos clássicos restaurados que marcaram época na cinematografia mundial, como o marco da nouvelle vague, Acossado (1960), de Jean-Luc Godard, ou do Cinema Novo, Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha. Obras referenciais que contam com um público seleto. “Só comecei a frequentar o Cine Brasília em 1982, no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Foi o ano em que Tabu, de Júlio Bressane, foi o vencedor”, lembra a pesquisadora e cineclubista Berê Bahia, autora de um catálogo que conta três décadas do mais importante evento cinematográfico do país, entre 1965-1997. “O Cine Brasília é um dos meus recantos preferidos da cidade. Tem um espaço físico privilegiado, além de ser um cartão-postal”, lembra. Com preço de ingresso bem atraente, um terço (1/3) a menos do valor médio das entradas em outros cinemas da cidade, o Cine Brasília também se caracterizou por exibir filmes que fogem dos grandes circuitos, o chamado mainstream. Aposta na exibição de produções internacionais com temáticas reflexivas, grande parte vindas de embaixadas cujo países apresentam uma cinematografia rara e original, além de documentários, gênero de pouca inserção no mercado. “O Cine Brasília não é um cinema comercial convencional”, explica Rodrigo Rodrigues Torres. “A gente tenta dar espaço a filmes que têm dificuldades de circular na praça”, continua. A casa do Festival de Brasília A outra missão do Cine Brasília, patrimônio imaterial da cidade, é o de trabalhar a formação de público. Para tanto, o espaço abraça dois projetos importantes em parceria com as secretarias de Cultura e Educação dentro do programa Cultura Educa. Ambos direcionados ao público jovem da rede pública do DF. Um deles, Concertos Didáticos, traz apresentação especial da Orquestra Sinfônica de Brasília para a garotada. O outro, Escola vai ao Cinema, leva todas as semanas uma média de 500 alunos para assistir a uma sessão no cinema. “Muitas dessas crianças nunca haviam ido ao cinema”, revela o gerente. “A gente tem apostado nas futuras gerações”, diz, orgulhoso. O local tem uma das maiores telas de cinema do Distrito Federal Nada representa mais a cara do Cine Brasília, no entanto, do que o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Conceitualmente idealizado no seio da Universidade de Brasília (UnB) pelo historiador e crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, junto com os intelectuais da academia, a mais importante mostra de cinema do país surgiu cinco anos depois da inauguração do prédio, em 1965, com o nome de Semana do Cinema Brasileiro. O filme vencedor daquela primeira edição foi o drama social, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, filme de Roberto Santos baseado na obra de Guimarães Rosa. “O Cine Brasília acomoda um dos maiores festivais de cinema do país. Ele sempre foi feito por meio da Secretaria de Cultura, na antiga Fundação Cultural. É um produto do Governo do Distrito Federal”, reforça o coordenador do audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, Vanderlei da Silva. “Talvez o Festival não teria o glamour que tem se não fosse pelo Cine Brasília”, observa. E, em seus 52 anos de edição, glamour foi o que não faltou no Festival, mas não apenas isso. Beldades como Leila Diniz, Sônia Braga, Carla Camuratti e Patrícia Pillar desfilaram pelo corredor do cinema, assim como os cineastas Arnaldo Jabor, Júlio Bressane, Rogério Sganzerla, Ruy Guerra e Vladimir Carvalho. Seu filme O País de São Saruê teve a exibição proibida em 1971, por conta das críticas políticas. O imbróglio culminou com o cancelamento das três edições seguintes do evento: 1972, 1973 e 1974. “A mostra teve vários momentos importantes”, conta Vanderlei da Silva, do Audiovisual da Secretaria de Cultura. “O Cine Brasília resistiu a muitas tempestades. Teve momentos de glória, crítica, descrédito, rejeição”, escreve Berê Bahia no livro 30 Anos de Cinema e Festival – A História do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (1965 -1997). Estrutura e funcionamento Os principais ambientes do Cine Brasília, que é administrado por 12 servidores, fora o pessoal terceirizado da limpeza e segurança, são o hall de entrada, bem próximo as quadras 106/107 Sul. A localização dá um clima de cinema de bairro ao local. Sorte da vizinhança, que pode aproveitar o grande palco, a telona (14m x 6,30m), a enorme sala de público com suas 619 cadeiras e, além disso, na parede, o que poucos sabem, algumas intervenções de Athos Bulcão. No segundo andar, a sala de projeção, equipada com modernos equipamentos de exibição. Importantes nomes do cinema nacional, como Grande Otelo, prestigiaram os eventos no Cine Brasília. Foto: Arquivo Público A mudança do projetor de película 35mm, um charme e importante símbolo de resistência do mais antigo cinema da cidade, é um filme à parte na história desse lugar emblemático. Isso porque os frequentadores cativos, cineastas e produtores, enfim, amantes da Sétima Arte, não queriam saber da novidade visual. Venceu o futuro, a modernidade, porém. O projetor digital 2k, que exibe filmes no formato DCP, ou seja, digital cinema packpage, um formato padrão do cinema digital, não deixa nada a desejar em qualidade de som e imagem a nenhum cinema da cidade. “Todos os estabelecimentos do gênero passaram por essa adaptação que marcou a segunda década do século 20”, conta o gerente Rodrigo Torres. “Nossa projeção do ponto de vista técnico é excelente. Para continuar com sua condição social de exibir filmes, tivemos que passar por essa transição”, emenda. Assista ao vídeo: ?
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Uma construção ousada e um conteúdo recheado de memórias de Brasília
Do lado de fora, colunas que lembram uma aranha – ou uma espaçonave, ou uma Catedral invertida –, o busto de Juscelino Kubitschek e um espelho d’água castigado pela seca de setembro. Dentro, cadeiras do saudoso Cine Bruni (que talvez você nunca tenha ouvido falar), o Jeep onde Bernardo Sayão, Lucio Costa e Israel Pinheiro andavam para visitar as obras de construção da nova capital e a cadeira onde JK se sentou para assistir a primeira missa da cidade, na Praça do Cruzeiro. Memórias, histórias e um apanhado de curiosidades sobre a fundação e os primeiros anos de Brasília fazem parte do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal (IHG-DF), localizado na 703/903 Sul, na Asa Sul. Apesar da grandiosidade arquitetônica do prédio projetado por Milton Ramos – que deixou seus traços no Teatro Nacional, no Itamaraty e no Hospital de Base –, o espaço que reúne museu e escola passa despercebido por grande parte da população. Inaugurado em junho de 1964, se junta a outros institutos de outros estados, além do nacional, sediado no Rio de Janeiro. O propósito é reunir o acervo da fundação de Brasília – e de seu fundador. É um primo público do Memorial JK, entidade privada em homenagem ao ex-presidente do Brasil idealizador de Brasília. Aliás, há muito de Juscelino por lá. Se os restos mortais do mineiro estão hoje no memorial do Eixo Monumental, no Instituto Histórico e Geográfico está a lápide que cobria a sua sepultura antes da exumação do corpo. Peças raras Jeep Willys 1952 branco que transportava os construtores pelas obras da cidade. Paulo H. Carvalho/Agência Brasília O museu do instituto é um caso à parte. Além do atlas apontando a região onde seria construída Brasília, há um baú usado pela comissão Cruls – que visitou a região para estudar o melhor ponto de instalação da nova capital, o Jeep Willys 1952 branco que transportava os construtores pelas obras da cidade, a cadeira onde Juscelino Kubitschek se sentou para assistir a primeira missa, ainda em 1957, além dos enormes projetores de extinto Cine Bruni. Objetos pessoais de JK e parte da exposição do centenário do ex-presidente, criada por Elifas Andreato, também estão abertas aos visitantes. As aulas assistidas pelos estudantes são ministradas em um auditório com as poltronas originais do Cine Bruni que funcionava no Setor Bancário Norte – no tempo em que ainda era permitido fumar em local fechado. Poltronas com cinzeiros originais do Cine Bruni / Foto: Paulo H. Carvalho / Agência Brasília Turistas curiosos em saber mais sobre a cidade aparecem por lá, mas são as crianças e os adolescentes – e até os adultos, do curso de pedagogia da Universidade de Brasília (UnB) –, em visitas agendadas, o público alvo do instituto. Cadeira onde JK se sentou para assistir a primeira missa. Foto: Paulo H. Carvalho/ Agência Brasília A palestra, seguida de visitação e de atividades lúdicas ocorrem nos turnos da manhã e da tarde às segundas, quintas e sextas-feiras. Até dezembro de 2019, a agenda de visitações gratuitas está lotada – e ainda há fila de espera. Até agora, 90 mil estudantes já passaram por lá. Escolas Desde 1994, a história da cidade é ensinada a quem vai ensiná-la. Disposto a diminuir a carência de conhecimento sobre a história e geografia local, o Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal fez um acordo com a Secretaria de Educação. A parceria resultou na criação do programa educacional Distrito Federal: Seu Povo, Sua História. Até agora, 90 mil estudantes já visitaram por lá. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília O IHG-DF disponibiliza seu espaço, instrumentos, equipamentos e acervo histórico-museológico e bibliográfico. Em contrapartida, a pasta libera professores das áreas de história, geografia e pedagogia com perfil para educação patrimonial em museu. Anualmente, são mais de seis mil alunos atendidos pelo programa. A professora Denise Coelho, 48 anos, e mais três colegas: Ivana Caldeira, Otávio Oliveira e Luiz Gustavo Leonel, são os responsáveis por ampliar os conhecimentos dos alunos que visitam o local. “O programa foi criado pela dificuldade das escolas em encontrar material didático que traga o conteúdo, além disso, muitas escolas trabalham a história do Brasil e não fala da história do Distrito Federal. Às vezes outras pessoas de outras regiões conhecem mais sobre a capital que os próprios moradores”, frisa Denise. Formação Todas as terças-feiras, professores da rede pública assistem aulas no curso Distrito Federal – seu povo, sua história, com carga horária de 180 horas. Dali, saem prontos a expandir os conhecimentos do que formou a Brasília de hoje. As atividades acontecem em parceria com a Secretaria de Educação. “Brasília ficou de fora dos livros no período do governo militar. Ajudamos a resgatar muito do que ficou pra trás”, explica a secretária-executiva do Instituto Histórico e Geográfico do DF, Agnês de Lima Leite, há 24 anos na instituição. A equipe de professores do instituto ainda promove um clube de leitura aberto à comunidade em que ao menos um dos títulos lidos trate da história de Brasília. Um trabalho semestral também é feito com alguma unidade de ensino em que os alunos, depois de quatro meses, fazem uma apresentação sobre um tema específico da capital. Neste semestre o protagonista é o Lago Paranoá. Experiências A professora Daniane Bevenito já levou mais de dez turmas para participar da ação. Foto: Renato Araújo/Agência Brasília A professora de geografia Daniane Carvalho Bevenito, 42 anos, já levou mais de dez turmas para participar da ação, como os estudantes do 7º ano do Centro Educacional 04 do Guará. “Todo ano trago alunos aqui. Complementa o meu conteúdo. O material é ótimo e sempre há mudanças nos temas trabalhados.” A estudante Isa Vitória de França Saraiva, de 13 anos, aprovou a iniciativa. “Toda escola deveria trazer os alunos aqui porque possibilita mais aprendizado”, defende. Para ela, aprender a contar a história de própria cidade é importante, ainda mais sendo a capital do Brasil. “Temos que conhecer não só o presente, mas também o passado. Agora tenho mais conhecimentos que poderei passar para meus familiares. Eles também vão gostar de saber”, disse.
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Memorial JK: 38 anos guardando o tesouro da história de Brasília
O recepcionista Euricles Oliveira é o funcionário mais antigo do Memorial JK. Ele estava lá na inauguração e coleciona histórias de quase quatro décadas no monumento | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília “Ele, filho de caixeiro viajante, saiu do nada, da pobreza. Estudou, correu atrás e chegou onde chegou. É incrível e emocionante. Se hoje é difícil, imagina naquela época?”, questiona o funcionário mais antigo do Memorial JK, que após passar anos como motorista e conviver com três gerações de Kubitscheks, assumiu a função de recepcionista. Ou melhor: de contador de histórias. Ele acredita que o monumento cumpre o papel idealizado por Dona Sarah, viúva de JK: manter viva a memória do marido. Carga emocional As visitas ao local são, muitas vezes, carregadas de emoção. As pessoas choram por vários motivos: por recordar ou conhecer as épocas retratadas no Memorial, por reconhecer parentes nas imagens, por se verem retratadas ali. É o que conta Tamires Alves, 31 anos, que trabalha há meia década no monumento. É história viva. Chama atenção pela importância, remete ao passado, tem uma riqueza de detalhes impressionanteVânia de Araújo, 58 anos, turista de Belo Horizonte (MG)direita Conterrâneas de JK, Isaura de Araújo, 82 anos, e Vânia de Araújo, 58, fizeram questão que o Memorial fosse a primeira parada quando resolveram visitar a capital. Moradoras de Belo Horizonte, mãe e filha se impressionaram com a magnitude do monumento. “É história viva. Chama atenção pela importância, remete ao passado, tem uma riqueza de detalhes impressionante”, valoriza a filha, pedagoga. A mãe, por sua vez, volta ao passado com as lembranças que remetem sua infância. “JK foi um grande presidente. Dom Bosco previu Brasília como a capital, no centro do Planalto, e ele conseguiu cumprir a promessa e a profecia”, recorda a idosa. Morada definitiva de JK, câmara mortuária é cercada de obras de arte | Foto: Renato Araújo/Agência Brasília Talvez o espaço que desperte maior curiosidade – e até medo dos menores – esteja no segundo andar. É a Câmara Mortuária, morada definitiva do estadista que nasceu em 12 de setembro de 1901, na cidade de Diamantina (MG). O túmulo onde JK descansa está no centro de um ambiente com paredes esculpidas por Athos Bulcão e um vitral feito por Marianne Peretti. O espaço recebe luz natural que varia de tom de acordo com a posição do Sol. A participação da ex-primeira-dama não é mero adendo. Idealizadora do monumento, sua trajetória também tem destaque. O gabinete de onde ela despachou desde a inauguração tem jardim de inverno feito pelas mãos de Roberto Burle Marx, além de objetos pessoais e fotografias de época. Lado a lado com o marido, a imagem de Dona Sarah se repete no caminho de JK. Ela protagonizou grandes ações de assistência social. Mobilização nacional O projeto arquitetônico do Memorial JK foi inaugurado em 1981. Trata-se de uma homenagem de Dona Sarah Kubitschek para manter viva a memória do marido após sua morte, cinco anos antes. Ela fez uma campanha para adquirir um terreno, doado pelo então presidente João Figueiredo em área icônica — onde a primeira missa foi celebrada, em 1957. Também mobilizou todo o país para angariar doações e recursos para a construção. O ato teve apoio de políticos, amigos, familiares e do povo. A obra foi feita em 17 meses, com projeto do arquiteto Oscar Niemeyer. São 120 metros de comprimento, 32 metros de largura e um pedestal de concreto armado de 28 metros de altura, de onde sai uma grande mão em forma de concha e protege a estátua em bronze, feita por Honório Peçanha, de onde JK acena para a cidade. Os espelhos d’água, as rampas de acesso, e o verde do gramado e dos jardins emolduram o edifício monumental, todo em mármore branco contrastando com o céu da capital. No jardim, uma escultura de Dona Sarah abraçada ao presidente convida o visitante a conhecer um pouco da história do Brasil. Um pequeno monumento de granito negro reproduz uma das frases do ex-presidente. Às vésperas do aniversário, o local passou por manutenção externa que deixou a fachada com cara de nova. Discursos serão publicados E no embalo das comemorações do aniversário, cinco anos de discursos de Juscelino Kubitschek serão transformados em livros. A primeira obra, com as falas proferidas em seu primeiro ano de governo, em 1956, será disponibilizada nesta quinta-feira (12), em sessão solene no Senado Federal. Os outros lançamentos estão previstos até 12 de setembro de 2021, quando JK completaria 119 anos. Ouça o que o presidente disse em alusão à inauguração da cidade, em 1960: Seis perguntas para Anna Christina Kubitschek: Como se deu a escolha dos itens que compõem o acervo do Memorial JK? Quando o Memorial JK foi inaugurado, tínhamos um acervo menor que o atual, com peças apenas coletadas por nossa família. Com o passar dos anos, fomos aumentando ele aos poucos, com a incorporação de novos itens, doados por brasileiros e por amigos, outros obtidos pela nossa equipe. Exemplo disso é o estudo que está ao lado do quadro de Portinari que retrata JK com a faixa presidencial. O nosso saudoso Sérgio Vasconcelos comprou em um leilão e doou ao Memorial. Mas há itens que estão aqui desde o começo e que tem um enorme simbolismo. Caso, por exemplo, da Biblioteca de JK. Ela veio do Rio de Janeiro exatamente como estava montada no apartamento de Copacabana. Outro acervo que também é do início do Memorial é o da sala da minha avó, com seus móveis projetados por Oscar Niemeyer. Mas fui, com o passar dos anos, adicionando os itens, como os vestidos que ela usava, e que fazem imenso sucesso. Como acontece a conservação dos vestuários expostos? Com que frequência são retirados, limpos, repostos? De que forma acontece a limpeza? Essa foi uma ideia que tive após visitar o Metropolitan, em Nova York. Lá havia uma exposição temporária do vestuário de Jackeline Kennedy Onassis, e isso me inspirou a trazer a proposta para o memorial JK, pois as pessoas adoravam aquela mostra. Após minha avó falecer, levei esse toque intimista e que todos adoram para o Memorial JK. Tal como todo o acervo, que é cuidado por duas museólogas, todas as peças passam por limpeza e conservação diária, feita por pessoal especializado e usando as técnicas mais modernas de conservação de acervos. Há mudanças esporádicas nos itens do acervo ou tudo é definitivo? O acervo está sempre sendo modificado e atualizado, com a incorporação de novas peças e mudanças ocasionadas pelo feedback que o público nos dá. Exemplo disso é a galeria de JK e as personalidades. Era uma exposição temporária que virou definitiva. Assim, muitos outros itens foram atualizados e aumentados. Isso sem falar da necessidade de modernizar sempre o espaço. No início, não tínhamos, por exemplo, o elevador para pessoas com deficiência, que hoje proporciona mais conforto a todos os visitantes. Há dois anos, fizemos o grande projeto de digitalização e de plena acessibilidade. É uma renovação constante. Qual é a história da pintura feita por Candido Portinari a JK em 1956? Esta peça está, desde o início, no acervo do Memorial. Trata-se de uma pintura a óleo feita em 1960, com 1,99m de altura por 99cm de largura. Ele a pintou auxiliado por fotos, fazendo uma composição nos tons escuros de preto, terras e verdes e nos tons ocres, amarelo e branco. Os dois sempre foram muito amigos. E JK era um amante das artes, especialmente do modernismo. Tanto é assim que, em 1944, quando era prefeito de Belo Horizonte, promoveu a Mostra de Arte Moderna na cidade. Foi Portinari que, naquele mesmo ano, indicou Guignard para montar o curso de pintura e desenho, embrião da futura Escola de Belas-Artes de Belo Horizonte. Quais os principais desafios de gerenciar o Memorial JK? Passados 38 anos, como é o trabalho para manter viva a memória do seu avô? É gratificante. Às vezes, vou ao limite das minhas energias, pela característica que tenho de administrar planejando o futuro – os planos para 2020, por exemplo, terminei em maio deste ano. Também sou perfeccionista e detalhista, o que faz com que eu viva 24 horas pensando em como gerenciar o Memorial para ser mais dinâmico, acessível e confortável – e isso em conjunto com a vida que nós, mulheres, temos, repleta de compromissos… Mas meu foco principal é justamente gerenciar a memória do meu avô, tentando sempre antever problemas, estabelecer metas e gerar resultados. Qual é o planejamento para levar toda essa história às novas gerações? O Brasil vive um momento único e sensível, em que sentimos a falta da moderação e da conciliação que JK sabia propor. Então, decidimos resgatar suas falas mais importantes como presidente da República. Nesta quinta-feira (12), que marca o 117° aniversário de nascimento do meu avô, vamos lançar, em conjunto com o Senado Federal, o primeiro de uma série de cinco livros com os seus discursos. Este documento histórico estará acessível a toda a população e poderá influenciar e ajudar os políticos e as novas gerações. Até porque iremos doar estes livros, e não vender, facilitando o acesso popular a tantas reflexões profundas, que só ele soube propor ao país.
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