9/3/20 14:08
Atualizado em 10/3/20 às 11:50

José Odair, o Zeca, é um cara “que vive muito a cidade”

Professor da Secretaria de Educação há 30 anos, ele foi criado na 108 Sul, frequentou o clube Unidade de Vizinhança e ia à missa na Igrejinha. “Vivi uma infância singular no fim da década de 60”, conta

44dias para os 60 anos de Brasília

Em homenagem à capital federal, formada por gente de todos os cantos, a Agência Brasília está publicando, diariamente, até 21 de abril, depoimentos de pessoas que declaram seu amor à cidade.

O pai de Zeca era fiscal de tributos em Minas Gerais e foi convidado por Juscelino Kubitschek para o Ministério da Fazenda. “Ele veio em 1966. A família veio em 1970, me lembro, depois da Copa do Mundo”, conta. Foto: Paulo H. Carvalho/Agência Brasília

 

“Durante cinco anos, fui coordenador de um programa nacional do Sesi e tive oportunidade de viajar o Brasil inteiro. Conheci todas as capitais brasileiras, sem contar as viagens a passeio. Algumas cidades do interior, em Minas Gerais e em São Paulo por exemplo, são ‘um brinco’, mas eu nunca vi uma cidade proporcionar tanta qualidade de vida como Brasília, principalmente por causa do planejamento.

Brasília é uma cidade maravilhosa. A facilidade que temos aqui, principalmente para criar filho, eu nunca vi nada igual. Parece que não, mas é tudo perto, ao alcance dos moradores, pelo menos no Plano Piloto. A realidade nas cidades satélites é diferente, infelizmente, principalmente naquelas mais recentes, criadas depois da década de 90. Mas, de uma maneira geral, todas as pessoas têm essa facilidade da setorização, de ter acesso ao comércio perto de casa, igrejas, lazer.

Sempre fui apaixonado por Brasília. Nasci em Uberaba (MG), mas moro aqui desde os 9 anos. Meu pai era fiscal de tributos em Minas Gerais e foi convidado por Juscelino para vir para o Ministério da Fazenda. Ele veio em 1966. A família – os seis irmãos e nossa mãe – veio definitivamente em 1970, me lembro bem, depois da Copa do Mundo.

Fui criado na 108 Sul, morei lá 20 anos. Frequentava o clube Unidade de Vizinhança – faço natação lá até hoje – e ia à missa na Igrejinha. Também frequentei a escola parque no contraturno escolar. Vivi uma infância singular no fim da década de 60.

Brincávamos embaixo do bloco, nos pilotis, jogávamos bola na quadra. Você sabe por que o gabarito de seis andares? Pra mãe chamar pela janela o filho para subir e almoçar. Éramos muito livres.

Brincávamos embaixo do bloco, nos pilotis, jogávamos bola na quadra. Você sabe por que o gabarito de seis andares? Pra mãe chamar pela janela o filho para subir e almoçar. Éramos muito livres. Dormíamos de porta aberta, a portaria era fechada 22h, mas era só encostada, nem era trancada. A gente vinha das festinhas a pé, em grupo, não tinha violência, nada.

Hoje sou um cara que vive muito a cidade. Tenho cinco filhos, de três casamentos. Eles nasceram em hospital público, fiz questão de estudarem em escola pública, meu plano de saúde é o SUS. Eu sou da rede pública, sempre fui aluno de escola pública com muito orgulho e hoje sou professor da Secretaria de Educação há 30 anos. Trabalho no Centro de Ensino Fundamental (CEF) da 104 Norte. Acredito na educação pública, sou de uma família de professores.

Na minha época, eu matava aula no Caseb para jogar bola e minha mãe falava: ‘oh, se não passar de ano vou te matricular na escola particular’. Era um castigo porque o particular tinha a fama de que pagou, passou. Era fácil. Todo mundo queria ir para a escola pública, era um mérito conseguir vaga na rede pública.  

Brasília sempre me encantou muito. Quando eu fui para o Rio que eu vi que existia um certo bairrismo. As pessoas falavam muito mal de Brasília. Na praia vi um cara falando mal da cidade. ‘Ah, que Brasília não tem esquinas’, todos aqueles jargões que falam. Eu perguntei: ‘você morou onde em Brasília?’. E ele: ‘ah, eu não conheço’. Eu já estava pronto para defender Brasília, sempre.

Eu tenho orgulho de Brasília, foi uma cidade que me acolheu com muito carinho desde minha infância. A arquitetura que temos é singular, não tem nada igual. Essa coisa do espaço, não ter arranha-céu na cidade, até nosso cemitério é diferente. Sempre podemos ver o céu, que é nosso mar.”

 

José Odair Meireles Nunes, o Zeca, 58 anos, mora na Asa Norte

  • Depoimento concedido à jornalista Gizella Rodrigues