20/3/20 13:00
Atualizado em 20/3/20 às 14:36

Toys, um grafiteiro que enche a capital de cor

Daniel, o Toys, já pintou mais de mil painéis em 15 anos de carreira. No início, focava no Plano Piloto, “ponto de encontro” do DF. “Agora, quero fazer o caminho inverso, pintar nas regiões administrativas”, diz

33dias para os 60 anos de Brasília

Em homenagem à capital federal, formada por gente de todos os cantos, a Agência Brasília está publicando, diariamente, até 21 de abril, depoimentos de pessoas que declaram seu amor à cidade.

 

Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília
Toys conheceu dez países graças ao seu trabalho. Segundo conta, Brasília é diferente de tudo o que conheceu. “É peculiar na forma arquitetônica e na forma de se espalhar. O que eu mais gosto daqui é que Brasília é uma geometria e meu trabalho é muito geométrico”, fala. Foto: Tony Oliveira/Agência Brasília

 

“Eu sou o Daniel, mais conhecido como Toys, sou nascido e criado em Brasília, sempre morei no Guará e faço grafite há 15 anos. Nessa caminhada, eu tive a oportunidade de conhecer pessoas maravilhosas e de viver minha cidade, porque estou sempre nas ruas de Brasília. Meu caráter e meus valores foram moldados aqui.

Também pude conhecer dez países graças ao meu trabalho. Brasília é diferente de tudo o que conheci. É peculiar na forma arquitetônica e na forma de se espalhar. O que eu mais gosto daqui é que Brasília é uma geometria e meu trabalho é muito geométrico.

Apesar de ter os bonecos, os personagens, tudo parte do princípio da geometria, dos ângulos curvos, retos. Então, querendo ou não, tem tudo a ver essa conversa entre a minha geometria e a geometria da cidade. A própria planta da cidade ser um avião, eu acho muito legal. Eu enxergo Brasília como módulos de informação geométricos, tanto o Plano Piloto que é mais bem desenhado, quanto as satélites, que é algo mais orgânico.

Se eu pudesse grafitar algum monumento de Brasília, escolheria o Museu da República, aquele círculo de concreto, até pelo formato dele. Ele é muito branco, daria pra fazer um trabalho bem legal.

Esteticamente, Brasília me chama a atenção porque ela é muito padronizada nas cores. Tem o azul do céu, o branco do concreto das construções, que na seca vira aquele vermelho, aquele barro que gosto muito. Esse contraste de ser seis meses vivo e seis meses no deserto é bem legal pra mim. Daí eu inseri muita cor, meu trabalho é coloridaço e cheio de informação. Nada melhor que jogar muita cor nesse concreto e nesse azul pra dar uma quebrada. Meu trabalho chama muita atenção por isso, foge do padrão da cidade.  

Brasília é muito nova, são só 60 anos, é uma tela em branco. As gerações que estão vindo, nascendo em Brasília, é que estão começando a dar a cara da cidade. Eu, por exemplo, tenho 28 anos, peguei a cidade já formada, mas agora ela está crescendo e eu estou crescendo junto com ela. É como se meu trabalho, que está em vários lugares, já fizesse parte da cidade. E é o que eu desejo, que meu traço vire identidade visual de Brasília.

Já perdi as contas de quantos painéis pintei nesses 15 anos. Mais de mil, acho. Quando comecei a pintar, até alguns anos atrás, focava muito no Plano Piloto porque eu acreditava que era o ponto de encontro de todas as cidades satélites. Mas agora quero fazer o caminho inverso, quero sair do Plano e pintar mais nas regiões administrativas, até em lugares que ninguém vai ver, como uma tampa de esgoto ou embaixo de uma ponte que ninguém passa.

Se eu pudesse grafitar algum monumento de Brasília, escolheria o Museu da República, aquele círculo de concreto, até pelo formato dele. Ele é muito branco, daria pra fazer um trabalho bem legal. A Catedral é linda, mas acho que ela é perfeita. Não precisaria pintar ela, até por causa daquela geometria.

Eu espero que Brasília dê cada vez mais oportunidades, tanto pra mim quanto para essa nova geração de brasilienses. E desejo que as pessoas daqui comecem, cada vez mais, a criar a cara de Brasília. A gente é muito novo, tem muito para crescer.”

Toys Daniel, 28 anos, artista plástico, mora no Guará