21/3/20 13:00
Atualizado em 21/3/20 às 13:00

Giséle Santoro, um “Pas de Deux” com a capital

Aos 81 anos, essa incrível bailarina ainda continua a ensinar sua arte. E tem muita história para contar sobre sua relação com a cidade, a partir da própria inauguração, em 1960, quando dançou balé em cima do Congresso Nacional

32dias para os 60 anos de Brasília

Em homenagem à capital federal, formada por gente de todos os cantos, a Agência Brasília está publicando, diariamente, até 21 de abril, depoimentos de pessoas que declaram seu amor à cidade.

 

Foto: Paulo H. de Carvalho/Agência Brasília
Gisèle Santoro sempre adorou a cidade, o verde, a possibilidade de ter um beija-flor na varanda. “A gente sai ali embaixo, pega manga e vem comer em casa. A gente se sente ligado à natureza. Eu me sinto como se estivesse no campo, mas ao mesmo tempo na cidade”, diz. Foto: Paulo H. de Carvalho/Agência Brasília

 

“Minha história com Brasília é muito longa porque eu dancei na inauguração da cidade, em cima do Congresso. Minha mãe era diretora da Câmara dos Deputados, e meu tio era vice-presidente da Casa. Depois, minha mãe, com a mudança da capital, teve que vir para cá. Em 1962, deixei o corpo de baile do Municipal (no Rio de Janeiro) porque a diretora saiu de lá e revolveu montar uma companhia de dança particular.

O (maestro) Cláudio Santoro era muito amigo dela e tinha acabado de chegar em Brasília para montar o Departamento de Música da Universidade de Brasília (UnB). No começo, naquela primeira fase, ele ficou encarregado de criar uma vida cultural na cidade, organizava concerto e tudo o mais.

Eu dançava balé com músicas do Cláudio. Ele morava naquela época junto com outros professores na UnB, num prédio chamado Centro de Dança, na época chamado alojamento da Petrobrás. Foi assim que o conheci e aí começou um romance de amor. Eu era casada com o Oscar Castro Neve, precursor da bossa nova, que disse para mim: ‘Se eu fosse mulher eu também me apaixonaria por ele’. Ele era fã do Cláudio total, da música do Cláudio.

Aqui você olha para o horizonte e está olhando desde o nascente até o pôr do sol. Vê a Lua nascer que nem um queijo e depois ficar linda de morrer lá em cima. Aqui você abre a porta e já está no jardim, está na piscina, está no lago. Essa é a qualidade de Brasília.

Fizemos uma viagem pela Europa e viemos para Brasília em 1963, mas não durou muito tempo, não, porque com a revolução de 1964 fomos para o exílio na Alemanha, retornando só em 1978. Retornarmos porque o Cláudio era apaixonado por Brasília. Ele voltou cinco anos depois de ele se aposentar na Alemanha.

Eu, na verdade, não queria voltar. Foi a época mais feliz da minha vida os anos que eu passei na Alemanha. A gente estava maravilhosamente bem lá, éramos muito respeitados, mas Cláudio, muito mais do que eu, era totalmente ligado a Brasília, como se fosse um filho que ele não tinha conseguido levar adiante, a obra que ele começou aqui e tinha que continuar.

Eu sempre adorei a cidade, sendo o que ela é, o verde que ela tem, a possibilidade de você ter um beija-flor na sua varanda, um morcego… coruja, gavião, tudo aparece aqui. A gente sai ali embaixo, pega manga e vem comer em casa. A gente se sente muito ligado à natureza. Eu me sinto como se estivesse no campo, mas ao mesmo tempo na cidade.

Eu detesto uma cidade que você tem que olhar para cima para ter que olhar o céu, como São Paulo ou Nova York. Aqui você olha para o horizonte e está olhando desde o nascente até o pôr do sol. Vê a Lua nascer que nem um queijo e depois ficar linda de morrer lá em cima. Aqui você abre a porta e já está no jardim, está na piscina, está no lago. Essa é a qualidade de Brasília. O único drama para mim e que não deixa a cidade ser perfeita é porque a parte cultural dela, assim como é no Brasil, é jogada pras cucuias. Se essa cidade fosse criada na Alemanha, o que seria em material de cultura…

Um dos prazeres que Brasília me deu foi ter criado o Seminário Internacional de Dança, que este ano vai para a 30ª edição e que já mandou quase nove mil bailarinos para o exterior com bolsas de estudos e contratos. Tem um menino de Samambaia que hoje é diretor de uma cia de dança no Canadá. Tem uma menina de 16 anos que trabalha num teatro na Alemanha que ganha uns mil euros por mês. Tudo isso, mais do que orgulho, representa uma missão de vida. Porque eu sou único, você é único, ele é único, talento não se joga fora, quando não aproveito você é o planeta que perde, a cidade que perde e a gente faz isso aos milhões.

O que espero para Brasília e para o Brasil é que a educação seja mais valorizada. Ela é tudo para o ser humano, tudo.” 

Gisèle Santoro, bailarina, 

  • Depoimento concedido ao jornalista Lúcio Flávio