5/4/20 13:00
Atualizado em 6/4/20 às 12:06

Ciro Marcondes e o quadradinho em forma de quadrinhos

O professor e crítico de cinema e HQs diz que é difícil pensar num brasiliense mais típico do que ele. “Discreto, pacato, gosto de pensar que tenho apreciação estoica da vida”, apresenta-se

16dias para os 60 anos de Brasília

Em homenagem à capital federal, formada por gente de todos os cantos, a Agência Brasília está publicando, diariamente, até 21 de abril, depoimentos de pessoas que declaram seu amor à cidade.

Foto: Arquivo pessoal
Ciro Marcondes diz que em Brasília estamos constantemente dentro de um filme. “De um filme construtivista russo, pensado por Lucio Costa e pelo comunista Oscar Niemeyer”, completa | Foto: Arquivo pessoal

“Minha mãe é goiana e meu pai, paulistano. Eles já tinham dois filhos, nascidos em São Paulo, antes de virem buscar uma nova aventura do viver em Brasília, no ano de 1978. Eu nasci pouco depois, em 1981. Até hoje guardo minhas fotos de quando ainda era quase um bebê, caminhando pelos azulejos pretos do chão do Bloco C da 308 Sul, a ‘quadra modelo’. Daí deriva também minha vida no jardim de infância (com araras!), na Escola Classe e na Escola Parque dessa quadra, onde tive experiências cristalizadas na memória, e onde conheci pessoas que hoje são velhos e inseparáveis amigos.

É difícil pensar num brasiliense mais típico do que eu. Discreto, pacato, gosto de pensar que tenho apreciação estoica da vida. A matematização do espaço na cidade, com sua ordem cartesiana, se inocula também na mentalidade do cidadão daqui, tornando-o, de certa forma (ainda que isso seja apenas um véu), ordeiro. Cidades caóticas e com nomes de ruas sempre me deixaram um pouco apavorado. Quando morei em duas delas (Vitória e Paris), tive de reaprender o caminhar e a orientação cardinal. Gosto de calcular e aferir o espaço. Gosto de organizar as informações e apresentá-las. Sou brasiliense, virei professor.

A matematização do espaço na cidade, com sua ordem cartesiana, se inocula também na mentalidade do cidadão daqui, tornando-o, de certa forma (ainda que isso seja apenas um véu) ordeiro.

Desde muito pequeno eu gostava de desenhar histórias em quadrinhos. Tratava-se de uma família de personagens abobalhados que moravam em Brasília (mais especificamente, no Gama, sabe-se lá por que, já que eu nunca pisara lá) e, como se a cidade fosse o centro do universo, tudo acontecia no DF: invasões alienígenas, aventuras de super-heróis, terremotos. Durante um certo tempo, Brasília era para mim o mundo – escrevi contos, poemas e até um romance (inacabado) sobre a cidade.

Existe aqui também uma horizontalidade de cinemascope, com faixas e frequências de percepção (o céu, os prédios, a pista etc.). Olhar para esse ambiente, de certa forma, é se alojar na famosa ‘câmera-olho’, proposta pelo antigo cineasta soviético Dziga Vertov. Estamos constantemente dentro de um filme. De um filme construtivista russo pensado por Lucio Costa e pelo comunista Oscar Niemeyer. 

Meu interesse pelo cinema cresceu muito na adolescência. Devorava três, quatro filmes por dia e fui criando um repertório em VHS que me formou professor de cinema. Lembro-me de ter 19 anos quando vi Lavoura Arcaica vencer o Festival de Brasília, em 2001. Hoje, bate uma certa vergonha de ter cumprimentado Selton Mello com lágrimas nos olhos, após o arrebatamento causado por aquela obra-prima. Esse evento rendeu minha primeira crítica cinematográfica, no saudoso site Candango.

Já produzi centenas de críticas de cinema e quadrinhos, dei aula em várias instituições diferentes e ajudei a formar milhares de alunos. A turma da qual mais me orgulho é a que chamo de ‘classe de 2013’, quando ministrava ensino orientado na UnB, com a disciplina Oficina de Histórias em Quadrinhos. Alunos de artes, comunicação, filosofia, desenho industrial e outros cursos correram para fazê-la, já que não era oferecida havia anos. 

Criamos um ambiente contagiante e afetivo para investigar e produzir quadrinhos. Boa parte desses alunos seguiu profissionalmente como quadrinista (com projeção nacional) – uma carreira difícil e mal remunerada –, perseguindo sonhos, julgo eu, germinados naquele ambiente. Tenho orgulho de pensar que a cena brasiliense em HQs teria sido muito diferente, sem aquela turma, nos dias de hoje.

É neste ethos, portanto, que gosto de situar o brasiliense: uma mistura de sonho e resignação. Como o velho sonho de Dom Bosco: situado entre o que nunca foi e o que sempre será.”

Ciro Inácio Marcondes, 38 anos, professor universitário e crítico de cinema e histórias em quadrinhos, é morador da Asa Sul